sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Desabafos e as mentiras nossas de cada dia

Normalmente eu não escrevo desbafos longos e tediosos e compartilho com o mundo porque acho isso uma grande perda de tempo – a vida não é perfeita, a vida é difícil, e faz parte do processo natural de amadurecimento aprender que é difícil e precisamos seguir adiante. Mas chego à conclusão de que às vezes, pra poder seguir adiante, a gente precisa colocar as coisas pra fora.
Sendo uma pessoa com interesse em múltiplas áreas, um Bacharelado Interdisciplinar pra chegar até a Engenharia me parecia uma excelente ideia. Por mais que nunca fosse excelente em exatas, ainda haveria outras disciplinas que eu gostaria, e foi a essa esperança que me prendi quando ingressei no Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Que aprenderia um pouco de tudo, podendo me aprofundar nas coisas que gostava. Contudo, percebo hoje meu equívoco nessa decisão.
Essa semana estava sentada na biblioteca com três colegas tentando fazer um relatório – todas cansadas, exaustas, de olhos vermelhos pela falta de sono (ok, eu estava descansada porque no dia antes tive um nervo pinçado por tensão e fui forçada a dormir porque sequer a rotação da minha cabeça provocava uma dor intensa e vista com halo). Estávamos sentadas quando chegou um email com o calendário estipulado para o próximo ano. Nada poderia ter preparado a gente pro baque psicológico daquele email.
Um ano atrás, tivemos uma greve de 4 meses dos professores – greve durante a qual muitos de nós continuamos na universidade fazendo pesquisa – e precisamos corrigir o calendário esse ano: porque não fazer 3 semestres em um ano? Elementarmente 2 semanas de férias são mais que o suficiente entre um semestre e outro. Estamos finalmente perto de corrigir o calendário e ansiamos com todas as forças pelas primeiras férias de fato que teremos no mês de fevereiro, quando nos é dito que as aulas serão suspensas em junho por causa da copa.
Eu pensei que fosse só eu que estivesse me sentindo no meu limite, mas aquele breve momento percebi que não. Que todas estávamos no mesmo limite. Cheias de frustração, cansaço. Nosso curso de engenharia com 4.400 horas (a maioria das universidades tem apenas 3.600 horas), que deveria formar bons profissionais, não vejo formando nada além de bons estudantes depressivos com corpos e vidas sociais em decadência.
Temos uma gama de disciplinas exorbitante, porém que todos os professores exigem o máximo. Os professores de cálculo esperam que saibamos cálculo como matemáticos, os de biologia que saibamos bioquímica como biólogos, que saibamos química como químicos. Espera, mas a ideia não era ter um pouco de contato com tudo pra escolher em que aprofundar?
Além disso, temos horas, e horas de aulas infinitas – horas que sinto sugadas da minha vida e indo pra lugar nenhum porque a maior parte do tempo não aprendo nada. Duas horas que eu poderia passar na biblioteca sentada com um livro aprendendo muito, muito mais do que em uma sala escura com um professor passando slides (que são, grande parte do tempo, uma cópia do livro) em voz monótona e eu estou distraída e cansada tentando ficar acordada nas condições deploráveis.
Eu francamente estou cansada, em todos os sentidos. Estou cansada de um sistema meritocrático que incentiva o trabalho em grupo em que um aluno suga o outro e os espertos, e não os esforçados se dão bem. Estou cansada de fazer exercícios e listas por nota (porque não temos tempo de aprender de fato), de aprender as 'receitas para solucao' em vez de os fatos. De “aprender pra esquecer” uma semana depois. Estou cansada desse conhecimento volátil que não passa de decoreba.
Estou cansada de um sistema em que os professores não entendem que somos seres humanos. É uma coisa exigir dos alunos pra que possamos crescer e sermos bons profissionais, mas ter cargas de matéria que nos faz fazer sacrifícios exorbitantes é ridículo.
O que vejo desde que entrei na universidade é a decadência do meu corpo – antes era mal estar por causa de um RU com comida de baixa qualidade, e problemas de gastrite por causa do excesso de stress e cafeína. Depois tudo vai escalando: dor nas articulações, tensões que provocam enxaquecas e travam o movimento, insônia, a insônia faz tudo piorar porque já temos poucas horas de sono pra dar conta de tudo. Relacionamentos interpessoais são sacrificados – tenho colegas que são mães, colegas que são casados, e como fica a família? Como fica a vida?
Estamos fazendo sacrifícios e mais sacrifícios, pra quê? Por status? Por um raio de um pedaço de papel com nosso nome dizendo que por causa daquilo temos valor? Então nosso valor depende de um diploma? Bem,  o status dá dinheiro, então é por dinheiro? É pra ter, possuir? Então é o que temos que define quem somos nessa sociedade estupidamente materialista? Ah, não, mas podemos estar trabalhando, pra ganhar muito dinheiro pra então sermos felizes. Como seremos felizes? A última coisa que vejo nos corredores é a felicidade. Vejo mais que tudo depressão. E mesmo se um dia pudermos descansar, não teremos mais famílias porque as sacrificamos pra estudar, trabalhar, ganhar mais. Não teremos mais saúde porque desde cedo somos submetidos a tensão, a stress. Porque nós precisamos conquistar o nosso valor. Porque nós não valeremos nada se não conseguirmos passar em Cálculo, ou Física 3 ou se não apresentarmos nosso trabalho de pesquisa em posters coloridos. Nós não teremos valor sem esbanjar nossas conquistas intelectuais e financeiras. Nós não temos valor nenhum se não temos, se não conquistamos, porque isso se tornou o que nós somos.
Estou farta dessa lógica que coloca tudo acima do valor intrínseco do ser humano. Estou cansada de de novo e de novo ter que apresentar as mesmas velhas lições de que eu tenho sim valor fora do meu curso, do meu título e da minha conta bancária – porque na mesma medida que tento me ensinar isso, o resto do mundo não mede esforços em me dizer que sou insuficiente, que eu não presto pra nada.
A publicidade inteiras que nos bombardeia, a mídia nos dizem nada menos que somos insuficientes. Você não vai ser bom se não tiver esse carro, usar esse perfume que vai te fazer arranjar alguém, ter, ter, consumir, ser – ou finja ser. Tenha a imagem que o mundo espera de você, de uma pele perfeita, de um corpo ideal. Você precisa. Precisa.

A única coisa que eu preciso é parar de pensar que eu preciso de qualquer coisa que esse mundo possa me oferecer. Eu preciso quebrar essa lógica, essa cultura de morte, infelicidade e insuficiência que mantém as engrenagens dos egos, do consumo e do excesso funcionando. Se for pra sermos alguma coisa, temos que ser um ponto fora da curva, fora do que o mundo espera. Eu cansei de tentar me encaixar em um molde para o qual nunca fui feita. 
Eu cansei de tentar ouvir um mundo que não tem nada de valor pra dizer. O valor que temos está na nossa identidade em Deus, na nossa identidade como seres humanos, e não na próxima exigência, moda ou título, nessas porcas e ridículas ilusões que mantém uma sociedade doentia cada vez mais deturpada e morta por dentro. 

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