"Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"
- A. Campos
Sempre detestei tirar fotos 3x4. Era sempre uma frescura, ter que se arrumar, colocar uma roupa que não ficasse escura demais e nem branca de maneira que parecesse que minha cabeça estava flutuando (ou só aparecessem meus olhos, nariz e boca e tudo se camuflasse em uma grande mancha branca).
Lembro-me de precisar de avisos prévios pra tirar as fotos, e se não os tinha, saíam atrocidades terríveis - os dias de foto eram sempre os dias em que espinhas, manchas na pele, inflamações de todo tipo surgiam. Todos os tipos de identidades que precisava fazer ficava com vergonha e detestava como eu era representada.
Hoje estava correndo atrás de algumas documentações e coisas e descobri de última hora que precisaria tirar uma dessas malditas fotos nada representativas de mim, e queria terminar tudo antes de dar o horário de ter que retornar pra aula na universidade. Sem tempo de frescuras. Consegui tirar a foto, acertar documentos, fazer coisas pra faculdade, pagar contas em tempo recorde, fiquei feliz comigo mesma. Não por tudo o que consegui fazer. Não por finalmente, 3 anos depois estar tirando a habilitação, mas por ter ficado bem na bendita foto. Raios, é só uma foto! Porque isso faria diferença pra mim?
Percebi que isso fala muito de mim e da nossa sociedade como um todo. Comecei a pensar no nosso senso de identidade. De acordo com o estado, somos um nome, uma impressão digital, um número e uma foto 3x4. Já que o nome não escolhemos, nem o número, nem a impressão digital, queremos pelo menos que um pouco da nossa humanidade esteja naquela pequena área de 6 centímetros quadrados. Nossa humanidade foi reduzida a isso. É só nisso que participamos e nos tornamos algo mais que um número de diversos dígitos.
Mas a nossa humanidade não é humana. Ou melhor, não queremos que seja humana, imperfeita: Queremos uma humanidade perfeita, mesmo que isso não represente o que as pessoas vêem todos os dias - um cabelo bagunçado, manchas na pele, olheiras de cansaço. Queremos que aquela humanidade revelada seja superior, porque é só o que temos.
Em muitos sentidos, acredito que isso nos move: queremos uma imagem bela, títulos e conquistas pra mostrar ao mundo que somos humanos, mas também somos perfeitos. Somos semideuses. Somos melhores que os outros, que só são números e uma foto normal.
Uma grande ironia que isso nos mova, que nosso orgulho, nossa vontade de sermos melhores nos mova, porque isso também é o que nos torna terrivelmente infelizes, porque causa separação, buscamos tudo avulso do outro. Não queremos que seja o nome que nossos pais nos deram, ou a genética da nossa ascendência que determinem nossa impressão digital - tentamos fabricar uma imagem toda feita de eu, meu e mim. E, a partir do momento que nos tornamos bons demais, a partir do momento que essa que é a pessoa que vamos colocar naqueles 6 centimetros quadrados, é assim, exatamente, que nos tornamos mais um rosto na multidão. Mais um rosto sozinho, orgulhoso, vazio, e que não deixará memórias. Só deixará um número de identidade e uma miserável foto 3x4 porque na verdade, nunca conheceu sua real identidade.
"Quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade. Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. "
- Ricardo Gondim
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