domingo, 2 de outubro de 2011

Os pequeninos

Fui à igreja hoje e fui surpreendida por um gesto muitíssimo simples, mas absolutamente grandioso para mim. Uma menina com provavelmente seus 6 ou 7 anos veio, ficou em pé na minha frente, olhou pra mim e me deu um abraço (ou melhor, abrçou minha barriga porque eu estava em pé), eu automaticamente abracei-a como faço com os pequeninos do acampamento.
Quando voltei para a minha cadeira, só falei pra minha mãe: "Que saudade das minhas crianças!"
Acho bastante peculiar minha trajetória até onde estou quanto aos pequenos: quanto há cerca de 4 anos comecei a trabalhar no acampamento do Maurão, eu fazia questão de ressaltar o fato que só gostava de crianças de um jeito, bem passado e com uma porção de batata frita. Mas, para trabalhar com os adolescentes precisaria trabalhar com as crianças. Eu fui. Cética, mas fui.
A primeira vez, elementarmente foi muitíssimo difícil, minha adaptação a elas e elas a mim foi um tanto truncada; me lembro até hoje quando uma menina estava no banho e chamou "Tia!" E eu disse: "Que foi?" a garota apenas respondeu "Não! Eu quero a tia Salsinha!" Foi um golpe brutal para quem mal começara a lidar com crianças.
Com o tempo, comecei a entender a cabecinha adorável delas e elas começaram a entender como eu funciono... e cada vez que preciso chegar tarde na semana de crianças, é um fato absolutamente deplorável de minhas férias.
Em julho deste ano, foi uma dessas vezes que precisei chegar tarde, e devo dizer que foi fantástico ter algumas meninas pedindo pra eu ficar no quarto delas, foi maravilhoso reencontrar os pequeninos, mas uma experiência em particular me deixou algum lugar entre estonteada e encantada. Foi ficar no quarto da Larissa, a macarrãozinho.
Quando cheguei, arrumei minha cama e sentei-me nela e só vi esta pequena figura loira descendo da beliche "Eu vou ler o texto com a tia Mel hoje!", aconchegou-se no meu colo e me abraçou pelo pescoço e disse "Que saudades de você tia... Você nunca mais vai lá em casa." "Ah Lari, você sabe como é, a gente começa a crescer, começa a ficar sem tempo... E esse semestre seu irmão até me chamou pro aniversário dele, e eu queria muito ir, mas o meu pé tava bem mal ainda..." "Entendi. Sabe. Quando eu crescer, quero ser que nem você e o meu irmão. Eu quero ser tia também." "Então você já tá começando bem, é só continuar sendo uma acampante exemplar, bem obediente e boazinha... daí quando você crescer, já fica mais fácil!"
Fizemos a leitura do texto, conversamos um pouco, e as meninas novas me bombardearam de perguntas como é de costume: "Tia, quantos anos você tem?" (até me deram 27 anos e pensaram que tinha filhos!) "Tia Mel, o que você tá estudando?" "Tia, você tem namorado?", aquelas coisas de criança.
De alguma forma ou outra, o assunto namoro e amor acabou se prolongando (sendo as meninas meninas, é elementar que esse tipo de assunto surja entre as mais velhas) e a Larissa virou pra mim e disse "Tia, eu nunca sei. Qual a diferença entre paixão e amor?"
Parei por um breve momento, e a inocência me cativou. Fiquei perplexa pensando, todos nós já fomos assim. Coisas que hoje parecem óbvias, nós não compreendíamos (ok, neste contexto talvez não fosse tão óbvio). Ela estava tentando compreender um mundo todo que ainda lhe é estranho.
Lembrei de uma frase da professora Mércia "paixão é estado, amor é essência", mas supus que isto lhe soaria ainda mais confuso. Tentei conversar com ela, explicar "Ahh.. Sei lá, eu acho que paixão é quando você fica quase obcecado por alguém, sabe? Não tem controle sobre si próprio, pensa que a pessoa é perfeita e que nunca vai viver um segundo sem ela, mas isso tudo dura muito pouco tempo, você descobre que suas idéias tavam erradas e você estava mentindo pra si o tempo todo. Já, acho que amor é algo mais racional, sabe, que nem a gente tem com nossos pais ou irmãos... A gente pode até brigar com a pessoa, se chatear com ela, a gente sabe que ela não é perfeita... mas mesmo assim quer estar junto, porque sabe que isso faz você uma pessoa melhor." "Ahhh... Entendi." Uma vez que minha plena consciência não-filosófica retornou a mim, só disse "Bem, a tia Mel não tem namorado nem nada assim pra saber muito dessas coisas, talvez seja melhor perguntar pra outra tia, ela já é até casada, acho que vai saber melhor que eu!".
Ponderei a respeito da tremenda confiança que as crianças têm, elas confiam em você que você vai segurá-las quando elas caírem, elas dizem a verdade sem as bobagens de convenções sociais, são curiosas quanto ao mundo, e inocentes quanto à sua realidade. Se nós todos fossemos mais inocentes e nos aproveitássemos menos das pessoas, fôssemos mais sinceros e menos hipócritas, se soubéssemos viver sem necessariamente compreender tudo nos mínimos detalhes... talvez o mundo não seria um lugar tão hostil.

Enquanto nossa vida nos bombardeia com motivos para não termos esperança na humanidade, são pequenos momentos como esse que me fazem pensar que... talvez a raça humana não esteja de todo perdida.
Talvez está na hora de sabermos que não somos donos da verdade e aprendermos um pouco com os pequeninos.

*  *  *  *  *

"Be careful little feet where you go,
For it's the little feet behind you that are sure to follow"
[Casting Crowns - Slow Fade]

Nenhum comentário:

Postar um comentário