É incrível como gostamos de categorizar e generalizar as coisas. Parece uma organização de fatos obsessiva-compulsiva, vemos algo e já rotulamos e guardamos na gavetinha de coisas similares. Gavetinha de coisas boas: dinheiro, tecnologia, evolução, ecologia. Gavetinha de coisas ruins: morte, rudimentaridade, simplicidade.
O problema é que o mundo é muito mais complexo do que rótulos e gavetas, o mundo tem muitos mais fatores influentes. Nada é 'sim, sim', 'não, não'; a própria Bíblia mostra isso no "tudo nos é lícito mas nem tudo convém". Há coisas que são boas em certos momentos, mas em outros simplesmente...não.
Duas coisas que vivem em conflito por causa desses rótulos todos são a Ciência e a Religião.
As pessoas insistem em colocá-las em gavetas opostas, não aceitam que há coexistência da ciência e da religião, de mãos dadas podem fazer muito mais sentido do que cada uma por si só.
Como o bem e o mal, a escuridão e a luz, as pessoas definem assim a ciência e a religião, seriam conflitantes e opostos quando isso não é verdade, é ignorância fingir que um desses não exista.
De acordo com nossa amissíssima Wikipedia,
Ciência (do latim
scientia, conhecimento) é o que
constrói e
organiza o conhecimento na forma de
explicações experimentáveis e previsões sobre o mundo natural. Uma segunda definição bastante interessante é a de Aristóteles para quem o conhecimento científico é um
corpo de conhecimento que pode ser explicado lógica e convincentemente.Ora essa, nada dessa explicação grita ateísmo ou humanismo, seria a crença nos fatos e nos fatos apenas - explicando o
o que e o
como, não há barreiras impostas quanto ao
por quê.
A
Religião também está aqui descrita como sendo a
crença e
adoração de um deus ou deuses, ou um conjunto de crenças
quanto à origem e
finalidade do universo.
Não vi nada sobre religião banalizar lógica e racionalidade. Interessante.
Sendo a minha visão religiosa predominantemente cristã/protestante, lendo aqui a wikipédia surgiu o ponto de que nem todas as religiões convivem pacificamente com a ciência, notei como acertei em colocar o
necessariamente ali em cima de que ciência e religião não estão necessariamente em conflito. Tive um princípio de generalização (estou começando a me contradizer, melhor acabar logo de escrever!), portanto volto atrás e refraseio meu objetivo em escrever tudo isso: Deus e religião podem, sim, coexistir.
Nada impede o mundo de funcionar de uma forma que faça sentido na nossa lógica e razão humana, nada impede que o Deus que criou o universo tenha criado nossas mentes para funcionar no mesmo sistema, de uma forma compreensível para nós com regras e leis físicas que nos permitem compreender e prever certos acontecimentos naturais.
Nada impede Deus de ter criado a ciência.
Claro que tudo isso que falei até agora foram palavras e teorias minhas, então que tal ouvirmos o que alguns grandes mestres da ciência e religião disseram sobre essa discussão?
Galileu GalileiGalileu tem como uma frase de sua autoria "vejo a natureza como um livro cujo autor é Deus da mesma forma que as Escrituras têm Deus como seu autor", frase que demonstra bem a união que ele via entre ambas.
Um outro episódio que ouvi no colégio sobre Galileu (e realmente espero que seja verdade) que achei fantástico, foi que ele estava discutindo com um amigo cientista sobre a vida, o universo e tudo mais. O amigo fez questão de mostrar seu ponto de vista ateu do mundo, disse que era tolice Galileu acreditar que havia um deus que criou tudo, que tudo poderia ser explicado apenas pela ciência.
Alguns dias depois, esse amigo de Galileu chegou à casa dele e viu um pequeno modelo do Sistema Solar, belíssimo e detalhado (ou melhor, um modelo daquilo que se conhecia do sistema solar). Perguntou "Você fez isso?" "Não", respondeu Galileu. "Quem então fez?" "Ninguém!" "Alguém deve ter feito, não pode ter surgido do nada" "ninguém fez" "Pare de mentir para mim!" "Ora, se você não tem dificuldade em acreditar que o universo real surgiu do nada, porque deveria ter dificuldade em acreditar que um modelo simples assim seria fruto do acaso?".
O resultado? Bom, o tal amigo deixou suas crenças e argumentações atéias. Ah, a lógica!
A ironia? Galileu foi para a fogueira, condenado pela Santa Inquisição. Deus e religião são coisas definitivamente diferentes!
Stephen HawkingO cosmologista e autor Stephen Hawking foi convidado para em 2008 ir ao Vaticano falar sobre evolução.
30 anos antes, ele havia ido e falado que não haveria início definido para o Universo, o que tiraria toda a possibilidade de existência de Deus. Até brincou dizendo que esperava que o papa não soubesse disso, ou ele teria o mesmo fim de Galileu.
O fim foi outro, felizmente! O mundo não perdeu mais um grande cientista. Mesmo tetraplégico, nosso querido gênio foi convidado ao Vaticano e o papa Benedicto XVI confrontou Hawkings e perguntou-lhe "Você acredita em Deus?" "Há duas explicações para a origem do universo. Uma é que não há origem, ele sempre existiu, e portanto não haveria um Criador, pois não se pode criar algo que sempre existiu. A outra é que o Universo teve sim um começo, como pode ser visto pela teoria do Big Bang e que exigiria um motivo para aquele Ovo Cósmico existir e ter explodido. Portanto, creio ser inteiramente plausível se chamar esse Criador de Deus, sim" e assim, ciência e religião deram as mãos.
Igreja CatólicaAté que o velhinho papa Benedicto XVI usa a cabeça, ora essa. Uniu ciência e religião e se declara um "teísta evolucionista", vendo a evolução como parte do plano divino da Criação.
Depois de séculos de conflito da igreja para com a razão e a ciência, parece existir paz. Claro que depois de muitos grandes pensadores terem se perdido 'acidentalmente' como 'efeito colateral' desse conflito bobo e sem objetivo, mas a verdade é que há paz. Finalmente.
O Cardenal Paul Poupard, predecessor de Monsignor Ravasi como chefe do Pontíficie Conselho da Cultura disse que Gênesis e a teoria evolutiva de Darwin são "perfeitamente compatíveis" caso a leitura da Bíblia fosse feita "corretamente"
(um tanto estranho falar em leitura certa e errada, lá vai a igreja Católica definindo como se lê...). A verdadeira mensagem do Genesis teria sido a de que "o Universo não fez a si mesmo e teve um criador", de acordo com ele.
Stephen Jay GouldConhecido como o melhor biólogo evolucionista dos Estados Unidos não tinha crença religiosa, mas vale à pena ver suas afirmações quanto à ciência e religião:
Declaro a todos os meus colegas, pela milionésima vez (desde os debates informais da universidade até os tratados eruditos): a ciência simplesmente não tem como (por métodos legítimos) deliberar sobre a possível supervisão de Deus na natureza. Não afirmamos nem negamos; apenas não podemos comentar sobre isso como cientistas.
Sir Peter MedawarGanhador do Prêmio Nobel de Medicina pela descoberta da tolerância imunológica adquirida, ele deliberou sobre os claros limites da ciência e dos cientistas de forma interessantíssima:
O caminho mais rápido para um cientista atrair descrédito sobre si mesmo e sua profissão é declarar categoricamente - em especial quando não há a mínimo necessidade dessa declaração - que a ciência sabe, ou logo saberá, a resposta de todas as questões que valem a pena serem levantadas, e que aquelas que não admitem resposta científica são de certa forma "pseudo-questões", que apenas simplórios perguntam e ingênuos se dizem capazes de responder.
Os fatos despidos de opiniões pessoais são que a ciência, por mais fantástica (e confortável) que seja, tem sim os seus limites; a decisão cabe a cada um compreender além desses limites através de Deus ou da religião, não buscar além dos limites ou viver na eterna busca pelos fatos e explicações. O poder de escolha ao mesmo tempo que é confortante é amedrontador, porque não mais há um caminho a ser seguido quando o assunto vai além dos fatos, e você deve escolher aquele que faça mais sentido a você como indivíduo, você começa a escolher a sua verdade.
Poderia gastar horas explicando minhas teorias, mas as minhas verdades não são necessariamente as suas verdades, e seria simplesmente um ponto de vista próprio.
Mas pelo menos agora está claro... a ciência, a religião e Deus podem viver harmoniosamente, basta você encontrar a sinfonia que soe melhor aos seus ouvidos.