segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quando a resposta é que você não vai ter uma resposta

Ultimamente estou aprendendendo muitas coisas (como sempre). Por mais que não esteja postando muito, minha cabeça tem maquinado e processado muita coisa, talvez tanto que escrever de maneira adequada e sucinta tenha se tornado uma tarefa excessivamente árdua - meus amigos que tenho mantido contato que o digam, mensagens pedindo e dando notícias que antes ocupavam um dois parágrafos agora ocupam 4, 5 ou 6 páginas. 
Um excelente livro que estou lendo no momento é do Brennan Manning, chama-se Confiança cega. O livro foi escolhido a dedo porque, lendo O Evangelho Maltrapilho, percebi que Confiança é um assunto que eu preciso tratar e acabo sempre (sempre) postergando por ser bem incômodo e eu nunca ter aprendido de fato a confiar totalmente nas pessoas. Sempre estou secretamente esperando que elas desapareçam ou quebrem o pouco de confiança que tento depositar nelas, e isso certamente afeta meu relacionamento com Deus. 
Pensando em tudo o que tenho lido, voltei novamente a um tema bastante recorrente em minhas reflexões e meus textos aqui e intrinsecamente relacionado: a nossa paixão e necessidade por controle, e como isso na verdade reflete uma profunda falta de confiança em Deus. Sempre dizem que se você quer algo feito direito, então faça você mesmo. Mas a gente pensa que isso vale pra Deus também um erro que, apesar de bastante comum, não faz sentido algum
Nessa tentativa de confiar e não tomar controle, eu tenho orado muito sobre todos os aspectos da minha vida, mas assim... todos mesmo. Tentando não segurar nada e entregar tudo de mãos abertas, desde decisões pequenas até decisões maiores que tem potencial pra afetar toda a minha vida. Mas acabo entregando perguntas e espero encher minhas mãos novamente com respostas. 
Quanto ao Treinamento Microrregional de São José do Rio Preto, não foi diferente. Orei, pensei se deveria ir, uma série de fatos convergiu pra que eu fosse, e eu fui, ainda que me sentindo meio deslocada e confusa de início afinal, sete horas e meia de viagem não é fácil pra ninguém, mas ei, talvez tivesse respostas sobre minhas outras orações. 
O que não antecipei é que eu voltaria ainda mais confusa quanto a algumas coisas, e apenas com uma resposta: Que eu não teria respostas. Que respostas não importam. 
Isso, elementarmente, foi um tapa na cara. Sou movida a respostas: talvez por ser humana, talvez por ser cientista, eu não sou uma pessoa que vai com a correnteza e vê onde tudo desemboca. Eu planejo, eu antecipo, eu preciso das respostas antes, respostas me movem mais que perguntas. 
"Entretanto, quando assumir o controle se torna parte da nossa reação rotineira nos relacionamentos humanos conturbados e nos problemas que nos preocupam, Deus deixa de ser nosso co-piloto; na verdade, ele nem está a bordo." [Confiança cega, Brennan Manning]
Mas de repente tem uma voz dizendo que elas não importam. 
O fato de não ter respostas impede o planejamento, o fato de não ter respostas tira completamente o controle da situação, e você não pode nem opinar sobre as coisas, sobre as respostas, porque não as tem. 

Agora que voltei e consegui ter um tempo devocional sem estar cercada de pessoas e dando oficinas e falando sem ter muito tempo de pensar, fiz algumas devocionais e estou percebendo que eu não fui a primeira que recebeu essa resposta, eu simplesmente caí na mesma situação que a grande maioria dos personagens Bíblicos que não receberam respostas certas. Deus pediu pra que Abraão deixasse a sua terra e fosse pra 'terra que ele mostraria', ele não falou qual ou onde era, ele só falou: saia da sua zona de conforto. Mais pra frente, ele pediu pra que ele sacrificasse Isaque - ele não falou que ele não o mataria de verdade e que seria feito outro sacrifício no lugar. Ele não falou pro povo de Israel que estava saindo do Egito que eles passariam quarenta anos no deserto pra chegar na terra prometida, muito menos onde ou qual era essa terra. 
Pelo que tenho observado, Deus não trabalha sempre com respostas certas pra trabalhar a nossa fé e nossa confiança acima de todas as coisas, pois elas são fundamentais no relacionamento com ele, e o relacionamento é o que mais importa.
Aprendemos algumas outras coisas inclusive em coisas aparentemente pequenas, até quando Deus mandava o maná pro povo se alimentar, eles estavam proibidos de guardar para o outro dia porque estragaria - precisavam esperar e confiar que todos os dias Deus mandaria a comida. 
Quando fomos ensinados a orar, fomos ensinados a orar pelo 'pão nosso de cada dia' e não pelo pão nosso de amanhã ou do mês que vem, mas cada dia passando por esse processo de entrega e dependência total, aprendendo todos os dias a confiar de novo, mesmo quando todas as circunstâncias parecem contrárias ou pouco prováveis. 

Algo que Manning coloca que achei brilhante foi a seguinta equação: 

Fé + Esperança = Confiança

Houve pontos em que os personagens perderam a esperança, assim como a fé, como quando o povo de Israel construiu o bezerro de ouro no deserto: decidiram adorar um outro deus que saiu da cabeça deles, um deus que teria as respostas que eles queriam porque sairiam da cabeça deles já que Deus estava em silêncio. Eles perderam a confiança e isso culminou na ruptura do relacionamento com Deus.
Sempre que o povo de Israel perdia essa confiança, fé e esperança, isso era uma receita para o desastre e levava a situações como essa e como as descritas em Oséias, Amós e Jeremias (dentre outros livros, claro): idolatria, prostituição, confiança em si mesmos. 
De uma maneira semelhante, nós podemos cair nisso com muita facilidade. Por mais que quando falamos em idolatria sempre pensamos em deuses e estátuas, qualquer coisa ou pessoa pode facilmente se tornar nosso objeto de adoração e dependência tão facilmente quanto aconteceu com Israel. Dificilmente vamos construir um bezerro de ouro, mas muito facilmente podemos colocar nossa confiança em pessoas, em nós mesmos, no conhecimento, em títulos, em relacionamentos amorosos, no nosso emprego, nos nossos sonhos, na nossa felicidade. 
Por isso esse processo de entrega diária é tão importante, porque é difícil. Não faz parte da nossa natureza humana fazer isso, mas é só assim que compreendemos a nossa humanidade.

Então essa ausência de resposta de Deus passa a ser um exercício tremendo pra ajudar nesse processo de entrega de maneira incrivelmente didática. Da mesma maneira que o melhor jeito pra aprender integrais e derivadas é fazendo infinitos exercícios de integrais e derivadas, cada vez aumentando a dificuldade, a melhor maneira de aprender a confiar é estar numa situação em que você não tem em que confiar, em que suas mãos e sua mente estão vazias de refúgios, ideias, soluções ou respostas. E Deus não as enche de novo com respostas. Você tenta viver assim. Às vezes você erra, às vezes você acerta, como nos exercícios de cálculo, mas sabendo que a resposta é a ausência de resposta, você sempre pode comparar o seu resultado com o que você sabe que é certo. 
E se você errou um dia, sempre tem o outro pra tentar de novo e orar novamente: 

"Aba, em tuas mão entrego o meu corpo, minha mente e meu espírito e todo o dia de hoje - manhã, tarde e noite. A tua vontade para mim, seja ela qual for, é a minha vontade, dependendo de ti e confiando em ti no meio da realidade da minha vida. Ao teu coração entrego o meu coração, frágil, inseguro, incerto. Aba, entrego-me a ti em Jesus, nosso Senhor. Amém."
[Confiança cega, Brennan Manning] 

Nenhum comentário:

Postar um comentário