segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Um ensaio sobre a loucura

A lógica e o fato são duas coisas bastante confortáveis, ajudam a gente a interagir com o mundo de uma maneira que nos deixa mais felizes. Se não fosse assim, nunca teríamos inventado a roda ou ferramentas que nos ajudaram ao longo da história: Descobrimos como algo funcionava, aquilo podia ser previsto e facilitado devido a essa previsão, o que nos dava mais tempo pra descobrir outras coisas e assim aprender mais, conhecer mais, facilitar mais pra aprender mais. 
Gostamos de identificar padrões para as maiorias mas, como ensina a biologia quando avançamos os estudos, descobrimos que existem as chamadas (e temidas) excessões. Nem tudo funciona dentro dos padrões que estabelecemos, mas mesmo assim insistimos em fazer nossos padrões. 
Comecei a fazer essa reflexão porque tenho essa tendência muito forte a me apegar a lógica, rótulos e fatos, em qualquer área da minha vida, não só aos estudos. Muitas vezes as grandes discussões que tenho com pessoas são "Mas isso não faz sentido! É ilógico!" "Você está sendo irracional." "Mas isso é contraditório e não é de acordo com as observações ou com minhas experiências passadas." 
Gosto de lidar com pessoas claras e lógicas, que sejam fáceis de entender, assim como gosto bastante de conceitos assim. Contudo, tenho ponderado e percebido que a lógica e a razão não são verdades supremas ou bons parâmetros pra lidarmos com o mundo e aqui posso ser bem impopular devido a essa colocação porque são padrões incrivelmente subjetivos e mutáveis e que dependem de uma série de pressupostos. 
Um exemplo: detesto fazer demonstrações matemáticas porque, por mais que sejam lógicas, ainda precisamos partir de pressupostos que eu não sabia que podia partir: 'Espera, mas como eu posso assumir isso se estou provando que 1 é diferente de 0? Se um fosse igual a zero isso não automaticamente perderia a validade? Minha demonstração não está sendo tendenciosa?'
Da mesma maneira, demonstrar uma argumentação também parte de pressupostos subjetivos a cada ser humano. Somos seres humanos e temos algumas coisas em comum mas, convenhamos, jogar toda a humanidade em uma categoria e dizer que seguem determinado padrão é bem complicado - tanto é que a psicologia é considerada uma pseudociência, não uma ciência. 
Contudo, a ciência é feita por seres humanos, e as pessoas a aceitam como fatos incontestáveis. Espera, então os seres humanos não são regidos por verdades absolutas e comuns a todos então são subjetivos, mas a ciência que esses mesmos seres humanos produzem podem ter verdades absolutas? Mas o cérebro humano que produz teoremas e fatos 'incontestáveis' não é o mesmo cérebro que produz emoções, sentimentos e subjetividade? Porque então existe 'lógica' como um parâmetro absoluto? Porque a observação e experimentação são tidas como parâmetros válidos?
Aliás, porque acreditamos que nosso cérebro e nossa compreensão humana podem compreender o mundo que nos cerca quando esse cérebro não compreende a si mesmo? Não é uma loucura e um ciclo sem fim um cérebro que não entendemos dizer o que podemos ou não entender? 

Sei que tudo isso pode parecer loucura, especialmente se formos considerar que eu sou eu e o número de vezes que já escrevi nesse mesmo blog sobre como me apego à ciência, aos fatos e verdades; sei que pode parecer loucura porque estou usando esse mesmo cérebro pra pensar e escrever contra a supremacia do cérebro no conhecimento e produção de verdades, mas acredito que essa seja a palavra perfeita pra descrever isso tudo: É loucura! É tudo loucura! . 


Quanto mais tento entender a lógica, a razão, o cientificismo, entendo que isso é mais uma cosmovisão: uma visão do mundo que afeta toda a nossa interação e reação ao mundo: ela não é soberana e não tem todas as respostas. Apenas acontece que estamos dentro de um contexto social que acredita que frases como 'comprovado por cientistas que...' tem o mesmo valor que os povos na antiguidade davam a frases como 'os sacerdotes receberam uma mensagem que...'. 
Nós não estamos em um período de busca da verdade pura e simples sem idolatria e idealização, nós meramente mudamos nosso objeto de adoração: em vez de buscar no divino as respostas, buscamos em nós mesmos, na nossa lógica e na nossa razão as respostas. E, convenhamos, isso é bastante conveniente: nós termos por padrão qualquer coisa que nós mesmos criamos é bastante adequado pra fazermos e pensarmos o que quisermos. 
Seria o mesmo que eu achar que o tamanho certo de camiseta é o tamanho que cabe em mim. Sempre será verdade, mesmo que não seja verdade para o restante das pessoas. Então, dizemos que o jeito certo de entender o universo é o jeito que nós, seres humanos, entendemos, mesmo que isso não seja verdade para o restante do universo. 

Substituímos nossos deuses pelo conhecimento e pela lógica confortável, nossos sacerdotes e pastores são agora cientistas e pensadores, não sacrificamos nossos animais ou filhos em adoração - mas sacrificamos nosso tempo e nossos relacionamentos em busca de mais respostas pra entendermos, prevermos e assim controlarmos o mundo. No final, o que queremos é controle. 
Antigamente em qualquer civilização, os povos atribuíam o controle a divindades e pediam por meio de rituais para que as coisas fossem de acordo com a vontade deles, mas hoje nós mesmos tomamos essa responsabilidade e esse cargo, somos nossos próprios deuses: construímos e desconstruímos como queremos, interferimos no mundo como desejamos, e não sabemos mais o que é não ter controle - até que a morte eventualmente nos diz: Você pode fazer o que você quiser, tentar controlar o que você quiser, mas eu sou um fato incontestável. Eis um pequeno fato: você vai morrer. 
E então especialmente na nossa cultura ocidental a morte passa a ser desesperadora, é a maior prova que nós não temos controle absolutamente nenhum, apenas uma breve ilusão de que podemos decidir quais as regras do jogo. 
Porque comecei toda essa discussão? De onde veio tudo isso? Todos esses pensamentos foram desencadeados por uma pequena loucura minha: enquanto lia o livro de Romanos, pensava no sacrifício de Jesus em favor dos humanos. Deus é justo, portanto devido ao fato que nós quebramos o relacionamento com Deus através do pecado, seria necessário um pagamento: porém por Deus ser misericordioso e gracioso, o sacrifício não foi dos culpados (nós) mas sim de Jesus que, por não ser pecador, mudaria as regras do jogo e pagaria a dívida de todos. E eu fiquei tentando entender essa lógica, e não pude encontrá-la. 
Espera, se Deus é justo, porque ele foi injusto com Jesus fazendo ele morrer? Se ele foi tão misericordioso conosco, porque não mostrou esse amor ao próprio filho? Isso seria uma contradição? Qual o parâmetro divino de justiça então se não se assemelha ao nosso parâmetro? 
Perguntas e mais perguntas estavam na minha cabeça, e tentei ler e reler, pensar e repensar, mas não pude elaborar uma explicação. A lógica me falhou. Mas... se a lógica falhou, como que um ser humano teria estabelecido essa lógica? Porque o cristianismo, diferentemente de outras religiões, não se adapta ao nosso conforto? Então deve haver algo diferente no cristianismo pra que esteja fora do que produziríamos normalmente. 
Contudo... mesmo com todos esses questionamentos, em nenhum momento questionei a validade do sacrifício, questionei se eu era livre ou não. Elementarmente, já tive dúvidas sobre Deus, já tive crises de fé, porém todas elas foram superadas e acredito de verdade que haja sabedoria em tudo isso, mas uma sabedoria tão além de nós e da nossa zona de conforto, que talvez eu nunca consiga entender. Ainda assim, não deixo de perder a confiança de que Deus, de alguma maneira, tenha sentido nisso tudo. 
Lembro de uma canção que diz: I find peace when I'm confused. I find hope when I'm let down, but not in me, but in You. Encontrei paz na minha confusão como nunca havia encontrado. 
Percebi que minha cosmovisão fora estabelecida nesse momento, que, dada a escolha, escolhi a Verdade da fé, mesmo que do ponto de vista lógico ou científico fosse inconveniente e difícil de entender e, em muitos sentidos, parecesse loucura. Eu decidi aceitar que um é diferente de zero, porque a demonstração era além da minha munição intelectual, e, por uma vez, não me importei com isso. 
E foi daí que em um súbito lampejo de lucidez percebi: a Verdade nem sempre é lógica. A Verdade também é loucura. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Um punhado de morangos

"Um monge estava sendo perseguido por um tigre feroz. Correndo o máximo que conseguia, chegou à beira de um precipício. E notou que havia uma corda pendurada que descia pelo despenhadeiro. Então, segurou-se nela e foi descendo pela encosta. Ao olhar para aixo, viu uma enorme rocha pontiaguda a menos de 200m dele. Então o monge olhou para cime, e lá estava o tigre parado bem na beirada. Naquele exato momento, dois camundongos começaram a roer a corda. O que fazer?
O monge olhou para a encosta do precipício e viu uns morandos que haviam crescido ali. Esticando o braço, colheu-os e, enquanto os comia, murmurava: "Nossa! São os melhores morangos que já comi na minha vida." 
- Confiança cega, Brennan Manning

Essa é uma historinha ilustrativa que Manning coloca no seu livro Confiança cega. A princípio parece estranha a história, fiquei confusa por não ter um final, mas comecei a tentar relacionar isso com o restante do livro e com a confiança. 
O monge não estava preocupado, se estivesse preocupado com o passado (tigre) ou com o futuro (pedra), ele poderia facilmente ter perdido a beleza naquele momento, os morangos mais saborosos que já havia comido, teria perdido a oportunidade de experimentar aquilo. 
De maneira oposta, tenho a mente bastante obsessiva-compulsiva com algumas coisas. Estou constantemente avaliando: "Isso está funcionando? Aonde isso vai chegar? Se não for chegar a lugar nenhum, é melhor interromper agora mesmo.", mas isso é uma lógica bem humana e bem errada. 
Recentemente tenho tentado viver a árdua tarefa de viver um dia de cada vez, fazer as coisas com mais tempo, fazer com antecedência, pra tentar viver cada dia em todo o seu potencial, e tem sido uma excelente experiência. Cada caminhada para universidade, cada coisa que tenho que resolver, vou experimentando uma coisa de cada vez, e lentamente estou descobrindo mais beleza no mundo. O céu cinzento passou a ser feito de prata, o céu azul tem um tom favorito, a chuva faz todas as coisas brilharem, tudo de repente passa a ser mais intrigante quando você não está atrasado, correndo ou estressado. Não que não haja coisas a serem feitas, mas são feitas cada uma em seu tempo, sem intersecções. Hoje mesmo me peguei distraída pelo dia quando escrevia uma mensagem: 
"Aqui está o meu tipo de dia preferido: muito vento frio, sol e meu tom favorito de azul no céu... sem contar a primavera se manifestando nas flores e nos lindos cantos de passarinhos cheios de segundas intenções com as passarinhas devido à estação."
Tudo isso me lembrou um trecho de um poema do Tolkien no Senhor dos Anéis:

All that is gold does not glitter,
Not all those who wander are lost;
The old that is strong does not wither,
Deep roots are not reached by the frost.

Ou seja, Tudo o que é ouro não brilha, nem todos os que vagueiam estão perdidos; O velho que é forte não definha, raízes profundas não são atingidas pelo gelo. Alguns motivos pelos quais tenho pensado muito nesses versos: Os morangos não são sempre algo que chamam atenção, que brilham, que nos fazem parar tudo. Nem tudo o que é bom "brilha" como o ouro, porém não deixam de ter valor. Aliás, as coisas mais valiosas acabam sendo surpresas bem agradáveis. 
Segundo, vaguear sem saber o destino certo não significa que estamos perdidos, significa que chegar lá não é sempre o mais necessário, mas sim o processo de chegar lá, e é nesses momentos vagueando que encontramos os pedaços de ouro escondidos. 
Os últimos dois versos são brilhantes, especialmente o último. Se for esticar muito, posso ligar isso a todas as minhas reflexões recentes: A partir da confiança total em Cristo, temos nossa identidade bem enraizada nele, e portanto nossa fonte de todas as coisas está nele, pois ele é o item primário da vida que, colocado no lugar devido, traz automaticamente as coisas secundárias consigo - se temos as raízes nele, o demais não precisa nos afetar tanto. Mesmo se estamos em períodos de seca, de gelo, de inverno ou de calor, nosso fornecimento de força e felicidade passa sem ser interrompido pois temos as prioridades bem estabelecidas e nossas raízes estão presas a ele. 
O que isso tem a ver com morangos? Tudo! É só a partir desse relacionamento bem construído que temos a paz suficiente para levar um dia de cada vez sem morrer de ansiedade querendo ler o final dos capítulos que estamos construindo ainda, só assim confiamos nele pra cuidar das pedras e dos tigres enquanto fazemos nosso melhor no momento, sem perder dádiva alguma vinda de suas mãos amorosas. 
Por mais que seja mais fácil viver isso em coisas pequenas e não em decisões que não dependem apenas de escolhas, em guerras internas e dúvida, aos poucos o mundo torna-se cada vez mais belo e assombroso em sentido positivo - e de repente percebo que estava cercada de pés de morangos que não via por causa de tigres e pedras pontiagudas. Alguém mais aceita morangos?

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quando a resposta é que você não vai ter uma resposta

Ultimamente estou aprendendendo muitas coisas (como sempre). Por mais que não esteja postando muito, minha cabeça tem maquinado e processado muita coisa, talvez tanto que escrever de maneira adequada e sucinta tenha se tornado uma tarefa excessivamente árdua - meus amigos que tenho mantido contato que o digam, mensagens pedindo e dando notícias que antes ocupavam um dois parágrafos agora ocupam 4, 5 ou 6 páginas. 
Um excelente livro que estou lendo no momento é do Brennan Manning, chama-se Confiança cega. O livro foi escolhido a dedo porque, lendo O Evangelho Maltrapilho, percebi que Confiança é um assunto que eu preciso tratar e acabo sempre (sempre) postergando por ser bem incômodo e eu nunca ter aprendido de fato a confiar totalmente nas pessoas. Sempre estou secretamente esperando que elas desapareçam ou quebrem o pouco de confiança que tento depositar nelas, e isso certamente afeta meu relacionamento com Deus. 
Pensando em tudo o que tenho lido, voltei novamente a um tema bastante recorrente em minhas reflexões e meus textos aqui e intrinsecamente relacionado: a nossa paixão e necessidade por controle, e como isso na verdade reflete uma profunda falta de confiança em Deus. Sempre dizem que se você quer algo feito direito, então faça você mesmo. Mas a gente pensa que isso vale pra Deus também um erro que, apesar de bastante comum, não faz sentido algum
Nessa tentativa de confiar e não tomar controle, eu tenho orado muito sobre todos os aspectos da minha vida, mas assim... todos mesmo. Tentando não segurar nada e entregar tudo de mãos abertas, desde decisões pequenas até decisões maiores que tem potencial pra afetar toda a minha vida. Mas acabo entregando perguntas e espero encher minhas mãos novamente com respostas. 
Quanto ao Treinamento Microrregional de São José do Rio Preto, não foi diferente. Orei, pensei se deveria ir, uma série de fatos convergiu pra que eu fosse, e eu fui, ainda que me sentindo meio deslocada e confusa de início afinal, sete horas e meia de viagem não é fácil pra ninguém, mas ei, talvez tivesse respostas sobre minhas outras orações. 
O que não antecipei é que eu voltaria ainda mais confusa quanto a algumas coisas, e apenas com uma resposta: Que eu não teria respostas. Que respostas não importam. 
Isso, elementarmente, foi um tapa na cara. Sou movida a respostas: talvez por ser humana, talvez por ser cientista, eu não sou uma pessoa que vai com a correnteza e vê onde tudo desemboca. Eu planejo, eu antecipo, eu preciso das respostas antes, respostas me movem mais que perguntas. 
"Entretanto, quando assumir o controle se torna parte da nossa reação rotineira nos relacionamentos humanos conturbados e nos problemas que nos preocupam, Deus deixa de ser nosso co-piloto; na verdade, ele nem está a bordo." [Confiança cega, Brennan Manning]
Mas de repente tem uma voz dizendo que elas não importam. 
O fato de não ter respostas impede o planejamento, o fato de não ter respostas tira completamente o controle da situação, e você não pode nem opinar sobre as coisas, sobre as respostas, porque não as tem. 

Agora que voltei e consegui ter um tempo devocional sem estar cercada de pessoas e dando oficinas e falando sem ter muito tempo de pensar, fiz algumas devocionais e estou percebendo que eu não fui a primeira que recebeu essa resposta, eu simplesmente caí na mesma situação que a grande maioria dos personagens Bíblicos que não receberam respostas certas. Deus pediu pra que Abraão deixasse a sua terra e fosse pra 'terra que ele mostraria', ele não falou qual ou onde era, ele só falou: saia da sua zona de conforto. Mais pra frente, ele pediu pra que ele sacrificasse Isaque - ele não falou que ele não o mataria de verdade e que seria feito outro sacrifício no lugar. Ele não falou pro povo de Israel que estava saindo do Egito que eles passariam quarenta anos no deserto pra chegar na terra prometida, muito menos onde ou qual era essa terra. 
Pelo que tenho observado, Deus não trabalha sempre com respostas certas pra trabalhar a nossa fé e nossa confiança acima de todas as coisas, pois elas são fundamentais no relacionamento com ele, e o relacionamento é o que mais importa.
Aprendemos algumas outras coisas inclusive em coisas aparentemente pequenas, até quando Deus mandava o maná pro povo se alimentar, eles estavam proibidos de guardar para o outro dia porque estragaria - precisavam esperar e confiar que todos os dias Deus mandaria a comida. 
Quando fomos ensinados a orar, fomos ensinados a orar pelo 'pão nosso de cada dia' e não pelo pão nosso de amanhã ou do mês que vem, mas cada dia passando por esse processo de entrega e dependência total, aprendendo todos os dias a confiar de novo, mesmo quando todas as circunstâncias parecem contrárias ou pouco prováveis. 

Algo que Manning coloca que achei brilhante foi a seguinta equação: 

Fé + Esperança = Confiança

Houve pontos em que os personagens perderam a esperança, assim como a fé, como quando o povo de Israel construiu o bezerro de ouro no deserto: decidiram adorar um outro deus que saiu da cabeça deles, um deus que teria as respostas que eles queriam porque sairiam da cabeça deles já que Deus estava em silêncio. Eles perderam a confiança e isso culminou na ruptura do relacionamento com Deus.
Sempre que o povo de Israel perdia essa confiança, fé e esperança, isso era uma receita para o desastre e levava a situações como essa e como as descritas em Oséias, Amós e Jeremias (dentre outros livros, claro): idolatria, prostituição, confiança em si mesmos. 
De uma maneira semelhante, nós podemos cair nisso com muita facilidade. Por mais que quando falamos em idolatria sempre pensamos em deuses e estátuas, qualquer coisa ou pessoa pode facilmente se tornar nosso objeto de adoração e dependência tão facilmente quanto aconteceu com Israel. Dificilmente vamos construir um bezerro de ouro, mas muito facilmente podemos colocar nossa confiança em pessoas, em nós mesmos, no conhecimento, em títulos, em relacionamentos amorosos, no nosso emprego, nos nossos sonhos, na nossa felicidade. 
Por isso esse processo de entrega diária é tão importante, porque é difícil. Não faz parte da nossa natureza humana fazer isso, mas é só assim que compreendemos a nossa humanidade.

Então essa ausência de resposta de Deus passa a ser um exercício tremendo pra ajudar nesse processo de entrega de maneira incrivelmente didática. Da mesma maneira que o melhor jeito pra aprender integrais e derivadas é fazendo infinitos exercícios de integrais e derivadas, cada vez aumentando a dificuldade, a melhor maneira de aprender a confiar é estar numa situação em que você não tem em que confiar, em que suas mãos e sua mente estão vazias de refúgios, ideias, soluções ou respostas. E Deus não as enche de novo com respostas. Você tenta viver assim. Às vezes você erra, às vezes você acerta, como nos exercícios de cálculo, mas sabendo que a resposta é a ausência de resposta, você sempre pode comparar o seu resultado com o que você sabe que é certo. 
E se você errou um dia, sempre tem o outro pra tentar de novo e orar novamente: 

"Aba, em tuas mão entrego o meu corpo, minha mente e meu espírito e todo o dia de hoje - manhã, tarde e noite. A tua vontade para mim, seja ela qual for, é a minha vontade, dependendo de ti e confiando em ti no meio da realidade da minha vida. Ao teu coração entrego o meu coração, frágil, inseguro, incerto. Aba, entrego-me a ti em Jesus, nosso Senhor. Amém."
[Confiança cega, Brennan Manning] 

sábado, 7 de setembro de 2013

Perdendo as "aspas"

Nesse período breve de férias, tenho dedicado uma quantidade de tempo considerável à ponderação. Sobre meu estado de espírito passado e presente, sobre planos para o futuro. Uma dessas coisas sobre as quais tenho pensado são meus estudos.
Não sei como é pra outras pessoas, mas sei que meu curso universitário já foi um grande problema pra mim. Talvez seja assim pra todo mundo, mas uma sensação de incapacidade não-pertencer aquele ambiente, aquele curso, muita frustração, lágrimas e noites de insônia estiveram presentes principalmente nos dois primeiros anos. Já quis desistir, já quis fugir, já quis qualquer coisa menos a engenharia (qualquer coisa mesmo, desde arte e arquitetura até medicina). Mas eis que, dois anos e meio depois, percebi que as disciplinas nas quais estou me matriculando tem agora turmas únicas, não mais turmas de 100 ou 120 alunos. Muitos alunos se perderam no meio do caminho, outros muitos fugiram da engenharia biomédica pra biotecnologia porque a elétrica e eletrônica os assustou. 
Percebi que cheguei à metade do curso um pouco cansada, mas viva e não desisti. Fico feliz que não desisti, consegui fazer muito mais do que sou capaz, consegui ir muito mais longe do que algum dia sequer sonhei em ir. É uma boa sensação. 
Elementarmente, não estou no final do curso, então, em muitos sentidos, a brincadeira acaba de começar. Já passei pelos cálculos e físicas, mas agora vem a eletricidade aplicada e a mecânica geral, e isso assusta, mas vou persistir, mesmo que consiga fazer tudo em dois anos e meio ou leve três, ou mais. 
Mas minha preocupação e minhas dúvidas não se resumem mais a essa ou aquela disciplina. Minha confusão é com onde eu estou no momento e a velocidade com que cheguei aqui. 

Estou agora há mais de dois anos morando sozinha, já "trabalhei", saí do "emprego", já paguei algumas das minhas próprias contas, já consigo fazer decisões sozinha, e não percebi quando tudo isso aconteceu, quando cresci. 
Estou feliz que cheguei à metade do curso, mas isso assusta. A próxima metade vai passar nessa velocidade? Certamente não me sinto remotamente preparada. Meu trabalho e meu emprego vão perder aspas, minhas algumas contas vão virar todas as contas. E eu não sei pra onde ir daqui. Me perguntam o que quero pro futuro, e eu, que já tive planos e sonhos extravagantes, não tenho resposta.
Eu, que já tive listas e listas de objetivos com reconhecimento e premiações, descobertas e ajuda a milhões de pessoas pela pesquisa, ou eu que já pensei em futuro com uma família.. percebi que meus sonhos se perderam dentro da realidade que insistente se apresenta e diz que extravagâncias não são o mais importante. Ter uma família ou não também não é o mais importante. Ter o que eu quero não é o que é mais importante. Ter o que preciso é mais importante. Mas o que eu preciso?

Pensando nisso lembrei que certa vez, conversando com um amigo sobre meu curso universitário, disse que não acreditava que conseguiria sobreviver até o diploma, e ele disse "Se você entra numa maratona pensando nos 42km que vai correr, certamente não vai conseguir correr. Mas se você pensar nos 5 km, e daí nos próximos 5, e nos próximos... logo percebe que já está vendo a linha de chegada."
Acho que aos poucos (bem aos poucos) estou aprendendo a pensar nos 5 km, trabalhar o máximo que posso (como já descrevi, dando o sangue pelo objetivo mais próximo), porque fazer o meu melhor nunca será ruim. Se meu melhor é suficiente é outra história, mas preciso tentar. E fazer meu melhor nos meus próximos 5km e só perceber que... às vezes o caminho é mais importante do que a linha de chegada. E, quando você para pra ver, já passou a linha de chegada e nem percebeu. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A half hearted prayer

I have prayed, dear Father
Over and over it over again
I say this is not mine hereafter
But I falter and wander to sin

I am such a fool
as I try to decide
I think I can rule
My heart soon divides
One part thinks I'm king
The other knows it's you
A heart divided in itself
cannot subside

Take this need for control from me
When mirrors blind me, help me see
That the Is and the mes
Just keep me so deceived

"Thy will be done" is my prayer
But if it's not my will done, "it isn't fair!"
Father, I'm so tired of this mask
So I give you the truth, as you asked

I am such a fool
as I try to decide
I think I can rule
My heart stays divided
One part wants me for king
The other knows it's you
A heart divided in itself
cannot be true

As I pray one more time
For you to take what was never mine
I see it's not the last, I may pray 1,000 times
For you to take the thorn in my flesh
Even if you don't, in you I'll find rest
For I see the love and care in your face
That say it's only enough to have grace

I am such a fool
I cannot decide
I know I can't rule
My heart is all lies
I do not want to be king
For I know the king is you
So I give you my heart
Make it yours and pure

domingo, 1 de setembro de 2013

Parem de piscar as luzes.

Hoje aprendi uma palavra nova. Na verdade, aprendi muito com um mesmo texto, não apenas extendi meu léxico. Estendi minha compreensão. Vou tentar resumir, mas o texto completo é um excelente texto pra ser lido e terá muito mais informação a respeito do tema. 

"Você é muito sentimental." "Relaxa. Relaxa. Você está exagerando." "Você é tão emocional." "Você é louca!"

A maior parte das mulheres já ouviu isso, e estou nesse grupo que já ouviu com certa frequência afirmações desse tipo: meu curso é predominantemente masculino, a maioria dos meus amigos são homens, minha sociedade é predominantemente machista. Acontece, que não deveríamos ouvir essas coisas com frequência. Na verdade, não deveríamos ouvir essas coisas. 

A única maneira que estaríamos "exagerando" ou sendo excessivamente "sentimentais" seria se houvesse um padrão de sentimentos, reações e emoções determinado e nós não nos encaixassemos nesse padrão. Sim, todas as mulheres estão fora desse padrão. Muito plausível. Isso realmente parece um padrão extremamente representativo da maioria das pessoas, considerando que a grande maioria das mulheres não se encaixa nesse padrão. Curioso. 

O tema que estamos tratando e a palavra nova é o gaslaitear, uma versão aportuguesada do termo "gaslight" que descreve esses comportamentos que fazem as pessoas questionarem a própria conduta, caráter e sanidade. O termo vem do filme de mesmo nome com a fantástica Ingrid Bergman, em que o seu marido quer sua fortuna então tenta fazê-la acreditar que está enlouquecendo alterando a iluminação da casa de maneira que fique piscando, e diz a ela que está imaginando coisas. 

Portanto, cada vez que você diz a uma mulher que ela é sentimental, emocional, louca ou está exagerando, você está fazendo ela questionar tudo aquilo que pensa ou diz, faz ela questionar a própria sanidade e faz ela pensar que ela que está errada - mas na verdade os sentimentos dela, as palavras dela, o trabalho dela, tem exatamente o mesmo valor que o seu. Uma boa pergunta a se fazer antes de dizer uma afirmação desse tipo seria: se isso estivesse partindo de um homem, você reagiria da mesma forma?

Eu achei muito interessante o conceito e consigo observá-lo ao meu redor. O meu grande problema foi observá-lo em mim. 

Perdi a conta de quantas vezes já disse "não consigo ter amizade com mulheres" "mulheres são sentimentais demais, eu não sei nem como as pessoas lidam comigo." "Quanto mimimi." 
Eu sei dos fatos biológicos. Eu sei que a occitocina é potencializada pelo estrógeno. Eu sei que fisiologicamente tendemos a ter mais sentimentos, e homens a ter menos. Mas eu luto contra isso todos os dias. Eu luto contra sentimentos. Como renegar parte do que te faz você pode ser certo? Como tentar adaptar suas reações a um padrão sem emoção como é o padrão masculino quando todo o resto de você aponta para o fato que você vai ter suas emoções potencializadas? 

Nós pedimos desculpas ao chorar, e nós sentimos orgulho em parecer mulheres fortes - porque afinal, isso é o que esperam de nós - nós estamos acostumadas a julgar nossos sentimentos como menos certos do que os deles. 

Um trecho do texto me chamou muito a atenção: 


"E o ato de gaslaitear não afeta só mulheres inseguras. Até mesmo mulheres assertivas e confiantes estão vulneráveis. Por que?
Porque as mulheres suportam o peso da nossa neurose. É muito mais fácil para nós colocar nossos fardos emocionais nos ombros de nossas esposas, amigas, namoradas e empregadas, do que é impô-los nos ombros dos homens.
(...)
Essas mulheres não conseguem expressar com clareza para seus esposos que o que é dito ou feito a elas as machuca. Elas não conseguem dizer a seus chefes que esse comportamento é desrespeitoso e as impede de trabalhar melhor. Elas não conseguem dizer a seus parentes que, quando eles são críticos, estão fazendo mais mal do que bem.
Quando essas mulheres recebem qualquer tipo de reprimenda por suas reações, tendem a deixar passar, pensando, “Esqueça, tá tudo bem.”
Esse “esqueça” não significa apenas deixar um pensamento de lado, é ignorar a si mesma. Me parte o coração."

Eu também faço isso com meus próprios sentimentos porque é mais fácil. É mais fácil culpar a TPM ou os hormônios porque estamos doendo e fomos machucadas do que ter que enfrentar e ouvir todas essas mentiras de que nossos sentimentos não valem nada.

É mais fácil a gente se adaptar ao que o mundo espera de nós - segurança, frieza, racionalidade, força - do que ser frágil. É mais fácil vestir uma armadura de mulher forte do que revelar o simples fato que podemos, sim, ser frágeis. Ou pelo menos parece ser mais fácil. Até perceber que está renegando parte de si. 

Eu reclamo de sentimentos, eu falo que a vida seria mais fácil sem eles - talvez até seria - mas o mais fácil nem sempre é o melhor. Como foi colocado no post anterior, relacionamentos, no meu caso ao menos, e sentimentos são meu calcanhar de aquiles - eu não sei identificá-los. São um emaranhado incrivelmente complexo e intenso dentro de nós que cada um lida de um jeito. 

O meu jeito foi enterrá-los, mas como a Judy me disse no CF, quando enterramos nossos sentimentos, enterramos eles vivos. E quando eles decidem sair, eles não estão nem um pouco felizes. E estão um emaranhado ainda maior, ainda mais intenso, e ainda mais atordoante porque nos recusamos a lidar com eles mais cedo.

Certamente não estou falando que sentimentos sempre tem a última palavra - claro que não. Da mesma maneira que renegar a emoção mata parte de nós, matar a razão também o faria. Precisamos achar um ponto de equilíbrio e coexistência pacífica se é que isso existe.

Também não estou falando que mulheres estão sempre certas, mas não é pelo fato de elas serem mulheres que elas passam a ser menos certas automaticamente - só ressalto que é muito mais comum esse tipo de assédio emocional acontecer com mulheres do que com homens, mas o fato de ser mais comum com um não faz ser impossível com outro. 

Portanto, seja com homens, mulheres ou crianças, cada vez que dizemos que os sentimentos do outro não valem nada, nós fazemos a pessoa jogar aquilo debaixo do tapete, ignorar. Contudo, ignorar certamente não significa que eles deixam de existir. E chega uma hora em que a única saída da pessoa é acreditar tanto que  está louca - como eu tenho tentado fazer tanto - que ela de fato enlouquece para impedir-se de ficar louca, ou surta, e tudo sai de uma maneira descontrolada e horrível, porque simplesmente não dá pra lidar mais. 

O fato, de uma maneira mais simples, é que seja ignorando, enlouquecendo ou surtando, isso não deveria estar acontecendo. E isso certamente não aconteceria se as pessoas simplesmente parassem de piscar as malditas luzes.