segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O semideus e o maltrapilho: A esquizofrenia que habita em mim

Ultimamente tenho vivido bastante no modo automático - sabe aquela época em que você vive um dia de cada vez, absorvido pela rotina, prazos e obrigações? Você esquece de muitos aspectos da vida que não envolvem o imediato, ou, mesmo que perceba que tem algo errado em uma dessas outras áreas, continua do jeito que dá porque tem que dar conta de tudo.
O grande problema é quando tem algo errado e continuamos no modo automático por necessidade, ainda que você tenha 'inflamações' ou problemas que povocam dor, você toma um analgésico e continua - tanto no sentido literal como metafórico. O grande problema é que analgésicos não resolvem problemas, meramente os mascaram tratando os sintomas em vez de a causa. No final, quando você finalmente consegue parar, que você percebe todo o estrago que foi feito, ou tudo o que aconteceu no seu período de ausência de si mesmo.
Minha irmã certa vez disse que vivemos as coisas pra depois processá-las. Quando escrevemos, desenhamos, produzimos qualquer tipo de arte, refletimos, temos epifanias, normalmente naquele momento você não está com o sentimento que provocou aquilo - a emoção excessiva te impede de produzir qualquer coisa de boa qualidade -, mas você produz essas coisas depois, por consequência das coisas que você viveu. Produzimos, pensamos, refletimos sobre as memórias, não as circunstâncias instantâneas.
É por isso que só agora - no meu brevíssimo período antes de voltar à loucura - estou tomando um tempo pra refletir e ponderar sobre as coisas que tenho observado e vivido, que tem me mudado; chego à conclusão de que o modo automático é útil, mas a longo prazo é bem pouco prático. É difícil entender exatamente as mudanças que se passaram em si, saber exatamente o que você passou a ser depois que as mudanças se completaram. Parece tudo um emaranhado confuso, sem pé nem cabeça. Você se percebe se comportando de maneira diferente e bastante particular, mas ainda se desconhece. Até produzi um breve pensamento esses dias sobre isso:

"Acredito que essa seja uma das muitas belezas da contradição humana: estar em eterna transformação dinâmica enquanto nos iludimos pensando ser estáticos. Contudo, nossa real condição evidencia-se ao nos depararmos com a emenda entre o ser antigo e o ser novo, o breve período de coexistência paradoxal de ambos quando a metamorforse ainda está incompleta; o breve instante de perplexidade ante às mudanças que sabemos que estão acontecendo, mas não sabemos bem para onde irão convergir."
Estou me estranhando muito, porque percebo cada vez mais que a minha imagem de mim mesma se mostra muito diferente daquilo que pareço ser. A imagem que quero projetar tem um abismo de ilusões, mentirinhas e ignorâncias cotidianas entre aquilo que sou e quero me fazer parecer ser, sobre meu caráter, minhas escolhas, minha fé, minha visão de mundo. 
Contudo, quando conheço os outros, fico esperando que a imagem que eles projetam seja sincera, diferentemente da minha. Fico iludida a acreditar que todos eles são de fato perfeitos, que eles são toda a beleza que eles demonstram, todas as palavras bonitas que eles falam são mais sinceras que as minhas - e me pego com medo de que eles percebam que sou uma impostora, que me infiltrei no meio dos perfeitos sem que eles percebessem e que a qualquer momento percebam aquilo que de fato sou: mesquinha, egoísta, orgulhosa. 
Assim, apesar de conhecer minha hipocrisia, detesto a ideia de hipocrisia alheia. Acredito ela ser inadmissível, mas apenas para os outros. A minha cuido com todos os cuidados, cobrindo ela com camadas de desculpas e ilusões no subconsciente e no consciente. 
O problema é que isso gera um cotidiano de medo e insegurança, como se ao se depararem com a minha imperfeição, não mais serei aceita. E de fato, isso é bastante plausível que aconteça - contudo não por causa da imperfeição e da fragilidade, mas sim pela farsa da diferença entre a imagem projetada e a imagem real que somos, sobre as mentiras que pintei pra que todos pensassem que eram o que de fato sou.
Tudo isso, esses medos e inseguranças, acabam sendo uma grande tolice, porque todos vivemos assim, de um modo ou de outro. Dificilmente somos sinceros ao nos apresentarmos e nos mostrarmos para o outro; os pontos de realidade e pura sinceridade que os outros vêem, vêem por causa de deslizes nossos, porque em alguns instantes cansamos de ser semideuses e deixamos escapar vislumbre de fragilidade, nos permitimos sermos humanos. 
E é essa a beleza de nos relacionarmos com as pessoas a longo prazo. Quanto mais construímos os relacionamentos com as pessoas, quanto mais tempo mantemos o nosso ato, uma hora ou outra, cansamos. Desistimos dos nossos papéis: é exaustivo estar em cena por tempo demais. E é apenas quando nos deixamos ser humanos, sinceros e frágeis que nos deixamos ser amados - porque é impossível amar um semideus. O semideus fica tão distante que é inatingível. O humano é vizinho, é próximo. Nos identificamos com o humano porque lá no fundo da nossa sinceridade, sabemos que nos identificamos com ele. Sabemos que sofremos, lutamos e enlouquecemos como ele com o eterno paradoxo do ser e do projetar.
Percebemos que eticamente, moralmente, espiritualmente, emocionalmente... somos todos maltrapilhos, somos todos carentes, cada um da sua forma. E é quando conhecemos o outro maltrapilho, que nós nos reconhecemos - no sentido de conhecer a nós mesmos novamente.
É nesse momento em que percebemos nossa real condição e a real condição alheia, e percebemos que não amamos o outro menos por causa da imperfeição - talvez até o amemos mais, porque nos sentimos menos sozinhos com a nossa esquizofrenia.
A partir desse momento, em que conseguimos nos identificar, e conseguimos amar o outro, percebemos que é possível que nós sejamos amados também, mesmo na nossa imperfeição. Assim, o amor passa a ser o grande conquistador da hipocrisia, do orgulho e do medo, e nos permite deixar nossas máscaras de lado em favor da sinceridade ao finalmente nos depararmos com o fato que, se não temos nada, não temos nada a perder. E é quando amamos que temos tudo a ganhar. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Desabafos e as mentiras nossas de cada dia

Normalmente eu não escrevo desbafos longos e tediosos e compartilho com o mundo porque acho isso uma grande perda de tempo – a vida não é perfeita, a vida é difícil, e faz parte do processo natural de amadurecimento aprender que é difícil e precisamos seguir adiante. Mas chego à conclusão de que às vezes, pra poder seguir adiante, a gente precisa colocar as coisas pra fora.
Sendo uma pessoa com interesse em múltiplas áreas, um Bacharelado Interdisciplinar pra chegar até a Engenharia me parecia uma excelente ideia. Por mais que nunca fosse excelente em exatas, ainda haveria outras disciplinas que eu gostaria, e foi a essa esperança que me prendi quando ingressei no Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Que aprenderia um pouco de tudo, podendo me aprofundar nas coisas que gostava. Contudo, percebo hoje meu equívoco nessa decisão.
Essa semana estava sentada na biblioteca com três colegas tentando fazer um relatório – todas cansadas, exaustas, de olhos vermelhos pela falta de sono (ok, eu estava descansada porque no dia antes tive um nervo pinçado por tensão e fui forçada a dormir porque sequer a rotação da minha cabeça provocava uma dor intensa e vista com halo). Estávamos sentadas quando chegou um email com o calendário estipulado para o próximo ano. Nada poderia ter preparado a gente pro baque psicológico daquele email.
Um ano atrás, tivemos uma greve de 4 meses dos professores – greve durante a qual muitos de nós continuamos na universidade fazendo pesquisa – e precisamos corrigir o calendário esse ano: porque não fazer 3 semestres em um ano? Elementarmente 2 semanas de férias são mais que o suficiente entre um semestre e outro. Estamos finalmente perto de corrigir o calendário e ansiamos com todas as forças pelas primeiras férias de fato que teremos no mês de fevereiro, quando nos é dito que as aulas serão suspensas em junho por causa da copa.
Eu pensei que fosse só eu que estivesse me sentindo no meu limite, mas aquele breve momento percebi que não. Que todas estávamos no mesmo limite. Cheias de frustração, cansaço. Nosso curso de engenharia com 4.400 horas (a maioria das universidades tem apenas 3.600 horas), que deveria formar bons profissionais, não vejo formando nada além de bons estudantes depressivos com corpos e vidas sociais em decadência.
Temos uma gama de disciplinas exorbitante, porém que todos os professores exigem o máximo. Os professores de cálculo esperam que saibamos cálculo como matemáticos, os de biologia que saibamos bioquímica como biólogos, que saibamos química como químicos. Espera, mas a ideia não era ter um pouco de contato com tudo pra escolher em que aprofundar?
Além disso, temos horas, e horas de aulas infinitas – horas que sinto sugadas da minha vida e indo pra lugar nenhum porque a maior parte do tempo não aprendo nada. Duas horas que eu poderia passar na biblioteca sentada com um livro aprendendo muito, muito mais do que em uma sala escura com um professor passando slides (que são, grande parte do tempo, uma cópia do livro) em voz monótona e eu estou distraída e cansada tentando ficar acordada nas condições deploráveis.
Eu francamente estou cansada, em todos os sentidos. Estou cansada de um sistema meritocrático que incentiva o trabalho em grupo em que um aluno suga o outro e os espertos, e não os esforçados se dão bem. Estou cansada de fazer exercícios e listas por nota (porque não temos tempo de aprender de fato), de aprender as 'receitas para solucao' em vez de os fatos. De “aprender pra esquecer” uma semana depois. Estou cansada desse conhecimento volátil que não passa de decoreba.
Estou cansada de um sistema em que os professores não entendem que somos seres humanos. É uma coisa exigir dos alunos pra que possamos crescer e sermos bons profissionais, mas ter cargas de matéria que nos faz fazer sacrifícios exorbitantes é ridículo.
O que vejo desde que entrei na universidade é a decadência do meu corpo – antes era mal estar por causa de um RU com comida de baixa qualidade, e problemas de gastrite por causa do excesso de stress e cafeína. Depois tudo vai escalando: dor nas articulações, tensões que provocam enxaquecas e travam o movimento, insônia, a insônia faz tudo piorar porque já temos poucas horas de sono pra dar conta de tudo. Relacionamentos interpessoais são sacrificados – tenho colegas que são mães, colegas que são casados, e como fica a família? Como fica a vida?
Estamos fazendo sacrifícios e mais sacrifícios, pra quê? Por status? Por um raio de um pedaço de papel com nosso nome dizendo que por causa daquilo temos valor? Então nosso valor depende de um diploma? Bem,  o status dá dinheiro, então é por dinheiro? É pra ter, possuir? Então é o que temos que define quem somos nessa sociedade estupidamente materialista? Ah, não, mas podemos estar trabalhando, pra ganhar muito dinheiro pra então sermos felizes. Como seremos felizes? A última coisa que vejo nos corredores é a felicidade. Vejo mais que tudo depressão. E mesmo se um dia pudermos descansar, não teremos mais famílias porque as sacrificamos pra estudar, trabalhar, ganhar mais. Não teremos mais saúde porque desde cedo somos submetidos a tensão, a stress. Porque nós precisamos conquistar o nosso valor. Porque nós não valeremos nada se não conseguirmos passar em Cálculo, ou Física 3 ou se não apresentarmos nosso trabalho de pesquisa em posters coloridos. Nós não teremos valor sem esbanjar nossas conquistas intelectuais e financeiras. Nós não temos valor nenhum se não temos, se não conquistamos, porque isso se tornou o que nós somos.
Estou farta dessa lógica que coloca tudo acima do valor intrínseco do ser humano. Estou cansada de de novo e de novo ter que apresentar as mesmas velhas lições de que eu tenho sim valor fora do meu curso, do meu título e da minha conta bancária – porque na mesma medida que tento me ensinar isso, o resto do mundo não mede esforços em me dizer que sou insuficiente, que eu não presto pra nada.
A publicidade inteiras que nos bombardeia, a mídia nos dizem nada menos que somos insuficientes. Você não vai ser bom se não tiver esse carro, usar esse perfume que vai te fazer arranjar alguém, ter, ter, consumir, ser – ou finja ser. Tenha a imagem que o mundo espera de você, de uma pele perfeita, de um corpo ideal. Você precisa. Precisa.

A única coisa que eu preciso é parar de pensar que eu preciso de qualquer coisa que esse mundo possa me oferecer. Eu preciso quebrar essa lógica, essa cultura de morte, infelicidade e insuficiência que mantém as engrenagens dos egos, do consumo e do excesso funcionando. Se for pra sermos alguma coisa, temos que ser um ponto fora da curva, fora do que o mundo espera. Eu cansei de tentar me encaixar em um molde para o qual nunca fui feita. 
Eu cansei de tentar ouvir um mundo que não tem nada de valor pra dizer. O valor que temos está na nossa identidade em Deus, na nossa identidade como seres humanos, e não na próxima exigência, moda ou título, nessas porcas e ridículas ilusões que mantém uma sociedade doentia cada vez mais deturpada e morta por dentro. 

domingo, 3 de novembro de 2013

Dividir para multiplicar

Não é incomum o mundo e seus fenômenos me deixarem perplexa. Muitas coisas são excessivamente complexas e, grande parte do tempo, maravilhosas demais pra caberem na minha compreensão pequena. Há diversas coisas nessa lista de "maravilhas assombrosas": desde o assombro com a ciência - a grandeza das galáxias e sistemas com estrelas com fusões nucleares produzindo energia, até a complexidade mínima do código genético de termos quem somos criptografado nas mesma moléculas que codificam inúmeras outras formas de vida - até outras maravilhas que vemos expressas através dessas coisas que constróem a ciência. 
Contudo, brinco que estudo ciências exatas e naturais por elas serem infinitamente mais simples do que qualquer fenômeno que envolva o fator humano e psicológico, porque por mais difíceis diversos fenômenos científicos sejam de entender, é uma dificuldade concebível que pode ser prevista com equações, programas, teoremas, observações e fatos; o fator humano, em contrapartida, jamais pode ser previsto. 
Um desses fatores que ainda me deixa incrivelmente perplexa é o apego emocional que construímos com pessoas próximas de nós, a sensação de interdependência que temos com o outro. 
Se formos pensar do ponto de vista 'científico' e puramente prático, os únicos apegos úteis seriam algum tipo de paixão (de maneira a permitir a procriação) e o instinto materno (de maneira a garantir a sobrevivência da prole). Elementarmente outros tipos de apego são úteis por permitirem a vida em comunidade, o que melhoraria as chances de sobrevivência da nossa espécie, mas isso poderia ser feito de maneira puramente utilitária sem grandes apegos emocionais, devido ao desgaste e aumento do risco provocado pelo amor. 
Imagino que a sentença 'risco provocado pelo amor' possa ter causado algumas reações nas suas sinapses, caro leitor. Uma primeira possibilidade seria você dizer que os riscos trazidos pelo amor de fato existem, mas são meramente emocionais, nada que não possa ser ajustado com o tempo - mas o risco a que me refiro é maior que apenas esse. Outra possibilidade é que você não enxergue risco algum no amor. Vejamos se sua opinião prevalece até o final do texto. 
Ouvi uma frase certa vez que dizia: "Amar é dar ao outro o poder de te ferir, mas confiar que não o fará", e acho muito interessante pensar nisso, porque é verdade. O amar te torna muito vulnerável, porque o amor exige confiança, e confiança nos deixa inteiramente suscetíveis a todos os males que o outro pode fazer conosco, mas também aos riscos que nós podemos fazer com nós mesmos devido a esse extraordinário (e, grande parte do tempo, incompreensível) altruísmo. 
Suponhamos uma cena de uma casa sendo consumida em chamas. Uma mãe, que mora na casa, está perto da porta pra sair e ela é apresentada com uma escolha: Sair pela porta em frente a ela ou entrar correndo de volta nas chamas crescentes pra tentar salvar o filho dela. Pelo que observo do amor materno, a grande maioria das mães que conheço nem teriam uma escolha, voltariam correndo pra salvar o filho, ainda que isso coloque em risco - e possivelmente causa a sua morte - dela mesma. 

O medo da morte, nesse caso, acaba desempenhando papel bastante pífio ao lado do papel desempenhado pelo amor. Nesse sentido, acredito que o amor - e não a coragem, como normalmente colocaríamos - é o grande conquistador do medo. A coragem sem motivação válida não passa de estupidez, a coragem com motivos nobres é amor. E, considerando que o medo existe essencialmente para a autopreservação do indivíduo, é um loucura pensarmos em algo que anule a autopreservação de maneira tão enfática, e mais loucura ainda isso ser algo que prezamos tanto. O amor é perigoso. 
Nos deparamos mais uma vez com uma questão que abordei recentemente: a loucura. Observando de fora, o amor é loucura, o amor é perigoso, o amor é motivo de fuga. Mas chegamos a um paradoxo: O amor traz grandes riscos à vida e ao bem estar, mas também é o que faz essa vida valer à pena e causa qualquer rascunho de felicidade e bem estar concebíveis no sentido puramente terreno (e também divino, considerando o amor de Deus por nós). 

A partir do momento que nos deixamos nos apegar ao outro emocionalmente e amar, estamos entregando nossos medos, nossos sonhos, nossas fraquezas ao outro, entregamos-nos em toda a vulnerabilidade possível e dizendo que ele importa mais que tudo isso. É isso que uma mãe e um pai fazem com seus filhos, é isso que uma noiva diz para um noivo quando estão no altar, é isso que diz a compaixão quando sentimos a dor do outro mais que as nossas circunstâncias e mudamos nossa conduta para ajudá-lo. 
Contudo, mais que apenas a dor que pode ser causada pelo outro, existe a dor que será provocada em nós que acontece no outro. Quando amamos, além da nossa própria dor, sentimos também a dor do outro como se fosse em nós - ou mesmo, muitas vezes, pior do que a dor em nós. 
Lembro-me certa vez quando estava com um cisto pressionando o meu nervo na coluna e precisava ser removido, mas devido à infecção e inflamação, a anestesia não surtiu efeito, e foi um procedimento extremamente doloroso. Mas o que mais me assustou foi que, uma vez que estava saindo do consultório médico, o médico pediu pra que eu cuidasse da minha mãe - ela estava assustadoramente pálida e trêmula, quase desmaiando. A dor foi provocada em mim, mas ela sofreu mais que eu emocionalmente. 
Hoje estou descobrindo o que é isso, sentir mais no outro que em si. Diversos amigos e pessoas queridas estão passando por situações muito difíceis e dolorosas, e tudo o que mais queria era poder tirar deles e colocar em mim pra que eles não sofressem mais... pra que não visse seus olhos tristes ou recebesse palavras de tamanha dor e desânimo. Mas não posso. 

E quando paro pra pensar... seria autodestrutivo. Seria ilógico do ponto de vista natural e exato. Mas ainda o faria sem pensar duas vezes se estivesse no meu poder. Porque eu iria querer a dor deles pra mim? Isso é porque a dor delesjá é também a minha dor. Quando passei a amá-los, eles passaram a ser uma extensão, um pedaço de mim. Loucura seria não sentir o que eles sentem.
E mesmo que pra muitos o amor ainda seja considerado uma loucura por si só, só posso receber a insanidade de braços abertos sem me importar, sem questionar, sem sequer ponderar - porque de todos os loucos do mundo, que sejam os outros, tão loucos quanto eu, que quero ter comigo. E juntos, ao mesmo tempo que dividimos as tristezas, assim multiplicamos as felicidades. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Freedom of a fearing fool

You ask for no less than everything
But all is just so hard to give
Then will I be left with anything?
Is my life my own to live?
You say, “For love, for me you’ll live
For you I gave everything to forgive.
The only things you’ll ever have
Is the ones you learn to give.”  

I have always been at risk of flight
I still am a cowardly running fool
I knowI should not, but I still do
Hoping maybe I just might
Outrun my tears, not need to fight
I ran from my fears and I still would
'Till I ran from myself and into You

You are love as who lives in You
In love there is no room for fear
But still I’m trembling down here
Does that mean I am not true?
Turn towards me your loving ears
Oh Father, my plea please do hear
Please do, teach me to love too
Father, teach me to love You


So now I know your love, Father
And rely on what it has for us
I am now free from sin’s curse
Still I need you for each step further.
You say I should have confidence
You say that I must trust
For your love’s the strongest armor
It does not bend or break or rust.

What is here?

Essa semana foi particularmente difícil em alguns sentidos, acredito que a maioria destes ligados à minha péssima qualidade de sono. Tenho tido muitos pesadelos, e quando entro nesses períodos de pesadelos sucessivos começo a ir dormir cada vez mais tarde porque não quero vivenciá-los. Espero até estar absolutamente exausta pra finalmente me render aos terrores que a minha mente é capaz de criar. Acabou que minha média de sono da semana foi de 5 horas por noite, não consegui fazer tudo o que precisava fazer, o que fiz não ficou tão bom quanto queria, e acabei a semana um pouco frustrada. 
Na sexta-feira estava fazendo um relatório na unifesp que deu muito trabalho e da biblioteca observava tudo lá fora ao longo do dia, principalmente o clima porque estava bem representativo da semana - estava chovendo, mas vez ou outra saía o sol, fazendo inclusive a chuva ficar bonita.
Terminei o relatório e entreguei, estava voltando pra casa caminhando feliz com o fim da semana chegando, cansada e olhei pro céu procurando alguma coisa. Procurando um arco-íris. Por mais que estivesse naquele momento bastante em paz e contente, ainda gostaria muito de ter aqueles comprimentos de onda passando pelas gotas de chuva... Por um brevíssimo instante pensei ter visto alguma coisa. Mas não era nada. 
Tinha tudo pra ter um arco-íris - sol, chuva, a cor do céu favorável pra ele ser visualizado... Mas não teve. O ângulo de incidência da luz na chuva talvez estivesse errado. Ou a umidade insuficiente. Não sei. 
Continuei caminhando ainda procurando, torcendo contra esperanças... quando um glorioso aroma tomou conta do meu arredor. Desviei os olhos do céu e olhei pro asfalto: Estava coberto de um carpete de flores amarelas que caíram de uma árvore, mas tinha mais flores que já tinha visto no asfalto. A chuva nas flores enfatizou grandemente o seu aroma suave, e caminhei pensativa, contemplando aquela cena e experimentando cada detalhe. 
Fiquei pensando em como eu quase não vi as flores com a minha distração. Fiquei pensando, ainda, em como a minha expectativa de meramente ver o arco-íris, quase poderia ter me roubado a experiência tão mais rica de, além de ver o belo, também sentir seu cheiro, também sentir as flores sob os meus pés cansados. Fiquei pensando em quantas vezes dedicamos tanta atenção aos nossos desejos e expectativas que às vezes perdemos oportunidades únicas que se apresentam de maneira inesperada, porém muito mais adequada. 
Talvez esteja na hora de parar de procurar tanto e tentar perceber: o que tenho aqui diante de mim?


Grace for me - Michael Gungor
"This jar of clay and all its weakness;
Somehow inside dwells Your fullness.
Even though I’m not yet flawless,
You are forming me.

Your grace for me is all I need
All I need is here
Your grace for me
Is all I need
All I need is here

Everything that I desire 
really may not meet my needs. 
Help me to seek first Your kingdom.
You’ll provide for me.

Valleys come and tears aren’t dry yet 
and there are things I don’t yet see.
But I’ll rejoice despite of hardship; 
You’ll watch over me."

domingo, 13 de outubro de 2013

Julgando um livro pela capa

Nunca julgue um livro pela capa. Aprendi bem essa lição esses dias, tanto no sentido figurado de que não se deve julgar uma pessoa por sua aparência ou avaliá-la pelos padrões que nossa sociedade impõe, como no sentido literal em se tratando de livros. O fato curioso? Aprendi as duas coisas com um mesmo livro. Eu o julguei, e julguei mal. Julguei pelo título cliché e pela capa piegas. Mas errei.

Na igreja me recomendaram o livro 'O significado do casamento' (por Timothy e Kathy Keller) há uns 6 meses, e eu não estava nem um pouco em clima de ler essas coisas, mas recomendaram fortemente 'pra casados, pós casados, descasados e pré casados', disseram que mesmo pra solteiros seria um bom livro. Não li.
Acabei dando o livro de presente de dia das mães pra minha mãe porque ela queria ler, mas me mantive firme na convicção de que não o leria tão cedo. Acabou que teve um seminário sobre o livro e muitos dos meus amigos decidiram ir, então fui pra receber eles no seminário.
Até que o que foi falado era interessante mas... ainda assim. Não. Depois de um tempo mais duas pessoas me recomendaram o livro, duas pessoas que estavam em situação amorosa similar à minha - solteiras, jovens, sem perspectivas de relacionamentos.

Decidi acatar a recomendação um dia que vi o livro na sala porque minha mãe tinha interrompido a leitura e deixado por lá. Apesar da persistência necessária pra começar o livro, a leitura fácil e agradável bastaram pra que terminasse rapidamente o livro.
Acabou que o livro não trata só de casamento. Ele fala sobre o casamento na nossa sociedade, das expectativas da nossa sociedade ocidental dos casamentos, como ele se expressou ao longo da história e o que a Bíblia tem a falar a respeito disso.
Contudo, o que eu realmente não esperava era que o casamento é na verdade uma metáfora viva do relacionamento de Cristo com a igreja e reflete também o relacionamento do Ser divino (Pai, Filho e Espírito Santo).
Não consigo tirar trechos isolados do livro porque ele faz uma construção que jamais conseguiria tirar de contexto porque todos os capítulos são extremamente interdependentes, mas posso dizer os efeitos do livro sobre mim. Posso dizer que agora entendo um pouco mais do que significa o Amor.
Não em sentido meramente humano. De maneira incrivelmente inusitada, entendi muito mais do Evangelho através do livro do que do casamento em si. Entendi o amor que Cristo tem por mim, a maneira que ele me vê - não pelo que sou, mas pelo que posso ser. Entendi que tudo o que Ele fez (e faz) por mim é pra me levar ao potencial completo que ele vê em mim.
Eu dificilmente faço isso, mas eu chorei muito de plena felicidade ao entender a dimensão, a extravagância, desse amor. Então, em vez de o livro sobre casamento me fazer querer mais que qualquer coisa casar, o livro me ajudou a entender quão gloriosa também é a situação de estar solteiro e poder ter em Cristo todas as minhas necessidades emocionais satisfeitas, porque além dele ter sido o grande exemplo de amor, esse amor também é direcionado a mim. Que amor há que é maior que dar a vida em favor de outro? E alguém fez isso por mim. Isso é amor além do que qualquer história ou conto de fadas poderia sequer considerar! Ele não escalou a montanha mais alta por amor, mas ele subiu no Calvário. Ele não nadou todos os oceanos por amor, mas ele acalmou a tempestade - e acalma todas as tempestades em mim. Ele não fez promessas vazias. Ele foi a confirmação de uma promessa.
 Eu jamais conseguiria expressar por meio de palavras o quanto aprendi ou o quanto cresci com a leitura desse livro, mas o que posso fazer é deixar um poema citado no livro. Porque às vezes chega um ponto em que a felicidade não pode mais ser expressa por meio de palavras. Talvez eu precisasse ser o escritor ou poeta mais eloquente ou músico mais habilidoso pra conseguir expressar tudo. Só o que posso dizer é: Se puderem, leiam o livro. Não façam como eu. Não julguem-no pela capa.


LOVE (III)
by George Herbert


Love bade me welcome, yet my soul drew back,
        Guilty of dust and sin.
But quick-ey'd Love, observing me grow slack
        From my first entrance in,
Drew nearer to me, sweetly questioning
        If I lack'd anything.

"A guest," I answer'd, "worthy to be here";
        Love said, "You shall be he."
"I, the unkind, the ungrateful? ah my dear,
        I cannot look on thee."
Love took my hand and smiling did reply,
        "Who made the eyes but I?"

"Truth, Lord, but I have marr'd them; let my shame
        Go where it doth deserve."
"And know you not," says Love, "who bore the blame?"
        "My dear, then I will serve."
"You must sit down," says Love, "and taste my meat."
        So I did sit and eat.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desconcerto da alma

Brasileiros adoram contar vantagem dizendo que no português temos uma palavra que não é encontrada em nenhuma outra língua: Saudades. É claro que é possível transmitir em outras línguas a ideia, mas as traduções são mais próximas de 'estar sentindo falta de' em oposição a sentir saudades. 
Contudo, não sei se acho essa palavra tão apropriada. Posso estar sendo tendenciosa por preferir o inglês pra me comunicar de maneira mais sincera e 'sentimental' já que meus relacionamentos afetivos com a família sempre foram nessa linguagem, mas acho que o inglês foi muito mais feliz em como explicou o sentimento com 'I miss you'
To miss é ter algo faltando; por exemplo, se tivermos um quebra-cabeças e não houver uma peça diremos que esse quebra cabeça 'has a piece missing'. Por isso acredito que a palavra seja mais adequada para expressar o sentimento quando se está sentindo saudade de alguém ou alguma coisa. 
Dizer que 'estou com saudade' me parece muito estar perdido em pensamento vivendo no passado, relembrando estar fazendo determinada atividade ou com determinada pessoa, porém isso me parece demasiadamente nostálgico e pouco prático - afinal, não passamos horas pensando em todas as pessoas de quem sentimos saudade. Isso acontece brevemente e acaba sendo um sintoma do estar sentindo falta. 
Contudo, quando sentimos falta, existe uma certa inquietude, um desconcerto de nós mesmos. Às vezes você nem sabe bem o que é, mas é constante. É como uma dor de cabeça leve e irritante, ela te deixa de mau humor, irritado e incapaz de fazer as atividades com total eficiência, mas demora algumas horas antes que perceba que está com dor. Sentir falta é assim. Às vezes você percebe as consequências antes da causa. 
Conversando com a minha vó, gosto muito de ouvir as histórias dela sobre a vinda para o Brasil e, principalmente, as histórias do meu avô. Ela era (e ainda é) uma pessoa extremamente apaixonada por ele; em tempos em que é muito difícil encontrar amor de verdade, sei exatamente o que é amor quando ela fala sobre ele e vejo aquilo nos olhos dela. E algo que ela sempre diz é que cada vez que ele saía no cavalo com nada mais que uma escova de dentes, uma troca de roupa e a sua Bíblia debaixo do braço pra pregar, ela sentia um buraco no meio da barriga. Um buraco que só se preenchia quando o avistava de longe se aproximando da casa, semanas ou às vezes meses depois. 
Essa é exatamente a sensação de um quebra-cabeça com uma peça faltando, ou de uma máquina que não consegue funcionar com rendimento total porque uma peça está ausente. Não é uma peça fundamental ainda, mas uma peça que ajuda meuito. Assim, quando criamos laços afetivos com pessoas ou quando temos uma afinidade muito grande por determinada coisa ou atividade, a distância nos dá a sensação de sermos incompletos enquanto separados. 
Certa vez vi uma frase que dizia "Nós somos formas de todas as coisas que amamos", e de fato acredito que todas as coisas e pessoas que amamos nos mudam um pouco, e quando estas se vão, fica um vão reservado para quando aquilo voltar. Às vezes acabamos tentando preencher os vãos com outras coisas, mas as marcas nunca de fato vão embora. A única coisa que acontece é que tiramos aquele vazio de evidência, mas ele nunca deixa de existir. 
Então, esqueçam brasileirismos! Cada vez que digo que 'estou com saudades' de escrever, de ler, de desenhar, mas acima de tudo, de cada pessoa, estou dizendo que estou temporariamente incompleta. Temporariamente incompleta até que os encontre mais uma vez, e finalmente o buraco no meio do meu estômago será preenchido com a vista distante dos amigos de alma, tão longe a maior parte do tempo, mas que mudaram tanto do que sou.

"Um verdadeiro amigo é uma alma em dois corpos"
- Aristóteles

sábado, 5 de outubro de 2013

Colecionando Histórias

Quando li o livro Cartas de um diabo ao seu aprendiz pela primeira vez, gostei muito do livro, mas algumas coisas me incomodaram um pouco e precisei passar muito tempo tentando entendê-las. Uma dessas coisas foi o trecho que fala sobre o tempo e a eternidade e o uso que seres humanos fazem das duas coisas, porque sempre fui uma pessoa movida a 'amanhãs' e a expectativas. Hoje não era um bom dia, mas amanhã era. No final de semana eu ia sair, no mês que vem teria acampamento, ano que vem eu ia me formar. Colocava minhas esperanças nos eventos futuros e, grande parte do tempo, acabava frustrada por eles não satisfazerem minhas expectativas. 

"Ele portanto, eu acredito, quer que [os humanos] dêem atenção a duas coisas principalmente, à eternidade em si, e ao ponto do tempo que eles chamam de Presente. Pois o presente é aquele ponto em que o tempo tangencia a eternidade. Do presente momento em diante, e dele apenas, humanos tem a experiência análoga à experiência que [Deus] tem da realidade como um todo; só nele liberdade e realidade são oferecidos a eles. Ele preferiria que eles continuamente se preocupassem ou com a eternidade (que significa se preocuparem com Ele) ou com o o Presente - qualquer um dos dois mediando sua união eterna, ou separação eterna, dele mesmo, ou então obedecendo a voz presente da consciência, suportando a cruz do momento, recebendo a graça do momento, dando graças pelo prazer do momento. (...) Em uma palavra, o futuro é, de todas as coisas, a menos parecida com a eternidade. É a parte mais temporal do tempo - pois o passado é congelado e não flui mais, e o Presente é iluminado com raios eternos."

A partir dessa leitura, comecei a perceber quanta infelicidade é gerada por essas eternas expectativas, pois a realidade nunca as satisfaz. Viver no futuro é viver em mentiras e ilusões, pois nunca virá a se realizar. Simon Tugwell coloca as expectativas de felicidade de uma excelente maneira: 

"Uma das maneiras mais eficazes de não sermos felizes é insistir em sermos felizes a qualquer custo. A religião da felicidade, lembra-nos o padre Brown, é uma religião cruel, e talvez a melhor maneira de não enlouquecer esteja em não nos importar muito se enlouquecermos."
- Simon Tugwell
Lembro há uns 5 meses quando estava voltando pra casa da minha mãe após o final do semestre, estava em um estado deplorável. Estava extremamente triste, cansada e só queria me enterrar em uma caverna e não sair nunca mais de lá, quando um homem no ônibus me pergunta em inglês onde era pra descer na rodoviária. Expliquei que estava indo pra lá e poderia mostrar o caminho. No final descobri que eram dois amigos chineses que estavam trabalhando em São José dos Campos e iam pra Liberdade em São Paulo. Me ofereci pra ajudar eles a chegar lá, e mesmo com as dificuldades de um inglês com um sotaque chinês fortíssimo, conseguimos nos entender. Eles me perguntaram porque eu estava sendo tão legal com eles. Percebi que era porque eu não tinha nada a perder. Estava me sentindo vazia de esperanças e expectativas, pois as expectativas que tinha haviam sido frustradas. Estava vazia de qualquer coisa. E foi quando estava com as mãos vazias, quando estava só tentando entender o momento presente, que pude estender essa mão vazia em favor de outro. 
Eles tiraram fotos comigo e escreveram em uma nota fiscal velha e amassada o email deles e disseram com um sorriso 'In case you in China need help!' Ajudei eles, eles não entenderam porque eu estava ajudando sem pedir nada em troca, e talvez eu mesma também não entendesse. 
Mesmo no estado que estava, fiquei feliz. E comecei a entender a que o texto do Lewis se referia.. 

Esse dia provocou grandes mudanças em mim e comecei a viver de uma outra maneira, aos poucos comecei a habitar o presente mais que o futuro. Comecei a fazer coisas que normalmente não faria e viver cada dia de uma vez - fui pela primeira vez há uma festa junina, experimentei muitas coisas que nunca havia experimentado como churros, maçã do amor e mastiguei a maçã como se fosse a versão materializada do amor romântico, experimentei suco de tamarindo mesmo tendo aspecto mais de suco de terrra do que qualquer fruta, comecei a viajar pelo estado vários finais de semana, tenho tentado ser mais honesta e aberta com as pessoas, abracei minha própria loucura e estranheza sem me preocupar com o que as pessoas pensam de mim, e isso tem se refletido de maneira muito positiva em todos os meus dias, no meu rendimento e no meu humor.

Ontem tive mais uma experiência fantástica. Estava na rodoviária, entretida mandando uma mensagem quando ouço "16h45!" e surpresa perguntei "Mas já? Ainda são 16h30." "Tem bastante vaga nesse, pode ir agora se quiser." 
Nos meus quase 3 anos fazendo esse trajeto, isso nunca tinha acontecido. Entrei no ônibus e sentei na única janela vaga. Uma senhora de idade entrou no ônibus e sentou-se do meu lado. Fiquei absorvida com a minha música e com as minhas mensagens via sms, mas senti que deveria conversar com ela. Mas morro de vergonha. Se alguém precisasse conversar o diálogo, teria que ser ela. 
Subitamente ela virou e me ofereceu uma balinha. Recusei de início, mas ela insistiu. Foi como se fosse um déjà vu, como se eu soubesse que aquele diálogo ia acontecer. Começamos a conversar, e ela me contou sobre o trabalho dela como assistente social em favelas, em como ela gosta de ajudar pessoas a construirem sonhos, sobre o trabalho dela em desapropriação e ajuda em construir e encontrar casas, sobre as três famílias dela (pai, mãe e irmãos, família que ela construiu com o marido e a igreja), ouvi histórias lindas e aprendi muito. No final, vim embora com o telefone dela e um convite pra que vá na casa dela 'tomar um café e conversar' porque ela sempre está sozinha. 

De repente, percebi que quanto menos penso na história que está sendo construída, mas a história se torna fascinante. Não esperar nada do futuro abre infinitas possibilidades de um futuro feliz - porque não espero absolutamente nada! Qualquer coisa que vem é lucro! Seja um e-mail de dois chineses perdidos, seja uma bala ou um convite pra ir tomar um café. Percebi que vivendo no futuro perdemos a beleza e a graça do presente. Finalmente percebi o que o trecho dizia com a seguinte frase: 

"Ele não quer que homens dêem ao Futuro os seus corações, que coloquem seus tesouros nele. (...) Seu ideal é o homem que, tendo trabalhado o dia todo pelo bem da prosperidade (se essa for a vocação dele), lave sua mente de todo o assunto, entrega os problemas aos Céus e retorna de uma vez à paciência ou gratidão demandada pelo momento que está se passando nele."

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Identidade 3x4

"Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"
- A. Campos

Sempre detestei tirar fotos 3x4. Era sempre uma frescura, ter que se arrumar, colocar uma roupa que não ficasse escura demais e nem branca de maneira que parecesse que minha cabeça estava flutuando (ou só aparecessem meus olhos, nariz e boca e tudo se camuflasse em uma grande mancha branca). 
Lembro-me de precisar de avisos prévios pra tirar as fotos, e se não os tinha, saíam atrocidades terríveis - os dias de foto eram sempre os dias em que espinhas, manchas na pele, inflamações de todo tipo surgiam. Todos os tipos de identidades que precisava fazer ficava com vergonha e detestava como eu era representada. 
Hoje estava correndo atrás de algumas documentações e coisas e descobri de última hora que precisaria tirar uma dessas malditas fotos nada representativas de mim, e queria terminar tudo antes de dar o horário de ter que retornar pra aula na universidade. Sem tempo de frescuras. Consegui tirar a foto, acertar documentos, fazer coisas pra faculdade, pagar contas em tempo recorde, fiquei feliz comigo mesma. Não por tudo o que consegui fazer. Não por finalmente, 3 anos depois estar tirando a habilitação, mas por ter ficado bem na bendita foto. Raios, é só uma foto! Porque isso faria diferença pra mim? 
Percebi que isso fala muito de mim e da nossa sociedade como um todo. Comecei a pensar no nosso senso de identidade. De acordo com o estado, somos um nome, uma impressão digital, um número e uma foto 3x4. Já que o nome não escolhemos, nem o número, nem a impressão digital, queremos pelo menos que um pouco da nossa humanidade esteja naquela pequena área de 6 centímetros quadrados. Nossa humanidade foi reduzida a isso. É só nisso que participamos e nos tornamos algo mais que um número de diversos dígitos. 
Mas a nossa humanidade não é humana. Ou melhor, não queremos que seja humana, imperfeita: Queremos uma humanidade perfeita, mesmo que isso não represente o que as pessoas vêem todos os dias - um cabelo bagunçado, manchas na pele, olheiras de cansaço. Queremos que aquela humanidade revelada seja superior, porque é só o que temos. 
Em muitos sentidos, acredito que isso nos move: queremos uma imagem bela, títulos e conquistas pra mostrar ao mundo que somos humanos, mas também somos perfeitos. Somos semideuses. Somos melhores que os outros, que só são números e uma foto normal. 

Uma grande ironia que isso nos mova, que nosso orgulho, nossa vontade de sermos melhores nos mova, porque isso também é o que nos torna terrivelmente infelizes, porque causa separação, buscamos tudo avulso do outro. Não queremos que seja o nome que nossos pais nos deram, ou a genética da nossa ascendência que determinem nossa impressão digital - tentamos fabricar uma imagem toda feita de eu, meu e mim. E, a partir do momento que nos tornamos bons demais, a partir do momento que essa que é a pessoa que vamos colocar naqueles 6 centimetros quadrados, é assim, exatamente, que nos tornamos mais um rosto na multidão. Mais um rosto sozinho, orgulhoso, vazio, e que não deixará memórias. Só deixará um número de identidade e uma miserável foto 3x4 porque na verdade, nunca conheceu sua real identidade.  

"Quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. "
- Ricardo Gondim




segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Um ensaio sobre a loucura

A lógica e o fato são duas coisas bastante confortáveis, ajudam a gente a interagir com o mundo de uma maneira que nos deixa mais felizes. Se não fosse assim, nunca teríamos inventado a roda ou ferramentas que nos ajudaram ao longo da história: Descobrimos como algo funcionava, aquilo podia ser previsto e facilitado devido a essa previsão, o que nos dava mais tempo pra descobrir outras coisas e assim aprender mais, conhecer mais, facilitar mais pra aprender mais. 
Gostamos de identificar padrões para as maiorias mas, como ensina a biologia quando avançamos os estudos, descobrimos que existem as chamadas (e temidas) excessões. Nem tudo funciona dentro dos padrões que estabelecemos, mas mesmo assim insistimos em fazer nossos padrões. 
Comecei a fazer essa reflexão porque tenho essa tendência muito forte a me apegar a lógica, rótulos e fatos, em qualquer área da minha vida, não só aos estudos. Muitas vezes as grandes discussões que tenho com pessoas são "Mas isso não faz sentido! É ilógico!" "Você está sendo irracional." "Mas isso é contraditório e não é de acordo com as observações ou com minhas experiências passadas." 
Gosto de lidar com pessoas claras e lógicas, que sejam fáceis de entender, assim como gosto bastante de conceitos assim. Contudo, tenho ponderado e percebido que a lógica e a razão não são verdades supremas ou bons parâmetros pra lidarmos com o mundo e aqui posso ser bem impopular devido a essa colocação porque são padrões incrivelmente subjetivos e mutáveis e que dependem de uma série de pressupostos. 
Um exemplo: detesto fazer demonstrações matemáticas porque, por mais que sejam lógicas, ainda precisamos partir de pressupostos que eu não sabia que podia partir: 'Espera, mas como eu posso assumir isso se estou provando que 1 é diferente de 0? Se um fosse igual a zero isso não automaticamente perderia a validade? Minha demonstração não está sendo tendenciosa?'
Da mesma maneira, demonstrar uma argumentação também parte de pressupostos subjetivos a cada ser humano. Somos seres humanos e temos algumas coisas em comum mas, convenhamos, jogar toda a humanidade em uma categoria e dizer que seguem determinado padrão é bem complicado - tanto é que a psicologia é considerada uma pseudociência, não uma ciência. 
Contudo, a ciência é feita por seres humanos, e as pessoas a aceitam como fatos incontestáveis. Espera, então os seres humanos não são regidos por verdades absolutas e comuns a todos então são subjetivos, mas a ciência que esses mesmos seres humanos produzem podem ter verdades absolutas? Mas o cérebro humano que produz teoremas e fatos 'incontestáveis' não é o mesmo cérebro que produz emoções, sentimentos e subjetividade? Porque então existe 'lógica' como um parâmetro absoluto? Porque a observação e experimentação são tidas como parâmetros válidos?
Aliás, porque acreditamos que nosso cérebro e nossa compreensão humana podem compreender o mundo que nos cerca quando esse cérebro não compreende a si mesmo? Não é uma loucura e um ciclo sem fim um cérebro que não entendemos dizer o que podemos ou não entender? 

Sei que tudo isso pode parecer loucura, especialmente se formos considerar que eu sou eu e o número de vezes que já escrevi nesse mesmo blog sobre como me apego à ciência, aos fatos e verdades; sei que pode parecer loucura porque estou usando esse mesmo cérebro pra pensar e escrever contra a supremacia do cérebro no conhecimento e produção de verdades, mas acredito que essa seja a palavra perfeita pra descrever isso tudo: É loucura! É tudo loucura! . 


Quanto mais tento entender a lógica, a razão, o cientificismo, entendo que isso é mais uma cosmovisão: uma visão do mundo que afeta toda a nossa interação e reação ao mundo: ela não é soberana e não tem todas as respostas. Apenas acontece que estamos dentro de um contexto social que acredita que frases como 'comprovado por cientistas que...' tem o mesmo valor que os povos na antiguidade davam a frases como 'os sacerdotes receberam uma mensagem que...'. 
Nós não estamos em um período de busca da verdade pura e simples sem idolatria e idealização, nós meramente mudamos nosso objeto de adoração: em vez de buscar no divino as respostas, buscamos em nós mesmos, na nossa lógica e na nossa razão as respostas. E, convenhamos, isso é bastante conveniente: nós termos por padrão qualquer coisa que nós mesmos criamos é bastante adequado pra fazermos e pensarmos o que quisermos. 
Seria o mesmo que eu achar que o tamanho certo de camiseta é o tamanho que cabe em mim. Sempre será verdade, mesmo que não seja verdade para o restante das pessoas. Então, dizemos que o jeito certo de entender o universo é o jeito que nós, seres humanos, entendemos, mesmo que isso não seja verdade para o restante do universo. 

Substituímos nossos deuses pelo conhecimento e pela lógica confortável, nossos sacerdotes e pastores são agora cientistas e pensadores, não sacrificamos nossos animais ou filhos em adoração - mas sacrificamos nosso tempo e nossos relacionamentos em busca de mais respostas pra entendermos, prevermos e assim controlarmos o mundo. No final, o que queremos é controle. 
Antigamente em qualquer civilização, os povos atribuíam o controle a divindades e pediam por meio de rituais para que as coisas fossem de acordo com a vontade deles, mas hoje nós mesmos tomamos essa responsabilidade e esse cargo, somos nossos próprios deuses: construímos e desconstruímos como queremos, interferimos no mundo como desejamos, e não sabemos mais o que é não ter controle - até que a morte eventualmente nos diz: Você pode fazer o que você quiser, tentar controlar o que você quiser, mas eu sou um fato incontestável. Eis um pequeno fato: você vai morrer. 
E então especialmente na nossa cultura ocidental a morte passa a ser desesperadora, é a maior prova que nós não temos controle absolutamente nenhum, apenas uma breve ilusão de que podemos decidir quais as regras do jogo. 
Porque comecei toda essa discussão? De onde veio tudo isso? Todos esses pensamentos foram desencadeados por uma pequena loucura minha: enquanto lia o livro de Romanos, pensava no sacrifício de Jesus em favor dos humanos. Deus é justo, portanto devido ao fato que nós quebramos o relacionamento com Deus através do pecado, seria necessário um pagamento: porém por Deus ser misericordioso e gracioso, o sacrifício não foi dos culpados (nós) mas sim de Jesus que, por não ser pecador, mudaria as regras do jogo e pagaria a dívida de todos. E eu fiquei tentando entender essa lógica, e não pude encontrá-la. 
Espera, se Deus é justo, porque ele foi injusto com Jesus fazendo ele morrer? Se ele foi tão misericordioso conosco, porque não mostrou esse amor ao próprio filho? Isso seria uma contradição? Qual o parâmetro divino de justiça então se não se assemelha ao nosso parâmetro? 
Perguntas e mais perguntas estavam na minha cabeça, e tentei ler e reler, pensar e repensar, mas não pude elaborar uma explicação. A lógica me falhou. Mas... se a lógica falhou, como que um ser humano teria estabelecido essa lógica? Porque o cristianismo, diferentemente de outras religiões, não se adapta ao nosso conforto? Então deve haver algo diferente no cristianismo pra que esteja fora do que produziríamos normalmente. 
Contudo... mesmo com todos esses questionamentos, em nenhum momento questionei a validade do sacrifício, questionei se eu era livre ou não. Elementarmente, já tive dúvidas sobre Deus, já tive crises de fé, porém todas elas foram superadas e acredito de verdade que haja sabedoria em tudo isso, mas uma sabedoria tão além de nós e da nossa zona de conforto, que talvez eu nunca consiga entender. Ainda assim, não deixo de perder a confiança de que Deus, de alguma maneira, tenha sentido nisso tudo. 
Lembro de uma canção que diz: I find peace when I'm confused. I find hope when I'm let down, but not in me, but in You. Encontrei paz na minha confusão como nunca havia encontrado. 
Percebi que minha cosmovisão fora estabelecida nesse momento, que, dada a escolha, escolhi a Verdade da fé, mesmo que do ponto de vista lógico ou científico fosse inconveniente e difícil de entender e, em muitos sentidos, parecesse loucura. Eu decidi aceitar que um é diferente de zero, porque a demonstração era além da minha munição intelectual, e, por uma vez, não me importei com isso. 
E foi daí que em um súbito lampejo de lucidez percebi: a Verdade nem sempre é lógica. A Verdade também é loucura. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Um punhado de morangos

"Um monge estava sendo perseguido por um tigre feroz. Correndo o máximo que conseguia, chegou à beira de um precipício. E notou que havia uma corda pendurada que descia pelo despenhadeiro. Então, segurou-se nela e foi descendo pela encosta. Ao olhar para aixo, viu uma enorme rocha pontiaguda a menos de 200m dele. Então o monge olhou para cime, e lá estava o tigre parado bem na beirada. Naquele exato momento, dois camundongos começaram a roer a corda. O que fazer?
O monge olhou para a encosta do precipício e viu uns morandos que haviam crescido ali. Esticando o braço, colheu-os e, enquanto os comia, murmurava: "Nossa! São os melhores morangos que já comi na minha vida." 
- Confiança cega, Brennan Manning

Essa é uma historinha ilustrativa que Manning coloca no seu livro Confiança cega. A princípio parece estranha a história, fiquei confusa por não ter um final, mas comecei a tentar relacionar isso com o restante do livro e com a confiança. 
O monge não estava preocupado, se estivesse preocupado com o passado (tigre) ou com o futuro (pedra), ele poderia facilmente ter perdido a beleza naquele momento, os morangos mais saborosos que já havia comido, teria perdido a oportunidade de experimentar aquilo. 
De maneira oposta, tenho a mente bastante obsessiva-compulsiva com algumas coisas. Estou constantemente avaliando: "Isso está funcionando? Aonde isso vai chegar? Se não for chegar a lugar nenhum, é melhor interromper agora mesmo.", mas isso é uma lógica bem humana e bem errada. 
Recentemente tenho tentado viver a árdua tarefa de viver um dia de cada vez, fazer as coisas com mais tempo, fazer com antecedência, pra tentar viver cada dia em todo o seu potencial, e tem sido uma excelente experiência. Cada caminhada para universidade, cada coisa que tenho que resolver, vou experimentando uma coisa de cada vez, e lentamente estou descobrindo mais beleza no mundo. O céu cinzento passou a ser feito de prata, o céu azul tem um tom favorito, a chuva faz todas as coisas brilharem, tudo de repente passa a ser mais intrigante quando você não está atrasado, correndo ou estressado. Não que não haja coisas a serem feitas, mas são feitas cada uma em seu tempo, sem intersecções. Hoje mesmo me peguei distraída pelo dia quando escrevia uma mensagem: 
"Aqui está o meu tipo de dia preferido: muito vento frio, sol e meu tom favorito de azul no céu... sem contar a primavera se manifestando nas flores e nos lindos cantos de passarinhos cheios de segundas intenções com as passarinhas devido à estação."
Tudo isso me lembrou um trecho de um poema do Tolkien no Senhor dos Anéis:

All that is gold does not glitter,
Not all those who wander are lost;
The old that is strong does not wither,
Deep roots are not reached by the frost.

Ou seja, Tudo o que é ouro não brilha, nem todos os que vagueiam estão perdidos; O velho que é forte não definha, raízes profundas não são atingidas pelo gelo. Alguns motivos pelos quais tenho pensado muito nesses versos: Os morangos não são sempre algo que chamam atenção, que brilham, que nos fazem parar tudo. Nem tudo o que é bom "brilha" como o ouro, porém não deixam de ter valor. Aliás, as coisas mais valiosas acabam sendo surpresas bem agradáveis. 
Segundo, vaguear sem saber o destino certo não significa que estamos perdidos, significa que chegar lá não é sempre o mais necessário, mas sim o processo de chegar lá, e é nesses momentos vagueando que encontramos os pedaços de ouro escondidos. 
Os últimos dois versos são brilhantes, especialmente o último. Se for esticar muito, posso ligar isso a todas as minhas reflexões recentes: A partir da confiança total em Cristo, temos nossa identidade bem enraizada nele, e portanto nossa fonte de todas as coisas está nele, pois ele é o item primário da vida que, colocado no lugar devido, traz automaticamente as coisas secundárias consigo - se temos as raízes nele, o demais não precisa nos afetar tanto. Mesmo se estamos em períodos de seca, de gelo, de inverno ou de calor, nosso fornecimento de força e felicidade passa sem ser interrompido pois temos as prioridades bem estabelecidas e nossas raízes estão presas a ele. 
O que isso tem a ver com morangos? Tudo! É só a partir desse relacionamento bem construído que temos a paz suficiente para levar um dia de cada vez sem morrer de ansiedade querendo ler o final dos capítulos que estamos construindo ainda, só assim confiamos nele pra cuidar das pedras e dos tigres enquanto fazemos nosso melhor no momento, sem perder dádiva alguma vinda de suas mãos amorosas. 
Por mais que seja mais fácil viver isso em coisas pequenas e não em decisões que não dependem apenas de escolhas, em guerras internas e dúvida, aos poucos o mundo torna-se cada vez mais belo e assombroso em sentido positivo - e de repente percebo que estava cercada de pés de morangos que não via por causa de tigres e pedras pontiagudas. Alguém mais aceita morangos?

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quando a resposta é que você não vai ter uma resposta

Ultimamente estou aprendendendo muitas coisas (como sempre). Por mais que não esteja postando muito, minha cabeça tem maquinado e processado muita coisa, talvez tanto que escrever de maneira adequada e sucinta tenha se tornado uma tarefa excessivamente árdua - meus amigos que tenho mantido contato que o digam, mensagens pedindo e dando notícias que antes ocupavam um dois parágrafos agora ocupam 4, 5 ou 6 páginas. 
Um excelente livro que estou lendo no momento é do Brennan Manning, chama-se Confiança cega. O livro foi escolhido a dedo porque, lendo O Evangelho Maltrapilho, percebi que Confiança é um assunto que eu preciso tratar e acabo sempre (sempre) postergando por ser bem incômodo e eu nunca ter aprendido de fato a confiar totalmente nas pessoas. Sempre estou secretamente esperando que elas desapareçam ou quebrem o pouco de confiança que tento depositar nelas, e isso certamente afeta meu relacionamento com Deus. 
Pensando em tudo o que tenho lido, voltei novamente a um tema bastante recorrente em minhas reflexões e meus textos aqui e intrinsecamente relacionado: a nossa paixão e necessidade por controle, e como isso na verdade reflete uma profunda falta de confiança em Deus. Sempre dizem que se você quer algo feito direito, então faça você mesmo. Mas a gente pensa que isso vale pra Deus também um erro que, apesar de bastante comum, não faz sentido algum
Nessa tentativa de confiar e não tomar controle, eu tenho orado muito sobre todos os aspectos da minha vida, mas assim... todos mesmo. Tentando não segurar nada e entregar tudo de mãos abertas, desde decisões pequenas até decisões maiores que tem potencial pra afetar toda a minha vida. Mas acabo entregando perguntas e espero encher minhas mãos novamente com respostas. 
Quanto ao Treinamento Microrregional de São José do Rio Preto, não foi diferente. Orei, pensei se deveria ir, uma série de fatos convergiu pra que eu fosse, e eu fui, ainda que me sentindo meio deslocada e confusa de início afinal, sete horas e meia de viagem não é fácil pra ninguém, mas ei, talvez tivesse respostas sobre minhas outras orações. 
O que não antecipei é que eu voltaria ainda mais confusa quanto a algumas coisas, e apenas com uma resposta: Que eu não teria respostas. Que respostas não importam. 
Isso, elementarmente, foi um tapa na cara. Sou movida a respostas: talvez por ser humana, talvez por ser cientista, eu não sou uma pessoa que vai com a correnteza e vê onde tudo desemboca. Eu planejo, eu antecipo, eu preciso das respostas antes, respostas me movem mais que perguntas. 
"Entretanto, quando assumir o controle se torna parte da nossa reação rotineira nos relacionamentos humanos conturbados e nos problemas que nos preocupam, Deus deixa de ser nosso co-piloto; na verdade, ele nem está a bordo." [Confiança cega, Brennan Manning]
Mas de repente tem uma voz dizendo que elas não importam. 
O fato de não ter respostas impede o planejamento, o fato de não ter respostas tira completamente o controle da situação, e você não pode nem opinar sobre as coisas, sobre as respostas, porque não as tem. 

Agora que voltei e consegui ter um tempo devocional sem estar cercada de pessoas e dando oficinas e falando sem ter muito tempo de pensar, fiz algumas devocionais e estou percebendo que eu não fui a primeira que recebeu essa resposta, eu simplesmente caí na mesma situação que a grande maioria dos personagens Bíblicos que não receberam respostas certas. Deus pediu pra que Abraão deixasse a sua terra e fosse pra 'terra que ele mostraria', ele não falou qual ou onde era, ele só falou: saia da sua zona de conforto. Mais pra frente, ele pediu pra que ele sacrificasse Isaque - ele não falou que ele não o mataria de verdade e que seria feito outro sacrifício no lugar. Ele não falou pro povo de Israel que estava saindo do Egito que eles passariam quarenta anos no deserto pra chegar na terra prometida, muito menos onde ou qual era essa terra. 
Pelo que tenho observado, Deus não trabalha sempre com respostas certas pra trabalhar a nossa fé e nossa confiança acima de todas as coisas, pois elas são fundamentais no relacionamento com ele, e o relacionamento é o que mais importa.
Aprendemos algumas outras coisas inclusive em coisas aparentemente pequenas, até quando Deus mandava o maná pro povo se alimentar, eles estavam proibidos de guardar para o outro dia porque estragaria - precisavam esperar e confiar que todos os dias Deus mandaria a comida. 
Quando fomos ensinados a orar, fomos ensinados a orar pelo 'pão nosso de cada dia' e não pelo pão nosso de amanhã ou do mês que vem, mas cada dia passando por esse processo de entrega e dependência total, aprendendo todos os dias a confiar de novo, mesmo quando todas as circunstâncias parecem contrárias ou pouco prováveis. 

Algo que Manning coloca que achei brilhante foi a seguinta equação: 

Fé + Esperança = Confiança

Houve pontos em que os personagens perderam a esperança, assim como a fé, como quando o povo de Israel construiu o bezerro de ouro no deserto: decidiram adorar um outro deus que saiu da cabeça deles, um deus que teria as respostas que eles queriam porque sairiam da cabeça deles já que Deus estava em silêncio. Eles perderam a confiança e isso culminou na ruptura do relacionamento com Deus.
Sempre que o povo de Israel perdia essa confiança, fé e esperança, isso era uma receita para o desastre e levava a situações como essa e como as descritas em Oséias, Amós e Jeremias (dentre outros livros, claro): idolatria, prostituição, confiança em si mesmos. 
De uma maneira semelhante, nós podemos cair nisso com muita facilidade. Por mais que quando falamos em idolatria sempre pensamos em deuses e estátuas, qualquer coisa ou pessoa pode facilmente se tornar nosso objeto de adoração e dependência tão facilmente quanto aconteceu com Israel. Dificilmente vamos construir um bezerro de ouro, mas muito facilmente podemos colocar nossa confiança em pessoas, em nós mesmos, no conhecimento, em títulos, em relacionamentos amorosos, no nosso emprego, nos nossos sonhos, na nossa felicidade. 
Por isso esse processo de entrega diária é tão importante, porque é difícil. Não faz parte da nossa natureza humana fazer isso, mas é só assim que compreendemos a nossa humanidade.

Então essa ausência de resposta de Deus passa a ser um exercício tremendo pra ajudar nesse processo de entrega de maneira incrivelmente didática. Da mesma maneira que o melhor jeito pra aprender integrais e derivadas é fazendo infinitos exercícios de integrais e derivadas, cada vez aumentando a dificuldade, a melhor maneira de aprender a confiar é estar numa situação em que você não tem em que confiar, em que suas mãos e sua mente estão vazias de refúgios, ideias, soluções ou respostas. E Deus não as enche de novo com respostas. Você tenta viver assim. Às vezes você erra, às vezes você acerta, como nos exercícios de cálculo, mas sabendo que a resposta é a ausência de resposta, você sempre pode comparar o seu resultado com o que você sabe que é certo. 
E se você errou um dia, sempre tem o outro pra tentar de novo e orar novamente: 

"Aba, em tuas mão entrego o meu corpo, minha mente e meu espírito e todo o dia de hoje - manhã, tarde e noite. A tua vontade para mim, seja ela qual for, é a minha vontade, dependendo de ti e confiando em ti no meio da realidade da minha vida. Ao teu coração entrego o meu coração, frágil, inseguro, incerto. Aba, entrego-me a ti em Jesus, nosso Senhor. Amém."
[Confiança cega, Brennan Manning] 

sábado, 7 de setembro de 2013

Perdendo as "aspas"

Nesse período breve de férias, tenho dedicado uma quantidade de tempo considerável à ponderação. Sobre meu estado de espírito passado e presente, sobre planos para o futuro. Uma dessas coisas sobre as quais tenho pensado são meus estudos.
Não sei como é pra outras pessoas, mas sei que meu curso universitário já foi um grande problema pra mim. Talvez seja assim pra todo mundo, mas uma sensação de incapacidade não-pertencer aquele ambiente, aquele curso, muita frustração, lágrimas e noites de insônia estiveram presentes principalmente nos dois primeiros anos. Já quis desistir, já quis fugir, já quis qualquer coisa menos a engenharia (qualquer coisa mesmo, desde arte e arquitetura até medicina). Mas eis que, dois anos e meio depois, percebi que as disciplinas nas quais estou me matriculando tem agora turmas únicas, não mais turmas de 100 ou 120 alunos. Muitos alunos se perderam no meio do caminho, outros muitos fugiram da engenharia biomédica pra biotecnologia porque a elétrica e eletrônica os assustou. 
Percebi que cheguei à metade do curso um pouco cansada, mas viva e não desisti. Fico feliz que não desisti, consegui fazer muito mais do que sou capaz, consegui ir muito mais longe do que algum dia sequer sonhei em ir. É uma boa sensação. 
Elementarmente, não estou no final do curso, então, em muitos sentidos, a brincadeira acaba de começar. Já passei pelos cálculos e físicas, mas agora vem a eletricidade aplicada e a mecânica geral, e isso assusta, mas vou persistir, mesmo que consiga fazer tudo em dois anos e meio ou leve três, ou mais. 
Mas minha preocupação e minhas dúvidas não se resumem mais a essa ou aquela disciplina. Minha confusão é com onde eu estou no momento e a velocidade com que cheguei aqui. 

Estou agora há mais de dois anos morando sozinha, já "trabalhei", saí do "emprego", já paguei algumas das minhas próprias contas, já consigo fazer decisões sozinha, e não percebi quando tudo isso aconteceu, quando cresci. 
Estou feliz que cheguei à metade do curso, mas isso assusta. A próxima metade vai passar nessa velocidade? Certamente não me sinto remotamente preparada. Meu trabalho e meu emprego vão perder aspas, minhas algumas contas vão virar todas as contas. E eu não sei pra onde ir daqui. Me perguntam o que quero pro futuro, e eu, que já tive planos e sonhos extravagantes, não tenho resposta.
Eu, que já tive listas e listas de objetivos com reconhecimento e premiações, descobertas e ajuda a milhões de pessoas pela pesquisa, ou eu que já pensei em futuro com uma família.. percebi que meus sonhos se perderam dentro da realidade que insistente se apresenta e diz que extravagâncias não são o mais importante. Ter uma família ou não também não é o mais importante. Ter o que eu quero não é o que é mais importante. Ter o que preciso é mais importante. Mas o que eu preciso?

Pensando nisso lembrei que certa vez, conversando com um amigo sobre meu curso universitário, disse que não acreditava que conseguiria sobreviver até o diploma, e ele disse "Se você entra numa maratona pensando nos 42km que vai correr, certamente não vai conseguir correr. Mas se você pensar nos 5 km, e daí nos próximos 5, e nos próximos... logo percebe que já está vendo a linha de chegada."
Acho que aos poucos (bem aos poucos) estou aprendendo a pensar nos 5 km, trabalhar o máximo que posso (como já descrevi, dando o sangue pelo objetivo mais próximo), porque fazer o meu melhor nunca será ruim. Se meu melhor é suficiente é outra história, mas preciso tentar. E fazer meu melhor nos meus próximos 5km e só perceber que... às vezes o caminho é mais importante do que a linha de chegada. E, quando você para pra ver, já passou a linha de chegada e nem percebeu. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A half hearted prayer

I have prayed, dear Father
Over and over it over again
I say this is not mine hereafter
But I falter and wander to sin

I am such a fool
as I try to decide
I think I can rule
My heart soon divides
One part thinks I'm king
The other knows it's you
A heart divided in itself
cannot subside

Take this need for control from me
When mirrors blind me, help me see
That the Is and the mes
Just keep me so deceived

"Thy will be done" is my prayer
But if it's not my will done, "it isn't fair!"
Father, I'm so tired of this mask
So I give you the truth, as you asked

I am such a fool
as I try to decide
I think I can rule
My heart stays divided
One part wants me for king
The other knows it's you
A heart divided in itself
cannot be true

As I pray one more time
For you to take what was never mine
I see it's not the last, I may pray 1,000 times
For you to take the thorn in my flesh
Even if you don't, in you I'll find rest
For I see the love and care in your face
That say it's only enough to have grace

I am such a fool
I cannot decide
I know I can't rule
My heart is all lies
I do not want to be king
For I know the king is you
So I give you my heart
Make it yours and pure

domingo, 1 de setembro de 2013

Parem de piscar as luzes.

Hoje aprendi uma palavra nova. Na verdade, aprendi muito com um mesmo texto, não apenas extendi meu léxico. Estendi minha compreensão. Vou tentar resumir, mas o texto completo é um excelente texto pra ser lido e terá muito mais informação a respeito do tema. 

"Você é muito sentimental." "Relaxa. Relaxa. Você está exagerando." "Você é tão emocional." "Você é louca!"

A maior parte das mulheres já ouviu isso, e estou nesse grupo que já ouviu com certa frequência afirmações desse tipo: meu curso é predominantemente masculino, a maioria dos meus amigos são homens, minha sociedade é predominantemente machista. Acontece, que não deveríamos ouvir essas coisas com frequência. Na verdade, não deveríamos ouvir essas coisas. 

A única maneira que estaríamos "exagerando" ou sendo excessivamente "sentimentais" seria se houvesse um padrão de sentimentos, reações e emoções determinado e nós não nos encaixassemos nesse padrão. Sim, todas as mulheres estão fora desse padrão. Muito plausível. Isso realmente parece um padrão extremamente representativo da maioria das pessoas, considerando que a grande maioria das mulheres não se encaixa nesse padrão. Curioso. 

O tema que estamos tratando e a palavra nova é o gaslaitear, uma versão aportuguesada do termo "gaslight" que descreve esses comportamentos que fazem as pessoas questionarem a própria conduta, caráter e sanidade. O termo vem do filme de mesmo nome com a fantástica Ingrid Bergman, em que o seu marido quer sua fortuna então tenta fazê-la acreditar que está enlouquecendo alterando a iluminação da casa de maneira que fique piscando, e diz a ela que está imaginando coisas. 

Portanto, cada vez que você diz a uma mulher que ela é sentimental, emocional, louca ou está exagerando, você está fazendo ela questionar tudo aquilo que pensa ou diz, faz ela questionar a própria sanidade e faz ela pensar que ela que está errada - mas na verdade os sentimentos dela, as palavras dela, o trabalho dela, tem exatamente o mesmo valor que o seu. Uma boa pergunta a se fazer antes de dizer uma afirmação desse tipo seria: se isso estivesse partindo de um homem, você reagiria da mesma forma?

Eu achei muito interessante o conceito e consigo observá-lo ao meu redor. O meu grande problema foi observá-lo em mim. 

Perdi a conta de quantas vezes já disse "não consigo ter amizade com mulheres" "mulheres são sentimentais demais, eu não sei nem como as pessoas lidam comigo." "Quanto mimimi." 
Eu sei dos fatos biológicos. Eu sei que a occitocina é potencializada pelo estrógeno. Eu sei que fisiologicamente tendemos a ter mais sentimentos, e homens a ter menos. Mas eu luto contra isso todos os dias. Eu luto contra sentimentos. Como renegar parte do que te faz você pode ser certo? Como tentar adaptar suas reações a um padrão sem emoção como é o padrão masculino quando todo o resto de você aponta para o fato que você vai ter suas emoções potencializadas? 

Nós pedimos desculpas ao chorar, e nós sentimos orgulho em parecer mulheres fortes - porque afinal, isso é o que esperam de nós - nós estamos acostumadas a julgar nossos sentimentos como menos certos do que os deles. 

Um trecho do texto me chamou muito a atenção: 


"E o ato de gaslaitear não afeta só mulheres inseguras. Até mesmo mulheres assertivas e confiantes estão vulneráveis. Por que?
Porque as mulheres suportam o peso da nossa neurose. É muito mais fácil para nós colocar nossos fardos emocionais nos ombros de nossas esposas, amigas, namoradas e empregadas, do que é impô-los nos ombros dos homens.
(...)
Essas mulheres não conseguem expressar com clareza para seus esposos que o que é dito ou feito a elas as machuca. Elas não conseguem dizer a seus chefes que esse comportamento é desrespeitoso e as impede de trabalhar melhor. Elas não conseguem dizer a seus parentes que, quando eles são críticos, estão fazendo mais mal do que bem.
Quando essas mulheres recebem qualquer tipo de reprimenda por suas reações, tendem a deixar passar, pensando, “Esqueça, tá tudo bem.”
Esse “esqueça” não significa apenas deixar um pensamento de lado, é ignorar a si mesma. Me parte o coração."

Eu também faço isso com meus próprios sentimentos porque é mais fácil. É mais fácil culpar a TPM ou os hormônios porque estamos doendo e fomos machucadas do que ter que enfrentar e ouvir todas essas mentiras de que nossos sentimentos não valem nada.

É mais fácil a gente se adaptar ao que o mundo espera de nós - segurança, frieza, racionalidade, força - do que ser frágil. É mais fácil vestir uma armadura de mulher forte do que revelar o simples fato que podemos, sim, ser frágeis. Ou pelo menos parece ser mais fácil. Até perceber que está renegando parte de si. 

Eu reclamo de sentimentos, eu falo que a vida seria mais fácil sem eles - talvez até seria - mas o mais fácil nem sempre é o melhor. Como foi colocado no post anterior, relacionamentos, no meu caso ao menos, e sentimentos são meu calcanhar de aquiles - eu não sei identificá-los. São um emaranhado incrivelmente complexo e intenso dentro de nós que cada um lida de um jeito. 

O meu jeito foi enterrá-los, mas como a Judy me disse no CF, quando enterramos nossos sentimentos, enterramos eles vivos. E quando eles decidem sair, eles não estão nem um pouco felizes. E estão um emaranhado ainda maior, ainda mais intenso, e ainda mais atordoante porque nos recusamos a lidar com eles mais cedo.

Certamente não estou falando que sentimentos sempre tem a última palavra - claro que não. Da mesma maneira que renegar a emoção mata parte de nós, matar a razão também o faria. Precisamos achar um ponto de equilíbrio e coexistência pacífica se é que isso existe.

Também não estou falando que mulheres estão sempre certas, mas não é pelo fato de elas serem mulheres que elas passam a ser menos certas automaticamente - só ressalto que é muito mais comum esse tipo de assédio emocional acontecer com mulheres do que com homens, mas o fato de ser mais comum com um não faz ser impossível com outro. 

Portanto, seja com homens, mulheres ou crianças, cada vez que dizemos que os sentimentos do outro não valem nada, nós fazemos a pessoa jogar aquilo debaixo do tapete, ignorar. Contudo, ignorar certamente não significa que eles deixam de existir. E chega uma hora em que a única saída da pessoa é acreditar tanto que  está louca - como eu tenho tentado fazer tanto - que ela de fato enlouquece para impedir-se de ficar louca, ou surta, e tudo sai de uma maneira descontrolada e horrível, porque simplesmente não dá pra lidar mais. 

O fato, de uma maneira mais simples, é que seja ignorando, enlouquecendo ou surtando, isso não deveria estar acontecendo. E isso certamente não aconteceria se as pessoas simplesmente parassem de piscar as malditas luzes. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Introvert, iNtuitive, Thinking, Judging: Me

Encontrei pela internet um site que mostrou um experimento de dois amigos que decidiram namorar/sair/não-sei-como-traduzir-dating durante 40 dias. Tenho acompanhado os logs e estou achando extremamente interessante ler os pontos de vista diferentes para as mesmas circunstâncias, com problemas e dificuldades diferentes para cada situação. 
Hoje estava lendo o log do dia 21 e achei interessante quando foram abordados temas sobre psicologia, perfis, etc, porque foi mencionado o teste de Jung.
Já tinha ouvido falar a respeito desse teste e tinha curiosidade de fazê-lo, então já que estou de férias e posso fazer bobagens assim, decidi fazer. Não esperava muita coisa, até porque o site que a menina recomendava não tinha uma interface muito legal ou de algo com muito conteúdo, mas o texto sobre a personalidade que descreveria a minha foi extremamente compatível comigo. 
O teste consiste de uma série de perguntas, acho que são cerca de 70. A partir disso você pode ser descrito de 12 possíveis formas considerando: 


Introversão vs. Extroversão
Intuição vs Sensitivo
Pensamento vs Sentimento
Julgamento vs Percepção


Fiz o teste feliz e contente, e ele retornou uma personalidade Introvertida, Intuitiva (surpresa!), Pensativa e que julga (outra surpresa!). Tiveram algumas coisas interessantes no texto que trouxe pra cá, pela simples felicidade de achar incrível algo me descrever tão bem só com uma pilha de perguntas soltas de sim ou não.  Talvez seja por causa da minha personalidade de querer aprender e pensar demais tudo que eu tenha feito, mas de qualquer maneira recomendo.
A minha principal conclusão? Nós INTJs somos pessoas muito, muito mal interpretadas!

Para pessoas de fora, INTJs podem parecer confiantes em si mesmos, mas isso pode ser mal interpretado como arrogância (obrigada por explicar um dos maiores problemas sociais da minha vida). Mas o fato é que isso provém de características e conhecimento que os INTJs constroem e adquirem ao longo de muito tempo - devido ao perfeccionismo deles, qualquer coisa que os interesse eles se esforçam muito, mesmo que não sejam bons naquilo - mas mais do que aquilo que eles sabem, INTJs sabem aquilo que eles não sabem e deixam isso bem claro. Bem, bem claro.

O perfeccionismo pode levar a muita frustração por causa da constante preocupação: "Isso funciona?" de tudo, desde produtos de suas próprias pesquisas e trabalho até normas sociais prevalentes. Isso acaba produzindo uma independência de mente de autoridade, convenções ou sentimento por si só.
Por consequência disso eles são extremamente críticos com si mesmos e com outros, porém devido ao questionamento de normas sociais, mais uma vez podem ser, mais uma vez, mal interpretados. Muitas vezes fingem certo conformismo de maneira a mascarar quão inconvencionais são. Eu sou estranha de verdade. Eu só aprendo a fingir que não. Isso é extremamente frustrante.)
Em termos mais gerais, INTJs tendem a "fazer" aquilo que eles "sabem". Acabam indo melhor em áreas como pesquisa científica e engenharia, mas podem ser encontrados em diversas áreas por se esforçarem em qualquer àrea de interesse.
Relacionamentos pessoais, especialmente amorosos, podem ser o calcanhar de aquiles desse perfil. Lá vamos nós falar de relacionamentos de novo. Por mais que sejam capazes de amar muito outras pessoas (especialmente alguns poucos) e estão dispostos a trabalhar muito e investir muito tempo em relacionamentos, o conhecimento e auto-confiança podem abandoná-los nas áreas de relacionamentos interpessoais. 
Isso acontece porque INTJs tendem a demorar muito pra entender rituais sociais (agora tudo faz sentido...) tais como conversas curtas e sem finalidade e flerte. Também normalmente são pessoas muito privadas, o que dá muito espaço para serem - wait for it - mal compreendidos em relacionamentos. O maior problema, contudo, é que eles realmente querem que as pessoas façam sentido: esperam que as pessoas sejam razoáveis e diretas. Obrigada por explicar isso!
Tem coisas positivas também pra relacionamentos (ufa!), da mesma maneira que eles trabalham pra fazer qualquer outra coisa dar certo, eles trabalham pra relacionamentos darem certo também. Por causa da parte intuitiva, isso pode compensar a ausência do aspecto sentimental - isso ajuda identificando tons de voz, expressões faciais e outras maneiras de expressão verbal. Também tendem a ser estáveis e bons em comunicação. (só se for escrita, meu bem... porque falada...)

Esses foram alguns highlights do texto que achei particularmente interessantes, uma das coisas que mais me deixou feliz foi ver outras pessoas que também apresentam esse perfil. Apareceram nomes como Marie Curie, Stephen Hawking, Jane Austen, Mr. Darcy (personagens fictícios também entraram na lista) e - pasmem - C.S.Lewis. Agora sei explicar pra minha mãe e pra minha irmã porque elas detestam o trabalho do titio Lewis e da Jane Austen e eu gosto tanto! 
No geral, achei extramamente interessante o teste, muita coisa que eu já tinha percebido por pensar demais foi dividido em quatro palavrinhas só. Introversão, Intuição, Pensamento, Julgamento. Mas será que só quatro palavras podem conter toda a complexidade de um ser humano?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Luz envelhecida

As estrelas são luz velha. Gosto muito dessa definição. 

Devido às distâncias incríveis que nos separam das estrelas, a luz emitida por elas demora diversos anos para viajar da estrela de origem até chegar ao nosso planeta, e, por fim, às nossas retinas que percebem o ponto de luz no céu escuro, e de acordo com a intensidade da luz julgamos se são estrelas, planetas, quaisquer corpos celestes. 
Por causa disso, muitas vezes as estrelas que enxergamos hoje não existem mais - elas entraram em colapso e morreram antes que a luz emitida por elas chegasse às nossas retinas. Por consequência, podemos dizer que quando olhamos para o céu à noite, estamos olhando para o passado. 
Acontece que é meio raro olharmos para o céu. Eu acabo olhando com uma frequência maior que a maioria das pessoas, eu sou uma criança quando se trata da natureza. Eu quero ver as estrelas, sentir o vento, estudar os animais, entender o por quê disso ou daquilo. Eu ainda sou fascinada pelas coisas que as pessoas consideram rotineiras. Muitas vezes falo com as pessoas "Você viu a luz hoje?" "O céu está meu tom de azul favorito!", mas dificilmente as pessoas sabem do que estou falando. Só sabem como está o clima quando está quente demais, frio demais, ou chovendo. 
O que dificulta muito a minha fascinação juvenil com estrelas é a quantidade de luzes das cidades. Eu vim de São Paulo, lá, quando você vê uma estrela sequer já é motivo de felicidade. Mudei pro interior, comecei a ver estrelas um pouco mais. Mas teve um dia que eu fiquei sem ar de tanta beleza, que eu fiquei sem reação. 
Estava com meus amigos voltando de Campos do Jordão à noite e estava olhando pela janela tentando ver as estrelas, e comentei que estava lindo o céu. De maneira inesperada meu amigo encostou o carro onde tinha uma espécie de acostamento pra gente sair e ver as estrelas. Nada teria me preparado praquilo que eu ia ver. 
Estávamos no meio do nada, todas as luzes estavam apagadas, mas o céu estava uma mancha branca que me fez entender o por quê do nome "via láctea". Uma mancha branca se estendia no céu; em qualquer direção que eu olhasse, eram estrelas, constelações, galáxias, amontoadas em esplendor e beleza. Eu nõ sabia qual deveria ser a minha reação. Acho que muita gente choraria, ficaria reflexiva, pensando sobre como somos pequenos ante ao universo. Eu ri. Eu ri imaginando que o Deus que fez aquele céu, o Deus que chama aquelas estrelas pra fora todas as noites pelo nome, esse é o mesmo Deus que me fez e que trabalha em mim. Esse é o mesmo Deus ao qual eu oro quando não tenho palavras e é o mesmo Deus com quem reclamo quando as coisas não vão do meu jeito. Esse é o meu Deus. Esse é O Deus. Eu não sou nada ao lado de toda essa glória, mas ele escolheu a minha espécie, homo sapiens, para ser a espécie à imagem e semelhança Dele. 
Acontece, que enquanto eu via toda essa glória, essa beleza, enquanto eu ria e me maravilhava, as estrelas que eu observava não mais existiam. Elas não estavam lá pra me ver aprendendo uma grande lição através da luz. Elas já entraram em colapso. Elas nunca poderiam saber o que elas haviam me ensinado. 

Creio que às vezes Deus apaga as luzes que nos distraem, e é só quando estamos no meio do nada que paramos pra olhar e contemplar as coisas que realmente importam. Pra ver a luz a milhões de anos-luz que mostra Ele. 
Mas mais do que só contemplar estrelas, eu acho que nós também podemos ser como as estrelas. Nós podemos ser meios para mostrar a glória Dele. Por mais que você diga "Mas só somos humanos", as estrelas "só" são uma pilha de reações químicas ocorrendo causando explosões com quantidades exorbitantes de energia. Temos o potencial, basta servirmos como meio. Basta recebermos a faísca inicial. 
Contudo... Isso não significa que vamos saber o impacto que Deus causou através de nós. Talvez só anos e anos mais tarde que aquilo que Deus mostrou através de nós vai afetar outra pessoa, da mesma forma que a luz precisou ao longo de anos aquela distância incrível entre ela e a minha retina. Talvez, mesmo, seja quando a nossa luz está moribunda e cansada de explosões  reações que vamos saber exatamente como Ele nos usou. Na verdade, talvez, como as muitas estrelas que me fizeram sorrir, rir e me maravilhar, nós nunca saibamos exatamente se Ele nos usou. 
Por isso, não importa quanto reconhecimento temos hoje. Contanto que estejamos lá, prontos para todas as reações de combustão necessárias para mostrar toda a grandeza do mesmo Deus que derramou a via láctea sobre nós. 


"Lord of empty space 
You breathe and then create 
Before the earth was made
You are 

The king of every age 
Outside of time and space
The heavens speak Your name 
You are

Lord of brilliant light 
You separate the night
And everything inside 
You are 

The one who calms the seas 
And every part of me
With just a word you speak 
You are

So I give You all of me for all You are
Here I am 
Take me apart 
Well take me apart 

Angels bowing down 
Beneath the rushing sound
A voice that thunders out 
You are 

The one who holds the stars 
And the beating of my heart
Exalted above all You are 
You are"