Quando li o livro Cartas de um diabo ao seu aprendiz pela primeira vez, gostei muito do livro, mas algumas coisas me incomodaram um pouco e precisei passar muito tempo tentando entendê-las. Uma dessas coisas foi o trecho que fala sobre o tempo e a eternidade e o uso que seres humanos fazem das duas coisas, porque sempre fui uma pessoa movida a 'amanhãs' e a expectativas. Hoje não era um bom dia, mas amanhã era. No final de semana eu ia sair, no mês que vem teria acampamento, ano que vem eu ia me formar. Colocava minhas esperanças nos eventos futuros e, grande parte do tempo, acabava frustrada por eles não satisfazerem minhas expectativas.
"Ele portanto, eu acredito, quer que [os humanos] dêem atenção a duas coisas principalmente, à eternidade em si, e ao ponto do tempo que eles chamam de Presente. Pois o presente é aquele ponto em que o tempo tangencia a eternidade. Do presente momento em diante, e dele apenas, humanos tem a experiência análoga à experiência que [Deus] tem da realidade como um todo; só nele liberdade e realidade são oferecidos a eles. Ele preferiria que eles continuamente se preocupassem ou com a eternidade (que significa se preocuparem com Ele) ou com o o Presente - qualquer um dos dois mediando sua união eterna, ou separação eterna, dele mesmo, ou então obedecendo a voz presente da consciência, suportando a cruz do momento, recebendo a graça do momento, dando graças pelo prazer do momento. (...) Em uma palavra, o futuro é, de todas as coisas, a menos parecida com a eternidade. É a parte mais temporal do tempo - pois o passado é congelado e não flui mais, e o Presente é iluminado com raios eternos."
A partir dessa leitura, comecei a perceber quanta infelicidade é gerada por essas eternas expectativas, pois a realidade nunca as satisfaz. Viver no futuro é viver em mentiras e ilusões, pois nunca virá a se realizar. Simon Tugwell coloca as expectativas de felicidade de uma excelente maneira:
"Uma das maneiras mais eficazes de não sermos felizes é insistir em sermos felizes a qualquer custo. A religião da felicidade, lembra-nos o padre Brown, é uma religião cruel, e talvez a melhor maneira de não enlouquecer esteja em não nos importar muito se enlouquecermos."
- Simon Tugwell
Lembro há uns 5 meses quando estava voltando pra casa da minha mãe após o final do semestre, estava em um estado deplorável. Estava extremamente triste, cansada e só queria me enterrar em uma caverna e não sair nunca mais de lá, quando um homem no ônibus me pergunta em inglês onde era pra descer na rodoviária. Expliquei que estava indo pra lá e poderia mostrar o caminho. No final descobri que eram dois amigos chineses que estavam trabalhando em São José dos Campos e iam pra Liberdade em São Paulo. Me ofereci pra ajudar eles a chegar lá, e mesmo com as dificuldades de um inglês com um sotaque chinês fortíssimo, conseguimos nos entender. Eles me perguntaram porque eu estava sendo tão legal com eles. Percebi que era porque eu não tinha nada a perder. Estava me sentindo vazia de esperanças e expectativas, pois as expectativas que tinha haviam sido frustradas. Estava vazia de qualquer coisa. E foi quando estava com as mãos vazias, quando estava só tentando entender o momento presente, que pude estender essa mão vazia em favor de outro.
Eles tiraram fotos comigo e escreveram em uma nota fiscal velha e amassada o email deles e disseram com um sorriso 'In case you in China need help!' Ajudei eles, eles não entenderam porque eu estava ajudando sem pedir nada em troca, e talvez eu mesma também não entendesse.
Mesmo no estado que estava, fiquei feliz. E comecei a entender a que o texto do Lewis se referia..
Esse dia provocou grandes mudanças em mim e comecei a viver de uma outra maneira, aos poucos comecei a habitar o presente mais que o futuro. Comecei a fazer coisas que normalmente não faria e viver cada dia de uma vez - fui pela primeira vez há uma festa junina, experimentei muitas coisas que nunca havia experimentado como churros, maçã do amor e mastiguei a maçã como se fosse a versão materializada do amor romântico, experimentei suco de tamarindo mesmo tendo aspecto mais de suco de terrra do que qualquer fruta, comecei a viajar pelo estado vários finais de semana, tenho tentado ser mais honesta e aberta com as pessoas, abracei minha própria loucura e estranheza sem me preocupar com o que as pessoas pensam de mim, e isso tem se refletido de maneira muito positiva em todos os meus dias, no meu rendimento e no meu humor.
Ontem tive mais uma experiência fantástica. Estava na rodoviária, entretida mandando uma mensagem quando ouço "16h45!" e surpresa perguntei "Mas já? Ainda são 16h30." "Tem bastante vaga nesse, pode ir agora se quiser."
Nos meus quase 3 anos fazendo esse trajeto, isso nunca tinha acontecido. Entrei no ônibus e sentei na única janela vaga. Uma senhora de idade entrou no ônibus e sentou-se do meu lado. Fiquei absorvida com a minha música e com as minhas mensagens via sms, mas senti que deveria conversar com ela. Mas morro de vergonha. Se alguém precisasse conversar o diálogo, teria que ser ela.
Subitamente ela virou e me ofereceu uma balinha. Recusei de início, mas ela insistiu. Foi como se fosse um déjà vu, como se eu soubesse que aquele diálogo ia acontecer. Começamos a conversar, e ela me contou sobre o trabalho dela como assistente social em favelas, em como ela gosta de ajudar pessoas a construirem sonhos, sobre o trabalho dela em desapropriação e ajuda em construir e encontrar casas, sobre as três famílias dela (pai, mãe e irmãos, família que ela construiu com o marido e a igreja), ouvi histórias lindas e aprendi muito. No final, vim embora com o telefone dela e um convite pra que vá na casa dela 'tomar um café e conversar' porque ela sempre está sozinha.
De repente, percebi que quanto menos penso na história que está sendo construída, mas a história se torna fascinante. Não esperar nada do futuro abre infinitas possibilidades de um futuro feliz - porque não espero absolutamente nada! Qualquer coisa que vem é lucro! Seja um e-mail de dois chineses perdidos, seja uma bala ou um convite pra ir tomar um café. Percebi que vivendo no futuro perdemos a beleza e a graça do presente. Finalmente percebi o que o trecho dizia com a seguinte frase:
"Ele não quer que homens dêem ao Futuro os seus corações, que coloquem seus tesouros nele. (...) Seu ideal é o homem que, tendo trabalhado o dia todo pelo bem da prosperidade (se essa for a vocação dele), lave sua mente de todo o assunto, entrega os problemas aos Céus e retorna de uma vez à paciência ou gratidão demandada pelo momento que está se passando nele."
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