"Um monge estava sendo perseguido por um tigre feroz. Correndo o máximo que conseguia, chegou à beira de um precipício. E notou que havia uma corda pendurada que descia pelo despenhadeiro. Então, segurou-se nela e foi descendo pela encosta. Ao olhar para aixo, viu uma enorme rocha pontiaguda a menos de 200m dele. Então o monge olhou para cime, e lá estava o tigre parado bem na beirada. Naquele exato momento, dois camundongos começaram a roer a corda. O que fazer?O monge olhou para a encosta do precipício e viu uns morandos que haviam crescido ali. Esticando o braço, colheu-os e, enquanto os comia, murmurava: "Nossa! São os melhores morangos que já comi na minha vida."
- Confiança cega, Brennan Manning
Essa é uma historinha ilustrativa que Manning coloca no seu livro Confiança cega. A princípio parece estranha a história, fiquei confusa por não ter um final, mas comecei a tentar relacionar isso com o restante do livro e com a confiança.
O monge não estava preocupado, se estivesse preocupado com o passado (tigre) ou com o futuro (pedra), ele poderia facilmente ter perdido a beleza naquele momento, os morangos mais saborosos que já havia comido, teria perdido a oportunidade de experimentar aquilo.
De maneira oposta, tenho a mente bastante obsessiva-compulsiva com algumas coisas. Estou constantemente avaliando: "Isso está funcionando? Aonde isso vai chegar? Se não for chegar a lugar nenhum, é melhor interromper agora mesmo.", mas isso é uma lógica bem humana e bem errada.
Recentemente tenho tentado viver a árdua tarefa de viver um dia de cada vez, fazer as coisas com mais tempo, fazer com antecedência, pra tentar viver cada dia em todo o seu potencial, e tem sido uma excelente experiência. Cada caminhada para universidade, cada coisa que tenho que resolver, vou experimentando uma coisa de cada vez, e lentamente estou descobrindo mais beleza no mundo. O céu cinzento passou a ser feito de prata, o céu azul tem um tom favorito, a chuva faz todas as coisas brilharem, tudo de repente passa a ser mais intrigante quando você não está atrasado, correndo ou estressado. Não que não haja coisas a serem feitas, mas são feitas cada uma em seu tempo, sem intersecções. Hoje mesmo me peguei distraída pelo dia quando escrevia uma mensagem:
"Aqui está o meu tipo de dia preferido: muito vento frio, sol e meu tom favorito de azul no céu... sem contar a primavera se manifestando nas flores e nos lindos cantos de passarinhos cheios de segundas intenções com as passarinhas devido à estação."
Tudo isso me lembrou um trecho de um poema do Tolkien no Senhor dos Anéis:
All that is gold does not glitter,Not all those who wander are lost;The old that is strong does not wither,Deep roots are not reached by the frost.
Ou seja, Tudo o que é ouro não brilha, nem todos os que vagueiam estão perdidos; O velho que é forte não definha, raízes profundas não são atingidas pelo gelo. Alguns motivos pelos quais tenho pensado muito nesses versos: Os morangos não são sempre algo que chamam atenção, que brilham, que nos fazem parar tudo. Nem tudo o que é bom "brilha" como o ouro, porém não deixam de ter valor. Aliás, as coisas mais valiosas acabam sendo surpresas bem agradáveis.
Segundo, vaguear sem saber o destino certo não significa que estamos perdidos, significa que chegar lá não é sempre o mais necessário, mas sim o processo de chegar lá, e é nesses momentos vagueando que encontramos os pedaços de ouro escondidos.
Os últimos dois versos são brilhantes, especialmente o último. Se for esticar muito, posso ligar isso a todas as minhas reflexões recentes: A partir da confiança total em Cristo, temos nossa identidade bem enraizada nele, e portanto nossa fonte de todas as coisas está nele, pois ele é o item primário da vida que, colocado no lugar devido, traz automaticamente as coisas secundárias consigo - se temos as raízes nele, o demais não precisa nos afetar tanto. Mesmo se estamos em períodos de seca, de gelo, de inverno ou de calor, nosso fornecimento de força e felicidade passa sem ser interrompido pois temos as prioridades bem estabelecidas e nossas raízes estão presas a ele.
O que isso tem a ver com morangos? Tudo! É só a partir desse relacionamento bem construído que temos a paz suficiente para levar um dia de cada vez sem morrer de ansiedade querendo ler o final dos capítulos que estamos construindo ainda, só assim confiamos nele pra cuidar das pedras e dos tigres enquanto fazemos nosso melhor no momento, sem perder dádiva alguma vinda de suas mãos amorosas.
Por mais que seja mais fácil viver isso em coisas pequenas e não em decisões que não dependem apenas de escolhas, em guerras internas e dúvida, aos poucos o mundo torna-se cada vez mais belo e assombroso em sentido positivo - e de repente percebo que estava cercada de pés de morangos que não via por causa de tigres e pedras pontiagudas. Alguém mais aceita morangos?
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