Normalmente eu não escrevo desbafos longos
e tediosos e compartilho com o mundo porque acho isso uma grande perda de tempo
– a vida não é perfeita, a vida é difícil, e faz parte do processo natural de
amadurecimento aprender que é difícil e precisamos seguir adiante. Mas chego à
conclusão de que às vezes, pra poder seguir adiante, a gente precisa colocar as
coisas pra fora.
Sendo uma pessoa com interesse em múltiplas
áreas, um Bacharelado Interdisciplinar pra chegar até a Engenharia me parecia
uma excelente ideia. Por mais que nunca fosse excelente em exatas, ainda
haveria outras disciplinas que eu gostaria, e foi a essa esperança que me
prendi quando ingressei no Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Que
aprenderia um pouco de tudo, podendo me aprofundar nas coisas que gostava.
Contudo, percebo hoje meu equívoco nessa decisão.
Essa semana estava sentada na biblioteca
com três colegas tentando fazer um relatório – todas cansadas, exaustas, de
olhos vermelhos pela falta de sono (ok, eu estava descansada porque no dia
antes tive um nervo pinçado por tensão e fui forçada a dormir porque sequer a
rotação da minha cabeça provocava uma dor intensa e vista com halo). Estávamos sentadas
quando chegou um email com o calendário estipulado para o próximo ano. Nada
poderia ter preparado a gente pro baque psicológico daquele email.
Um ano atrás, tivemos uma greve de 4 meses
dos professores – greve durante a qual muitos de nós continuamos na
universidade fazendo pesquisa – e precisamos corrigir o calendário esse ano:
porque não fazer 3 semestres em um ano? Elementarmente 2 semanas de férias são
mais que o suficiente entre um semestre e outro. Estamos finalmente perto de
corrigir o calendário e ansiamos com todas as forças pelas primeiras férias de
fato que teremos no mês de fevereiro, quando nos é dito que as aulas serão
suspensas em junho por causa da copa.
Eu pensei que fosse só eu que estivesse me
sentindo no meu limite, mas aquele breve momento percebi que não. Que todas
estávamos no mesmo limite. Cheias de frustração, cansaço. Nosso curso de
engenharia com 4.400 horas (a maioria das universidades tem apenas 3.600
horas), que deveria formar bons profissionais, não vejo formando nada além de
bons estudantes depressivos com corpos e vidas sociais em decadência.
Temos uma gama de disciplinas exorbitante,
porém que todos os professores exigem o máximo. Os professores de cálculo
esperam que saibamos cálculo como matemáticos, os de biologia que saibamos
bioquímica como biólogos, que saibamos química como químicos. Espera, mas a
ideia não era ter um pouco de contato com tudo pra escolher em que aprofundar?
Além disso, temos horas, e horas de aulas
infinitas – horas que sinto sugadas da minha vida e indo pra lugar nenhum
porque a maior parte do tempo não aprendo nada. Duas horas que eu poderia
passar na biblioteca sentada com um livro aprendendo muito, muito mais do que
em uma sala escura com um professor passando slides (que são, grande parte do
tempo, uma cópia do livro) em voz monótona e eu estou distraída e cansada
tentando ficar acordada nas condições deploráveis.
Eu francamente estou cansada, em todos os
sentidos. Estou cansada de um sistema meritocrático que incentiva o trabalho em
grupo em que um aluno suga o outro e os espertos, e não os esforçados se dão
bem. Estou cansada de fazer exercícios e listas por nota (porque não temos
tempo de aprender de fato), de aprender as 'receitas para solucao' em vez de os fatos. De “aprender
pra esquecer” uma semana depois. Estou cansada desse conhecimento volátil que
não passa de decoreba.
Estou cansada de um sistema em que os
professores não entendem que somos seres humanos. É uma coisa exigir dos alunos
pra que possamos crescer e sermos bons profissionais, mas ter cargas de matéria
que nos faz fazer sacrifícios exorbitantes é ridículo.
O que vejo desde que entrei na universidade
é a decadência do meu corpo – antes era mal estar por causa de um RU com comida
de baixa qualidade, e problemas de gastrite por causa do excesso de stress e
cafeína. Depois tudo vai escalando: dor nas articulações, tensões que provocam
enxaquecas e travam o movimento, insônia, a insônia faz tudo piorar porque já
temos poucas horas de sono pra dar conta de tudo. Relacionamentos interpessoais
são sacrificados – tenho colegas que são mães, colegas que são casados, e como
fica a família? Como fica a vida?
Estamos fazendo sacrifícios e mais
sacrifícios, pra quê? Por status? Por um raio de um pedaço de papel com nosso
nome dizendo que por causa daquilo temos valor? Então nosso valor depende de um
diploma? Bem, o status dá dinheiro,
então é por dinheiro? É pra ter, possuir? Então é o que temos que define quem
somos nessa sociedade estupidamente materialista? Ah, não, mas podemos estar
trabalhando, pra ganhar muito dinheiro pra então sermos felizes. Como seremos
felizes? A última coisa que vejo nos corredores é a felicidade. Vejo mais que
tudo depressão. E mesmo se um dia pudermos descansar, não teremos mais famílias
porque as sacrificamos pra estudar, trabalhar, ganhar mais. Não teremos mais saúde
porque desde cedo somos submetidos a tensão, a stress. Porque nós precisamos
conquistar o nosso valor. Porque nós não valeremos nada se não conseguirmos
passar em Cálculo, ou Física 3 ou se não apresentarmos nosso trabalho de
pesquisa em posters coloridos. Nós não
teremos valor sem esbanjar nossas conquistas intelectuais e financeiras. Nós
não temos valor nenhum se não temos, se não conquistamos, porque isso se tornou
o que nós somos.
Estou farta dessa lógica que coloca tudo
acima do valor intrínseco do ser humano. Estou cansada de de novo e de novo ter
que apresentar as mesmas velhas lições de que eu tenho sim valor fora do meu
curso, do meu título e da minha conta bancária – porque na mesma medida que
tento me ensinar isso, o resto do mundo não mede esforços em me dizer que sou
insuficiente, que eu não presto pra nada.
A publicidade inteiras que nos bombardeia,
a mídia nos dizem nada menos que somos insuficientes. Você não vai ser bom se
não tiver esse carro, usar esse perfume que vai te fazer arranjar
alguém, ter, ter, consumir, ser – ou finja ser. Tenha a imagem que o mundo
espera de você, de uma pele perfeita, de um corpo ideal. Você precisa. Precisa.
A única coisa que eu preciso é parar de pensar que eu preciso de qualquer coisa que esse
mundo possa me oferecer. Eu preciso quebrar essa lógica, essa cultura de morte,
infelicidade e insuficiência que mantém as engrenagens dos egos, do consumo e
do excesso funcionando. Se for pra sermos alguma coisa, temos que ser um ponto
fora da curva, fora do que o mundo espera. Eu cansei de tentar me encaixar em
um molde para o qual nunca fui feita.
Eu cansei de tentar ouvir um mundo que
não tem nada de valor pra dizer. O valor que temos está na nossa identidade em
Deus, na nossa identidade como seres humanos, e não na próxima exigência, moda
ou título, nessas porcas e ridículas ilusões que mantém uma sociedade doentia
cada vez mais deturpada e morta por dentro.
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