A lógica e o fato são duas coisas bastante confortáveis, ajudam a gente a interagir com o mundo de uma maneira que nos deixa mais felizes. Se não fosse assim, nunca teríamos inventado a roda ou ferramentas que nos ajudaram ao longo da história: Descobrimos como algo funcionava, aquilo podia ser previsto e facilitado devido a essa previsão, o que nos dava mais tempo pra descobrir outras coisas e assim aprender mais, conhecer mais, facilitar mais pra aprender mais.
Gostamos de identificar padrões para as maiorias mas, como ensina a biologia quando avançamos os estudos, descobrimos que existem as chamadas (e temidas) excessões. Nem tudo funciona dentro dos padrões que estabelecemos, mas mesmo assim insistimos em fazer nossos padrões.
Comecei a fazer essa reflexão porque tenho essa tendência muito forte a me apegar a lógica, rótulos e fatos, em qualquer área da minha vida, não só aos estudos. Muitas vezes as grandes discussões que tenho com pessoas são "Mas isso não faz sentido! É ilógico!" "Você está sendo irracional." "Mas isso é contraditório e não é de acordo com as observações ou com minhas experiências passadas."
Gosto de lidar com pessoas claras e lógicas, que sejam fáceis de entender, assim como gosto bastante de conceitos assim. Contudo, tenho ponderado e percebido que a lógica e a razão não são verdades supremas ou bons parâmetros pra lidarmos com o mundo e aqui posso ser bem impopular devido a essa colocação porque são padrões incrivelmente subjetivos e mutáveis e que dependem de uma série de pressupostos.
Um exemplo: detesto fazer demonstrações matemáticas porque, por mais que sejam lógicas, ainda precisamos partir de pressupostos que eu não sabia que podia partir: 'Espera, mas como eu posso assumir isso se estou provando que 1 é diferente de 0? Se um fosse igual a zero isso não automaticamente perderia a validade? Minha demonstração não está sendo tendenciosa?'
Da mesma maneira, demonstrar uma argumentação também parte de pressupostos subjetivos a cada ser humano. Somos seres humanos e temos algumas coisas em comum mas, convenhamos, jogar toda a humanidade em uma categoria e dizer que seguem determinado padrão é bem complicado - tanto é que a psicologia é considerada uma pseudociência, não uma ciência.
Contudo, a ciência é feita por seres humanos, e as pessoas a aceitam como fatos incontestáveis. Espera, então os seres humanos não são regidos por verdades absolutas e comuns a todos então são subjetivos, mas a ciência que esses mesmos seres humanos produzem podem ter verdades absolutas? Mas o cérebro humano que produz teoremas e fatos 'incontestáveis' não é o mesmo cérebro que produz emoções, sentimentos e subjetividade? Porque então existe 'lógica' como um parâmetro absoluto? Porque a observação e experimentação são tidas como parâmetros válidos?
Aliás, porque acreditamos que nosso cérebro e nossa compreensão humana podem compreender o mundo que nos cerca quando esse cérebro não compreende a si mesmo? Não é uma loucura e um ciclo sem fim um cérebro que não entendemos dizer o que podemos ou não entender?
Sei que tudo isso pode parecer loucura, especialmente se formos considerar que eu sou eu e o número de vezes que já escrevi nesse mesmo blog sobre como me apego à ciência, aos fatos e verdades; sei que pode parecer loucura porque estou usando esse mesmo cérebro pra pensar e escrever contra a supremacia do cérebro no conhecimento e produção de verdades, mas acredito que essa seja a palavra perfeita pra descrever isso tudo: É loucura! É tudo loucura! .
Quanto mais tento entender a lógica, a razão, o cientificismo, entendo que isso é mais uma cosmovisão: uma visão do mundo que afeta toda a nossa interação e reação ao mundo: ela não é soberana e não tem todas as respostas. Apenas acontece que estamos dentro de um contexto social que acredita que frases como 'comprovado por cientistas que...' tem o mesmo valor que os povos na antiguidade davam a frases como 'os sacerdotes receberam uma mensagem que...'.
Nós não estamos em um período de busca da verdade pura e simples sem idolatria e idealização, nós meramente mudamos nosso objeto de adoração: em vez de buscar no divino as respostas, buscamos em nós mesmos, na nossa lógica e na nossa razão as respostas. E, convenhamos, isso é bastante conveniente: nós termos por padrão qualquer coisa que nós mesmos criamos é bastante adequado pra fazermos e pensarmos o que quisermos.
Seria o mesmo que eu achar que o tamanho certo de camiseta é o tamanho que cabe em mim. Sempre será verdade, mesmo que não seja verdade para o restante das pessoas. Então, dizemos que o jeito certo de entender o universo é o jeito que nós, seres humanos, entendemos, mesmo que isso não seja verdade para o restante do universo.
Substituímos nossos deuses pelo conhecimento e pela lógica confortável, nossos sacerdotes e pastores são agora cientistas e pensadores, não sacrificamos nossos animais ou filhos em adoração - mas sacrificamos nosso tempo e nossos relacionamentos em busca de mais respostas pra entendermos, prevermos e assim controlarmos o mundo. No final, o que queremos é controle.
Antigamente em qualquer civilização, os povos atribuíam o controle a divindades e pediam por meio de rituais para que as coisas fossem de acordo com a vontade deles, mas hoje nós mesmos tomamos essa responsabilidade e esse cargo, somos nossos próprios deuses: construímos e desconstruímos como queremos, interferimos no mundo como desejamos, e não sabemos mais o que é não ter controle - até que a morte eventualmente nos diz: Você pode fazer o que você quiser, tentar controlar o que você quiser, mas eu sou um fato incontestável. Eis um pequeno fato: você vai morrer.
E então especialmente na nossa cultura ocidental a morte passa a ser desesperadora, é a maior prova que nós não temos controle absolutamente nenhum, apenas uma breve ilusão de que podemos decidir quais as regras do jogo.
Porque comecei toda essa discussão? De onde veio tudo isso? Todos esses pensamentos foram desencadeados por uma pequena loucura minha: enquanto lia o livro de Romanos, pensava no sacrifício de Jesus em favor dos humanos. Deus é justo, portanto devido ao fato que nós quebramos o relacionamento com Deus através do pecado, seria necessário um pagamento: porém por Deus ser misericordioso e gracioso, o sacrifício não foi dos culpados (nós) mas sim de Jesus que, por não ser pecador, mudaria as regras do jogo e pagaria a dívida de todos. E eu fiquei tentando entender essa lógica, e não pude encontrá-la.
Espera, se Deus é justo, porque ele foi injusto com Jesus fazendo ele morrer? Se ele foi tão misericordioso conosco, porque não mostrou esse amor ao próprio filho? Isso seria uma contradição? Qual o parâmetro divino de justiça então se não se assemelha ao nosso parâmetro?
Perguntas e mais perguntas estavam na minha cabeça, e tentei ler e reler, pensar e repensar, mas não pude elaborar uma explicação. A lógica me falhou. Mas... se a lógica falhou, como que um ser humano teria estabelecido essa lógica? Porque o cristianismo, diferentemente de outras religiões, não se adapta ao nosso conforto? Então deve haver algo diferente no cristianismo pra que esteja fora do que produziríamos normalmente.
Contudo... mesmo com todos esses questionamentos, em nenhum momento questionei a validade do sacrifício, questionei se eu era livre ou não. Elementarmente, já tive dúvidas sobre Deus, já tive crises de fé, porém todas elas foram superadas e acredito de verdade que haja sabedoria em tudo isso, mas uma sabedoria tão além de nós e da nossa zona de conforto, que talvez eu nunca consiga entender. Ainda assim, não deixo de perder a confiança de que Deus, de alguma maneira, tenha sentido nisso tudo.
Lembro de uma canção que diz: I find peace when I'm confused. I find hope when I'm let down, but not in me, but in You. Encontrei paz na minha confusão como nunca havia encontrado.
Percebi que minha cosmovisão fora estabelecida nesse momento, que, dada a escolha, escolhi a Verdade da fé, mesmo que do ponto de vista lógico ou científico fosse inconveniente e difícil de entender e, em muitos sentidos, parecesse loucura. Eu decidi aceitar que um é diferente de zero, porque a demonstração era além da minha munição intelectual, e, por uma vez, não me importei com isso.
E foi daí que em um súbito lampejo de lucidez percebi: a Verdade nem sempre é lógica. A Verdade também é loucura.