quarta-feira, 26 de março de 2014

só amigos.

Durante as férias fui questionada a respeito do caráter de relacionamento que eu tinha com determinado amigo: "Você é a namorada de fulano?, sem pensar muito respondi "Não, não, sou só amiga." Contudo, acredito que me equivoquei na minha resposta: Não pela definição, mas pela forma. 
Dizer que sou amiga de alguém infere que existam 'só amizades', e pelos retalhos que venho recolhendo na minha vivência, acredito que isso não seja verdade. Qualquer amizade no sentido real da palavra - não qualquer cópia barata e narcisista e egocêntrica disfarçando-se de amizade - não pode ser 'só' qualquer coisa. Ninguém é só filho de ninguém, nem só namorado, nem só marido. Todos, pelos nossos relacionamentos, somos definidos: Somos filhos, namorados(as), maridos ou esposas. Somos e fim de história. Porque, então, tratamos a amizade como algo menor que qualquer um dos outros relacionamentos? Porque a amizade é só? 
Sou bastante suspeita pra falar a respeito do assunto dado o grande apego que tenho aos amigos mais próximos, mas acredito que amizades sejam uma das coisas mais incríveis (e incompreensíveis) que experimentamos enquanto vivendo nas bandas terrenas. 
Você poderia argumentar dizendo que relacionamentos amorosos são de alguma maneira maiores que amizades, mas qualquer amizade é um relacionamento amoroso por sua natureza, no sentido de as pessoas se amarem. E ainda mais: grande parte do tempo nos relacionamentos amorosos de hoje busca-se a realização pessoal e busca-se o prazer grande parte do tempo: a amizade, por outro lado, não mostra-se tão corrompida quanto a visão de romance. Ainda vê-se lealdade e pessoas que se doam sem esperar nada em troca. 
Isso tudo me fez pensar na definição de amor. Alguns anos se passaram desde as últimas vezes que falei sobre o assunto aqui, e a vida, os estudos, os livros e, principalmente, pessoas me ensinaram um bocado a respeito do assunto. 
Sem muitos ensaios ou ponderações uma reflexão me atingiu em cheio quando pensava sobre a amizade: Amar é pegar emprestados os olhos do outro. É aprender a ver a vida de outro ponto de vista, sentir a dor que não é em você, entender que você não é o centro do universo - é, também, adentrar o universo alheio, sem rótulos, prenconceitos... conhecer virtudes e defeitos. Talvez amar seja despir-se de si mesmo e ver de verdade aquele que se liga a você, não com sentimento de posse, mas sim de compreensão. Talvez seja quando nos percebemos mais inteiros olhando para o outro em vez de para o espelho. 
E a amizade é a grande escola disso tudo. Percebemos ao fazer-nos amigos a ver a vida de onde pessoas de origens socio-culturais completamente diferentes veem, pessoas que podem ter opiniões diferentes e até conflitantes com as nossas... mas mesmo assim somos amigos deles (embora grande parte do tempo não saibamos o porquê disso). Avisamos eles quando estão fazendo algo estúpido, mas mesmo assim estamos com eles quando tudo dá errado (depois de um singelo 'eu avisei', é claro). Foi (ou está sendo) através das amizades que percebi que eu poderia aplicar aquele amor na família, e aprendi a amá-los mais. E é através das amizades que estou aprendendo o verdadeiro significado do amor no sentido de relacionamentos mais próximos - não todo o romance e bobagem que nossa cultura quer nos apresentar. 
Cansei dessa história da nossa cultura de fazer amizade esperando que aquilo evolua para algo mais - como se houvesse algo de errado com a amizade com o sexo oposto caso não evolua para 'algo mais'. A verdade é que a amizade já tem tanto amor quanto humanamente possível se ter - acho que é impossível ser 'só' amigo de alguém, porque a verdade é que quando se tem amigos, nunca se está só.