terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desconcerto da alma

Brasileiros adoram contar vantagem dizendo que no português temos uma palavra que não é encontrada em nenhuma outra língua: Saudades. É claro que é possível transmitir em outras línguas a ideia, mas as traduções são mais próximas de 'estar sentindo falta de' em oposição a sentir saudades. 
Contudo, não sei se acho essa palavra tão apropriada. Posso estar sendo tendenciosa por preferir o inglês pra me comunicar de maneira mais sincera e 'sentimental' já que meus relacionamentos afetivos com a família sempre foram nessa linguagem, mas acho que o inglês foi muito mais feliz em como explicou o sentimento com 'I miss you'
To miss é ter algo faltando; por exemplo, se tivermos um quebra-cabeças e não houver uma peça diremos que esse quebra cabeça 'has a piece missing'. Por isso acredito que a palavra seja mais adequada para expressar o sentimento quando se está sentindo saudade de alguém ou alguma coisa. 
Dizer que 'estou com saudade' me parece muito estar perdido em pensamento vivendo no passado, relembrando estar fazendo determinada atividade ou com determinada pessoa, porém isso me parece demasiadamente nostálgico e pouco prático - afinal, não passamos horas pensando em todas as pessoas de quem sentimos saudade. Isso acontece brevemente e acaba sendo um sintoma do estar sentindo falta. 
Contudo, quando sentimos falta, existe uma certa inquietude, um desconcerto de nós mesmos. Às vezes você nem sabe bem o que é, mas é constante. É como uma dor de cabeça leve e irritante, ela te deixa de mau humor, irritado e incapaz de fazer as atividades com total eficiência, mas demora algumas horas antes que perceba que está com dor. Sentir falta é assim. Às vezes você percebe as consequências antes da causa. 
Conversando com a minha vó, gosto muito de ouvir as histórias dela sobre a vinda para o Brasil e, principalmente, as histórias do meu avô. Ela era (e ainda é) uma pessoa extremamente apaixonada por ele; em tempos em que é muito difícil encontrar amor de verdade, sei exatamente o que é amor quando ela fala sobre ele e vejo aquilo nos olhos dela. E algo que ela sempre diz é que cada vez que ele saía no cavalo com nada mais que uma escova de dentes, uma troca de roupa e a sua Bíblia debaixo do braço pra pregar, ela sentia um buraco no meio da barriga. Um buraco que só se preenchia quando o avistava de longe se aproximando da casa, semanas ou às vezes meses depois. 
Essa é exatamente a sensação de um quebra-cabeça com uma peça faltando, ou de uma máquina que não consegue funcionar com rendimento total porque uma peça está ausente. Não é uma peça fundamental ainda, mas uma peça que ajuda meuito. Assim, quando criamos laços afetivos com pessoas ou quando temos uma afinidade muito grande por determinada coisa ou atividade, a distância nos dá a sensação de sermos incompletos enquanto separados. 
Certa vez vi uma frase que dizia "Nós somos formas de todas as coisas que amamos", e de fato acredito que todas as coisas e pessoas que amamos nos mudam um pouco, e quando estas se vão, fica um vão reservado para quando aquilo voltar. Às vezes acabamos tentando preencher os vãos com outras coisas, mas as marcas nunca de fato vão embora. A única coisa que acontece é que tiramos aquele vazio de evidência, mas ele nunca deixa de existir. 
Então, esqueçam brasileirismos! Cada vez que digo que 'estou com saudades' de escrever, de ler, de desenhar, mas acima de tudo, de cada pessoa, estou dizendo que estou temporariamente incompleta. Temporariamente incompleta até que os encontre mais uma vez, e finalmente o buraco no meio do meu estômago será preenchido com a vista distante dos amigos de alma, tão longe a maior parte do tempo, mas que mudaram tanto do que sou.

"Um verdadeiro amigo é uma alma em dois corpos"
- Aristóteles

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