Acho que estou
começando a entender porque houve uma popularização tão grande recentemente da
ficção. Vejo muita gente obcecada por livros, por exemplo. Por filmes. Por
séries. Jogos. Todas histórias que nunca aconteceram nem vão acontecer,
universos que por alguns instantes fingimos fazer parte de... até chegar no
ponto final, nos créditos ou no game over. Então somos impiedosamente sugados
de volta ao mundo real até encontrar o próximo universo para mergulharmos e
ignorarmos o mundo de fora, com guerras reais, onde as mortes não são um
obstáculo na missão e no jogo, onde a história não acaba no momento congelado e
eterno da felicidade: no mundo real, toda história acaba com a morte do protagonista
de cada vida. Sem exceções.
A verdade é que
o mundo da ficção é bem mais fácil de lidar que o mundo real. Nos jogos você já
escolhe antes de entrar no jogo se quer que seu personagem seja bom ou mau, se
quer que ele seja um elfo ou um orc. Nos filmes, é fácil saber por quem torcer –
pelo bom, belo, inteligente, admirável. Mas o mundo real não é assim; não
existe preto e branco, mas sim uma infinidade de tons de cinza que tentamos
distinguir se são mais próximos do branco ou do preto, do certo ou do errado, e
com frequência escandalosa erramos no julgamento. Não existem fronteiras
demarcadas, são todas sinuosas e embaçadas divisões que não sabemos como
classificar algo como louvável ou deplorável, divisões claras perdidas entre
causas, motivações, fins, ações, pensamentos e circunstâncias.
Uma vez que os
eventos passam a estar no passado, é mais fácil reeditar tudo para parecer mais
hollywoodiano, com os vencedores reescrevendo a história. Os nazistas eram os
maus, os americanos salvaram o dia. Será que pra quem vivia na Alemanha em 1942
era claro assim? Será que alguém lembra que antes dos ‘heróis’ entrarem na
guerra, eles estavam confortavelmente lucrando vendendo armas? Será que alguém
lembra que as mulheres alemãs que sobraram nas cidades tomadas por americanos
eram estupradas diariamente, muitas vezes mais que uma vez ao dia? Esses são os
heróis da nossa história?
Toda essa
nebulosa escolha de lados fica clara quando olho as notícias da faixa
de Gaza esses dias. Vídeos e notícias relatando os números obscenos de civis,
crianças palestinas sendo exterminadas com mísseis, bombas e sabe Deus que mais
tipos de tecnologias diabólicas a mente humana é capaz de criar. Salvem os
palestinos. Eles estão refugiados. Eles estão morrendo. Do outro lado, Israel
diz que eles só não tem mais mortos por causa da tecnologia do país, e que o
duelo só é desbalanceado por tecnologia, não por moralidade.
Vejo pessoas defendendo
o lado dos refugiados, outras dizendo que Israel é o povo de Deus e por isso
não estão errados. Escuta, alguém leu o antigo testamento aí? Deus nunca disse
que Israel sempre estava certo. Na verdade, boa parte do tempo os profetas
estavam declarando como o povo de Israel não
estava certo. Por isso eles foram levados cativos à Babilônia, ao Egito. Por
isso profetas como Amós, Jeremias, Oséias, Joel, Ezequiel sofreram tentando
mostrar os erros deles. Erros. Isso mesmo, coisa de gente humana. De todo tipo de gente humana. "Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus." Rm 3.23. Cristãos, budistas, pagãos, agnósticos, ateus, judeus.
Alguém lembra do
que Jesus disse? Que veio para curar os doentes, não os sãos. Veio pra ajudar
aqueles que sabem que precisam de ajuda. Alguém lembra que foram os próprios
judeus que crucificaram a Jesus porque preferiram as suas regras, leis,
tradições do que a graça e o amor? Porque ele amava os gentios? Jura que ainda
defendem que eles sempre acertam e nunca podem errar?
A verdade é
que... não existem as tais chamadas ‘pessoas inocentes’, nem palestinos, nem
israelenses, nem norte americanos, nem brasileiros, nem alemães, nem nazistas,
nem ninguém. Não existe o lado ‘bom’ e o lado ‘mau’ para escolhermos nas nossas
defesas políticas e ideológicas, porque essa guerra entre bom e mau não é externa
– na verdade, a guerra externa é só consequência de uma guerra interna individual
onde o mal sai vitorioso.
Não somos
pessoas boas, e não há pessoas boas – somos humanos: um misto de amor e ódio
incompreensível, um punhado de bem e um punhado de mal, um embate eterno de
egoísmo e altruísmo, de moralidade e interesse, de certo e errado. A cada
decisão que é feita, a cada palavra que dizemos, temos o poder de construir ou
destruir pessoas. Todos os dias, toda pessoa que vemos na rua, que conversamos,
que damos bom dia, que julgamos quando a vemos no trem – nós podemos amar ou
odiar; nós podemos salvar ou matar. E quantas vezes aquele xingamento no
trânsito, na rua, por causa de um pisão no pé ou por fazerem algo que discordamos,
quantas vezes não ferimos ela? Quantas vezes ao dizermos coisas que ferem as
pessoas não quebramos ela? Quantas pessoas já não cometemos homicídios assim?
Somos criaturas
esquizofrênicas com potencial de sermos amáveis como anjos, ou cruéis como
demônios; no final do dia, só somos humanos. A diferença entre uma guerra com
explosões, sangue e destruição da guerra travada dentro de casa, na violência
doméstica, do abuso moral, da exploração do outro pelo lucro, é o poder
envolvido. O poder e o dinheiro potencializam os efeitos das nossas escolhas –
a possibilidade de fazer o bem é igualmente proporcional à nossa capacidade de
fazer o mal. Se temos milhões que podem ser investidos em hospitais, em
medicamentos, em salvação, esses milhões também podem ser investidos em
tecnologia bélica, em empresas que exploram o trabalhador em nome do lucro, no
marketing que nos diz que não somos bons o suficiente enquanto não consumirmos
mais, mais, mais.
Essa essência
que nos faz é algo que vivemos todos os dias nas nossas vidas, são mudanças que
acontecem silenciosamente nas coisas mais cotidianas. Nós recebemos a liberdade
de escolher entre o bem e o mal. Por vezes isso me faz me perguntar: Como um
Deus que se afirma ser inteiramente bom e santo pode permitir a existência do
mal? Porque ele ama, e quem ama dá liberdade. Se não houvesse mal, seríamos
todos robôs, autômatos, programados para o bem e para o amor. Deus não nos
criou para sermos autômatos, nos criou para escolhermos se queremos amar ou
odiar, para termos algum tipo de participação no nosso rumo e no rumo alheio. ‘Grande liberdade essa, quando usamos a
nossa liberdade pra tirar a liberdade do outro!’, poderíamos dizer. Mas é
por isso que, além de amoroso, ele também é justo. Porque quem ama não deixa o
ser amado ser oprimido sem fazer nada. É por isso que, embora ele amasse seu
povo no antigo testamento, permitiu que eles sofressem as consequências das
suas decisões de se afastarem dele.
Enquanto pensava
nisso e orava sobre a guerra, sobre a destruição, sobre as mortes, o
sofrimento, os pais perdendo filhos, os filhos perdendo pais, e as pessoas
perdendo mais que a vida, a esperança... Mesmo que Deus não mudasse o coração
das pessoas por permitir a liberdade de escolha deles, ele não poderia
interromper as mortes, o sofrimento e os massacres? Quebrar todas as armas se
necessário? Contudo, ao final desse pensamento, percebi que o buraco é muito
mais fundo. Não vai fazer diferença quebrar as armas, são vão fazer novas, mais
potentes, mais letais. Isso tudo que vemos hoje só são sintomas da raça que
viemos a nos tornar, são consequências de todas as nossas escolhas por nos
afastarmos do outro, desconhecermos outros como se fossem alheios a nós, nos afastarmos de Deus, dando
lugar a ódio. Que tudo isso é só uma pequena erupção de ira, de falta de amor,
de incapacidade de olharmos além de nós mesmos. Percebi, então, que não são as
armas que precisam ser quebradas, mas sim os corações que precisam ser
consertados.
E essa é a parte que dá esperança. O conserto, o conserto que a gente não consegue fazer sozinho. Assim que é o contexto do texto em Romanos supracitado:
E essa é a parte que dá esperança. O conserto, o conserto que a gente não consegue fazer sozinho. Assim que é o contexto do texto em Romanos supracitado:
Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.
Romanos 3:21-24