domingo, 1 de setembro de 2013

Parem de piscar as luzes.

Hoje aprendi uma palavra nova. Na verdade, aprendi muito com um mesmo texto, não apenas extendi meu léxico. Estendi minha compreensão. Vou tentar resumir, mas o texto completo é um excelente texto pra ser lido e terá muito mais informação a respeito do tema. 

"Você é muito sentimental." "Relaxa. Relaxa. Você está exagerando." "Você é tão emocional." "Você é louca!"

A maior parte das mulheres já ouviu isso, e estou nesse grupo que já ouviu com certa frequência afirmações desse tipo: meu curso é predominantemente masculino, a maioria dos meus amigos são homens, minha sociedade é predominantemente machista. Acontece, que não deveríamos ouvir essas coisas com frequência. Na verdade, não deveríamos ouvir essas coisas. 

A única maneira que estaríamos "exagerando" ou sendo excessivamente "sentimentais" seria se houvesse um padrão de sentimentos, reações e emoções determinado e nós não nos encaixassemos nesse padrão. Sim, todas as mulheres estão fora desse padrão. Muito plausível. Isso realmente parece um padrão extremamente representativo da maioria das pessoas, considerando que a grande maioria das mulheres não se encaixa nesse padrão. Curioso. 

O tema que estamos tratando e a palavra nova é o gaslaitear, uma versão aportuguesada do termo "gaslight" que descreve esses comportamentos que fazem as pessoas questionarem a própria conduta, caráter e sanidade. O termo vem do filme de mesmo nome com a fantástica Ingrid Bergman, em que o seu marido quer sua fortuna então tenta fazê-la acreditar que está enlouquecendo alterando a iluminação da casa de maneira que fique piscando, e diz a ela que está imaginando coisas. 

Portanto, cada vez que você diz a uma mulher que ela é sentimental, emocional, louca ou está exagerando, você está fazendo ela questionar tudo aquilo que pensa ou diz, faz ela questionar a própria sanidade e faz ela pensar que ela que está errada - mas na verdade os sentimentos dela, as palavras dela, o trabalho dela, tem exatamente o mesmo valor que o seu. Uma boa pergunta a se fazer antes de dizer uma afirmação desse tipo seria: se isso estivesse partindo de um homem, você reagiria da mesma forma?

Eu achei muito interessante o conceito e consigo observá-lo ao meu redor. O meu grande problema foi observá-lo em mim. 

Perdi a conta de quantas vezes já disse "não consigo ter amizade com mulheres" "mulheres são sentimentais demais, eu não sei nem como as pessoas lidam comigo." "Quanto mimimi." 
Eu sei dos fatos biológicos. Eu sei que a occitocina é potencializada pelo estrógeno. Eu sei que fisiologicamente tendemos a ter mais sentimentos, e homens a ter menos. Mas eu luto contra isso todos os dias. Eu luto contra sentimentos. Como renegar parte do que te faz você pode ser certo? Como tentar adaptar suas reações a um padrão sem emoção como é o padrão masculino quando todo o resto de você aponta para o fato que você vai ter suas emoções potencializadas? 

Nós pedimos desculpas ao chorar, e nós sentimos orgulho em parecer mulheres fortes - porque afinal, isso é o que esperam de nós - nós estamos acostumadas a julgar nossos sentimentos como menos certos do que os deles. 

Um trecho do texto me chamou muito a atenção: 


"E o ato de gaslaitear não afeta só mulheres inseguras. Até mesmo mulheres assertivas e confiantes estão vulneráveis. Por que?
Porque as mulheres suportam o peso da nossa neurose. É muito mais fácil para nós colocar nossos fardos emocionais nos ombros de nossas esposas, amigas, namoradas e empregadas, do que é impô-los nos ombros dos homens.
(...)
Essas mulheres não conseguem expressar com clareza para seus esposos que o que é dito ou feito a elas as machuca. Elas não conseguem dizer a seus chefes que esse comportamento é desrespeitoso e as impede de trabalhar melhor. Elas não conseguem dizer a seus parentes que, quando eles são críticos, estão fazendo mais mal do que bem.
Quando essas mulheres recebem qualquer tipo de reprimenda por suas reações, tendem a deixar passar, pensando, “Esqueça, tá tudo bem.”
Esse “esqueça” não significa apenas deixar um pensamento de lado, é ignorar a si mesma. Me parte o coração."

Eu também faço isso com meus próprios sentimentos porque é mais fácil. É mais fácil culpar a TPM ou os hormônios porque estamos doendo e fomos machucadas do que ter que enfrentar e ouvir todas essas mentiras de que nossos sentimentos não valem nada.

É mais fácil a gente se adaptar ao que o mundo espera de nós - segurança, frieza, racionalidade, força - do que ser frágil. É mais fácil vestir uma armadura de mulher forte do que revelar o simples fato que podemos, sim, ser frágeis. Ou pelo menos parece ser mais fácil. Até perceber que está renegando parte de si. 

Eu reclamo de sentimentos, eu falo que a vida seria mais fácil sem eles - talvez até seria - mas o mais fácil nem sempre é o melhor. Como foi colocado no post anterior, relacionamentos, no meu caso ao menos, e sentimentos são meu calcanhar de aquiles - eu não sei identificá-los. São um emaranhado incrivelmente complexo e intenso dentro de nós que cada um lida de um jeito. 

O meu jeito foi enterrá-los, mas como a Judy me disse no CF, quando enterramos nossos sentimentos, enterramos eles vivos. E quando eles decidem sair, eles não estão nem um pouco felizes. E estão um emaranhado ainda maior, ainda mais intenso, e ainda mais atordoante porque nos recusamos a lidar com eles mais cedo.

Certamente não estou falando que sentimentos sempre tem a última palavra - claro que não. Da mesma maneira que renegar a emoção mata parte de nós, matar a razão também o faria. Precisamos achar um ponto de equilíbrio e coexistência pacífica se é que isso existe.

Também não estou falando que mulheres estão sempre certas, mas não é pelo fato de elas serem mulheres que elas passam a ser menos certas automaticamente - só ressalto que é muito mais comum esse tipo de assédio emocional acontecer com mulheres do que com homens, mas o fato de ser mais comum com um não faz ser impossível com outro. 

Portanto, seja com homens, mulheres ou crianças, cada vez que dizemos que os sentimentos do outro não valem nada, nós fazemos a pessoa jogar aquilo debaixo do tapete, ignorar. Contudo, ignorar certamente não significa que eles deixam de existir. E chega uma hora em que a única saída da pessoa é acreditar tanto que  está louca - como eu tenho tentado fazer tanto - que ela de fato enlouquece para impedir-se de ficar louca, ou surta, e tudo sai de uma maneira descontrolada e horrível, porque simplesmente não dá pra lidar mais. 

O fato, de uma maneira mais simples, é que seja ignorando, enlouquecendo ou surtando, isso não deveria estar acontecendo. E isso certamente não aconteceria se as pessoas simplesmente parassem de piscar as malditas luzes. 

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