sexta-feira, 25 de julho de 2014

Humanos: a esquizofrenia de anjos e demônios

Acho que estou começando a entender porque houve uma popularização tão grande recentemente da ficção. Vejo muita gente obcecada por livros, por exemplo. Por filmes. Por séries. Jogos. Todas histórias que nunca aconteceram nem vão acontecer, universos que por alguns instantes fingimos fazer parte de... até chegar no ponto final, nos créditos ou no game over. Então somos impiedosamente sugados de volta ao mundo real até encontrar o próximo universo para mergulharmos e ignorarmos o mundo de fora, com guerras reais, onde as mortes não são um obstáculo na missão e no jogo, onde a história não acaba no momento congelado e eterno da felicidade: no mundo real, toda história acaba com a morte do protagonista de cada vida. Sem exceções.
A verdade é que o mundo da ficção é bem mais fácil de lidar que o mundo real. Nos jogos você já escolhe antes de entrar no jogo se quer que seu personagem seja bom ou mau, se quer que ele seja um elfo ou um orc. Nos filmes, é fácil saber por quem torcer – pelo bom, belo, inteligente, admirável. Mas o mundo real não é assim; não existe preto e branco, mas sim uma infinidade de tons de cinza que tentamos distinguir se são mais próximos do branco ou do preto, do certo ou do errado, e com frequência escandalosa erramos no julgamento. Não existem fronteiras demarcadas, são todas sinuosas e embaçadas divisões que não sabemos como classificar algo como louvável ou deplorável, divisões claras perdidas entre causas, motivações, fins, ações, pensamentos e circunstâncias.
Uma vez que os eventos passam a estar no passado, é mais fácil reeditar tudo para parecer mais hollywoodiano, com os vencedores reescrevendo a história. Os nazistas eram os maus, os americanos salvaram o dia. Será que pra quem vivia na Alemanha em 1942 era claro assim? Será que alguém lembra que antes dos ‘heróis’ entrarem na guerra, eles estavam confortavelmente lucrando vendendo armas? Será que alguém lembra que as mulheres alemãs que sobraram nas cidades tomadas por americanos eram estupradas diariamente, muitas vezes mais que uma vez ao dia? Esses são os heróis da nossa história?
Toda essa nebulosa escolha de lados fica clara quando olho as notícias da faixa de Gaza esses dias. Vídeos e notícias relatando os números obscenos de civis, crianças palestinas sendo exterminadas com mísseis, bombas e sabe Deus que mais tipos de tecnologias diabólicas a mente humana é capaz de criar. Salvem os palestinos. Eles estão refugiados. Eles estão morrendo. Do outro lado, Israel diz que eles só não tem mais mortos por causa da tecnologia do país, e que o duelo só é desbalanceado por tecnologia, não por moralidade.
Vejo pessoas defendendo o lado dos refugiados, outras dizendo que Israel é o povo de Deus e por isso não estão errados. Escuta, alguém leu o antigo testamento aí? Deus nunca disse que Israel sempre estava certo. Na verdade, boa parte do tempo os profetas estavam declarando como o povo de Israel não estava certo. Por isso eles foram levados cativos à Babilônia, ao Egito. Por isso profetas como Amós, Jeremias, Oséias, Joel, Ezequiel sofreram tentando mostrar os erros deles. Erros. Isso mesmo, coisa de gente humana. De todo tipo de gente humana. "Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus." Rm 3.23. Cristãos, budistas, pagãos, agnósticos, ateus, judeus.
Alguém lembra do que Jesus disse? Que veio para curar os doentes, não os sãos. Veio pra ajudar aqueles que sabem que precisam de ajuda. Alguém lembra que foram os próprios judeus que crucificaram a Jesus porque preferiram as suas regras, leis, tradições do que a graça e o amor? Porque ele amava os gentios? Jura que ainda defendem que eles sempre acertam e nunca podem errar?
A verdade é que... não existem as tais chamadas ‘pessoas inocentes’, nem palestinos, nem israelenses, nem norte americanos, nem brasileiros, nem alemães, nem nazistas, nem ninguém. Não existe o lado ‘bom’ e o lado ‘mau’ para escolhermos nas nossas defesas políticas e ideológicas, porque essa guerra entre bom e mau não é externa – na verdade, a guerra externa é só consequência de uma guerra interna individual onde o mal sai vitorioso.
Não somos pessoas boas, e não há pessoas boas – somos humanos: um misto de amor e ódio incompreensível, um punhado de bem e um punhado de mal, um embate eterno de egoísmo e altruísmo, de moralidade e interesse, de certo e errado. A cada decisão que é feita, a cada palavra que dizemos, temos o poder de construir ou destruir pessoas. Todos os dias, toda pessoa que vemos na rua, que conversamos, que damos bom dia, que julgamos quando a vemos no trem – nós podemos amar ou odiar; nós podemos salvar ou matar. E quantas vezes aquele xingamento no trânsito, na rua, por causa de um pisão no pé ou por fazerem algo que discordamos, quantas vezes não ferimos ela? Quantas vezes ao dizermos coisas que ferem as pessoas não quebramos ela? Quantas pessoas já não cometemos homicídios assim?
Somos criaturas esquizofrênicas com potencial de sermos amáveis como anjos, ou cruéis como demônios; no final do dia, só somos humanos. A diferença entre uma guerra com explosões, sangue e destruição da guerra travada dentro de casa, na violência doméstica, do abuso moral, da exploração do outro pelo lucro, é o poder envolvido. O poder e o dinheiro potencializam os efeitos das nossas escolhas – a possibilidade de fazer o bem é igualmente proporcional à nossa capacidade de fazer o mal. Se temos milhões que podem ser investidos em hospitais, em medicamentos, em salvação, esses milhões também podem ser investidos em tecnologia bélica, em empresas que exploram o trabalhador em nome do lucro, no marketing que nos diz que não somos bons o suficiente enquanto não consumirmos mais, mais, mais.
Essa essência que nos faz é algo que vivemos todos os dias nas nossas vidas, são mudanças que acontecem silenciosamente nas coisas mais cotidianas. Nós recebemos a liberdade de escolher entre o bem e o mal. Por vezes isso me faz me perguntar: Como um Deus que se afirma ser inteiramente bom e santo pode permitir a existência do mal? Porque ele ama, e quem ama dá liberdade. Se não houvesse mal, seríamos todos robôs, autômatos, programados para o bem e para o amor. Deus não nos criou para sermos autômatos, nos criou para escolhermos se queremos amar ou odiar, para termos algum tipo de participação no nosso rumo e no rumo alheio. ‘Grande liberdade essa, quando usamos a nossa liberdade pra tirar a liberdade do outro!’, poderíamos dizer. Mas é por isso que, além de amoroso, ele também é justo. Porque quem ama não deixa o ser amado ser oprimido sem fazer nada. É por isso que, embora ele amasse seu povo no antigo testamento, permitiu que eles sofressem as consequências das suas decisões de se afastarem dele.
Enquanto pensava nisso e orava sobre a guerra, sobre a destruição, sobre as mortes, o sofrimento, os pais perdendo filhos, os filhos perdendo pais, e as pessoas perdendo mais que a vida, a esperança... Mesmo que Deus não mudasse o coração das pessoas por permitir a liberdade de escolha deles, ele não poderia interromper as mortes, o sofrimento e os massacres? Quebrar todas as armas se necessário? Contudo, ao final desse pensamento, percebi que o buraco é muito mais fundo. Não vai fazer diferença quebrar as armas, são vão fazer novas, mais potentes, mais letais. Isso tudo que vemos hoje só são sintomas da raça que viemos a nos tornar, são consequências de todas as nossas escolhas por nos afastarmos do outro, desconhecermos outros como se fossem alheios a nós, nos afastarmos de Deus, dando lugar a ódio. Que tudo isso é só uma pequena erupção de ira, de falta de amor, de incapacidade de olharmos além de nós mesmos. Percebi, então, que não são as armas que precisam ser quebradas, mas sim os corações que precisam ser consertados.
E essa é a parte que dá esperança. O conserto, o conserto que a gente não consegue fazer sozinho. Assim que é o contexto do texto em Romanos supracitado:


Mas agora se manifestou uma justiça que provém de Deus, independente da lei, da qual testemunham a Lei e os Profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem. Não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.

Romanos 3:21-24

sábado, 19 de julho de 2014

(re)Partir

"Vocês ficarão chocados, crianças, quando vocês descobrirem como é fácil na vida nos separar das pessoas pra sempre. É por isso que quando você encontra alguém que você quer manter por perto, você faz algo a respeito disso."
Enquanto passava na minha timeline a frase acima, retirada de um episódio de How I met your mother, eu tive que parar alguns segundos pra (re)pensar a respeito disso. Sei que esse é um assunto recorrente no blog, mas também é um assunto recorrente na vida. Você para por alguns instantes, e em poucos segundos o número de pessoas de quem você se separou ao longo dos anos cresce até que você se force a sair dessa corrente de pessoas e acontecimentos antes que sua cabeça (ou coração) exploda. 
A verdade é que ficar é um dos verbos mais difíceis de se conjugar em primeira pessoa, e desistir um dos mais fáceis. Ficar exige esforço, um mundo de amor que a gente, muito sinceramente, geralmente não consegue nem somando todo o amor das nossas vidas; exige trabalho, sacrifício, força... tantas coisas que a gente dificilmente consegue ter.
Por outro lado, a gente sempre conjuga o inverso em segunda pessoa: queremos que os outros fiquem, e não queremos que eles desistam. A gente espera que eles consigam aquilo que a gente não consegue, mas... não, ninguém consegue fazer tudo isso, muito menos sozinho. 
Pra ser aquele que não desiste, você tem que fazer o seu papel e o papel alheio, você tem que amar o que não é amável, entender o incompreensível, e ter esperança quando todo o resto te diz que você não deve mais ter esperança. 

"Eu não preciso ouvir se eu não quero
Eu posso abafar isso, fechar as cortinas em você
É um mundo pesado, é demais para eu me importar
Se eu fechar os olhos, não está mais lá
Com meus fones de ouvido

Na estação de metrô, você se senta na minha frente
Eu acho que eu te conheço
Pelos olhos tristes que eu vejo
Eu quero te falar
Que tudo vai ficar bem
Você não ouviria, então seguimos cada um o seu caminho
Com nossos fones de ouvido
Eu não quero ser aquele que tenta entender
Eu não preciso de outra razão pra me importar com você
Você não quer ouvir a minha história
Você não quer ter a minha própria dor
Vivendo em um mundo pesado, pesado"
- traduzido de Headphones, Jars of Clay 

No post passado que falei sobre o assunto, disse que a vida era meio que nem um metrô quando se tratava de relacionamentos, pessoas entrando e saindo em estações, poucas ficando até o final da linha. Acontece que o metrô de São Paulo e a música supracitada me lembrou que tem mais uma coisa que a gente faz no metrô que também faz nos relacionamentos: todo mundo está com seus fones de ouvidos, não querem ouvir a conversa do outro, o que o outro tem a dizer. Só quer ouvir, só quer viver aquilo que a gente escolhe. É mais fácil, mais confortável. 
Contudo, mesmo enquanto eu pensava sobre isso, eu comecei um projeto: #100ThankfulDays, em que todos os dias eu escolho algo que aconteceu no dia pelo que sou grata; dificilmente consigo escolher uma coisa só, são sempre - mesmo nos piores dias - duas, três, cinco coisas. E o único assunto recorrente todos os dias são - pasmem - as pessoas. É, isso mesmo, essas que é muito difícil a gente continuar amando, perdoando, vivendo com elas. Essas que às vezes é mais fácil deixar pra trás.
Dificilmente é a mesma pessoa nos agradecimentos, cada dia é um. Um dia pela foto de uma paisagem numa viagem, ou pelo recado de preocupação. Ou por alguém que me recebeu em casa, ou por um abraço, uma palavra amiga, ou por uma risada que até doeu a barriga. Talvez por encontrar alguém que há muito não via, ou por uma insistência que "realmente querem te ver" (mesmo que isso seja impossível no momento). 
A questão é, são esses vislumbres - embora breves, de uma chama moribunda de felicidade - que nos lembram que os dias ainda valem à pena, que amar, que ficar, que não desistir, são verbos que devem ser conjugados em todos os tempos - pra não termos só pretéritos perfeitos. São esses detalhes que nos lembram que mesmo com todo o desgaste que a vida traz, ainda vale à pena tirar os fones de ouvido. Ouvir a história, a música e o lamento de quem ocupa o lugar ao seu lado (seja preferencial ou não).
Não são os eventos grandes, as conquistas, os 'aceito's, as novidades que nos movem - essas coisas são explosões. Mas a chama que continua acesa o tempo todo, mesmo que bem fraca, usa de combustível qualquer retalho de amor que encontra por aí, e te lembra que é melhor repartir o pouco que se tem antes de partir.