sábado, 31 de maio de 2014

O mapa do metrô

Não sou uma daquelas pessoas com histórias bonitas de amizades - sem laços familiares - que durassem desde a infância, sobreviveram aos anos turbulentos - e incrivelmente irritantes - da adolescência. Tampouco os amigos que fiz na adolescência permaneceram até minha juventude pra me ver mudar daquela aluna de colegial à aluna universitária, que começou a ter sonhos mais concretos, e depois descobriu que sonho e concreto não tinham nada a ver uma coisa com a outra - o sonho que nasce engessado já nasce quebrado. Não viram a mudança da pessoa que acreditava em tudo, pra pessoa que não acreditava em nada, pra pessoa que decidiu que pra toda essa baboseira na vida ter algum valor, precisava acreditar em alguma coisa. 
Todos pegaram o trem que já estava andando e desceram antes do ponto final, desceram onde era melhor pra pegar o próximo, e isso sempre bastou. Contudo, confesso que por vezes ponderei: o que havia nesse trem que as pessoas nunca se distraíram, nunca esqueceram de descer?  
É claro, tecnicamente a tecnologia permite que a gente saiba onde o trem das outras pessoas está levando elas: vemos as fotos dos seminários, congressos, acampamentos, formaturas, casamentos, filhos. Sabemos os pontos, estações, mas sabemos com o mesmo envolvimento emocional que temos quando contemplamos o mapa do metrô. 
Aquele pontinho branco de intersecção da linha azul com a vermelha chamado "Sé" jamais vai nos ajudar a entender exatamente a sensação de estar dentro do vagão às 6 depois de um dia exaustivo no trabalho, sendo comprimido em todas as direções, no calor e desconforto que te fazem se sentir menos humano. Aquela linha amarela também não mostra quão hipnotizante pode ser ficar no primeiro vagão do trem sem maquinista e observar as pequenas luzes ao longo do túnel se aproximarem enquanto você reavalia o seu dia. 
O mapa vai te falar onde é essa ou aquela estação, saber o que acontece com aqueles amigos outrora indispensáveis da sua vida estão, por outro lado, é impossível de fora: você desceu do trem. Não faz mais parte daquela viagem. Você não sabe realmente o que está acontecendo, mesmo que um dia você tenha ocupado aquele primeiro vagão, sentado, prevendo as luzes que iam se aproximar, antecipando a próxima estação junto com os outros passageiros. 
Agora, seguimos as nossas vidas pouco paralelas até os pontos de intersecção, mas não deixam de ser isso: pontos. Pequenos nós nas linhas. Não somos nós por muito tempo: logo somos eu, você, ou ela, aquele, alguém, um conhecido, um esquecido. E descobre-se que mais triste que perder amigos no espaço, na distância, é perder amigos no tempo. E essas talvez sejam as perdas mais comuns.
Mais comuns e mais letais, porque não são repentinas, não são percebidas, vistas, antecipadas - quanto mais, evitadas. Não se evita aquilo que não se (pre)vê. 
Dificilmente envolvem um doloroso despedir, noites de tristeza e tortura, sem saber como seguir sem aquela pessoa. Tristes são as amizades despidas de despedidas. Essas perdas no tempo, vazias de palavras bonitas de gratidão, consideração, de (re)lembrança... essas perdas não tem nada, nada além de silêncio. Um silêncio que cai pesado entre pessoas uma vez tão familiares, que uma vez tinham sintonia, que se conheciam tão bem que viraram reinvenções um do outro. 
Algumas coisas ficam. Alguns bancos preferenciais para aqueles permanecem vazios, mas por vezes na ausência deles são ocupados por outros, que não eram tão preferenciais assim. O cheiro, a memória, a marca das pegadas que carregaram pra dentro a chuva, a lama, a poeira lá de fora. Por vezes as reinvenções um do outro ficam disfarçadas, sobrevivem ao desgaste das reformas dos vagões, da modernização dos trens antigos. O trem, contudo, não tem paradas: continua seguindo em seus trilhos sem hesitar, sem tréguas para quem quiser descer.
Faço das palavras "do Antônio" as minhas: "Tem gente que vira lembrança. Tem gente que vira passado. Tem gente que vira do seu lado. Tem gente que se vira pra estar do seu lado." Se reinventam pra ficar, te reinterpretam e ficam: sem saber se vai ser até o final da linha, mas tantas vezes quanto der pra se virar, eles se viram, e a gente se vê. 


Créditos da imagem: https://www.facebook.com/eumechamoantonio