sábado, 22 de fevereiro de 2014

São o que sou.

Estou no meu primeiro período de férias no sentido real da palavra desde 2011; nada de pesquisa, nada de recepção de calouros, nada de nada relacionado à universidade. Tenho aproveitado o tempo pra organizar meus armários, organizar minhas ideias, ler um pouco e criar muito - desenhos, presentes, cartas, histórias, futuros estão sendo rascunhados e preenchidos como há muito não fazia. 
Acho bastante engraçado que as duas atividades às quais tenho dedicado mais tempo - organizar e criar - parecem bastante contraditórias. A criação e a criatividade não combinam com organização, do meu ponto de vista. Tente obter a tonalidade perfeita pra sua pintura mantendo suas tintas 'organizadas'. Ou tente fazer uma pintura, escultura ou qualquer tipo de artesanato e ainda estar no estado apresentável no qual você se encontrava antes. Ao meu ver, isso é impossível. 
É como se passássemos nossos dias absorvendo informações, ideias, sintetizando sentimentos, emoções, e tentamos organizar isso tudo: agora é hora de trabalhar, preciso esquecer os sentimentos. Agora é hora de descansar, preciso esquecer o trabalho. Organização tanto nas dimensões temporais e espaciais são necessárias dentro da nossa rotina que exige pressa, eficiência e rendimento. Contudo, há momentos em que não se organiza mais, não se divide mais - é quase uma explosão que ocorre dentro de nós, e é então que irrompe a criatividade. Quando unimos os sentimentos aos trabalho, ao espaço, às cores, às formas e melodias. O produto final da arte tem por matéria prima a nossa própria vida. 
Essa semana estava no evento Túnel da Ciência do Instituto Max Planck, e um dos stands que mais gostei foi o a respeito de complexidade e sistemas complexos. Gostei muito da definição de um dos pesquisadores que deu uma palestra: Um sistema complexo não necessariamente é um sistema complicado; um sistema complexo é um sistema que suas partes individuais talvez não façam sentido ou tenham uma determinada função quando isolados, mas que juntos os diversos itens produzem algo novo. Por exemplo, se considerarmos um carro, suas partes isoladas não fazem muito sentido, mas juntas elas produzem o movimento e funcionamento dele. 
Acredito que nesse sentido, as nossas vidas sejam um sistema muito, muito, extremamente, absurdamente complexo. Cada 'item' delas (trabalho, estudos, vida familiar, fé, amigos, relacionamentos amorosos) tem suas funções particulares, porém juntas produzem algo novo: nos produzem, e isso, de certa forma, é um processo 'criativo', porque estamos constantemente sendo 'recriados', reformulados para crescermos, amadurecermos, nos adaptarmos às nossas condições. 
Sendo assim, acredito que seja impossível nos separarmos de qualquer área das nossas vidas. Já tentei inúmeras vezes enterrar partes mais difíceis (ou seja, confusas) da minha vida e me ater às simples para me definir: já tentei me definir como cientista, como aluna, como escritora, mas nada disso me define exatamente. Seria o mesmo que tentar dizer que um carro é uma roda, um motor ou um carburador. Ok, essas partes funcionam no carro e fazem parte dele, mas não são ele. O que eu sou, é tudo. Eu sou as minhas memórias e meu passado, eu sou a minha escrita, minha pesquisa, meus estudos, meus amigos, minha família. Eu sou uma coletânea de todas essas coisas que, juntas, interagindo por vezes em sintonia, por vezes não (produzindo os chamados 'problemas' e 'crises'), mas são - ou melhor - Sou. Vendo desse ponto de vista, acho que nossas vidas na mesma medida em que nunca serão organizadas - mas serão pequenas doses de caos que interagem tecendo aquilo que nos constitui.