sábado, 8 de outubro de 2011

Extinção

Ontem, o retorno para casa foi cheio de reflexões e epifanias (salvo a parte em que um cara muito estranho sentou ao meu lado no ônibus e, como sempre, enfiei meu nariz em um livro, meu cobertor de segurança). Uma que foi particularmente interessante, foi quando antes de entrar no onibus vi uma mulher carregando um bebê, não devia ter mais que algumas semanas porque era extremamente pequeno.
O bebê estava dormindo, aquele sono gostoso de criança que faz você sentir falta de quando conseguia sonhar sem preocupações, e a insônia ainda não se instalara permanentemente como sua amiga. Ele estava confortavelmente arranjado e despejado no colo da mãe, dormindo profundamente.
Com a idade e a convivência social, perdemos muitas coisas - desde a criatividade, a curiosidade, a crença (acreditamos até nas brincadeiras mais bobas do tipo 'roubei o seu nariz!' quando somos crianças), mas acima de tudo aprendemos a desconfiar. A confiança que depositávamos nos braços de nossos pais, no colo de nossos familiares, na companhia de nossos amigos... se esvairesce, e aprendemos cada vez mais a dependermos de nós mesmos e a não dependermos ou confiarmos nos outros.
Isso se deve principalmente à experimentação - somos pequenos cientistas desde sempre. Nosso organismo está inteiramente programado a evitar as situações que no passado nos causaram dor, tristeza ou qualquer reação ruim; inclusive, é muitíssimo mais fácil nos lembrarmos das coisas ruins do passado porque são fatores alarmantes que devem ser evitados, é a programação de defesa do nosso organismo.
Assim, com o tempo descobrimos que nossos amiguinhos podem nos chatear, que nossos pais não mantém todas as promessas que fazem, que muitas vezes nos encontramos sozinhos no mundo. Todas as figuras e adornos platônicos que construímos ao redor das pessoas, com o tempo se dissipam no ar e vemos que as pessoas mentem, são egoístas, traem, e que não são dignas de nossa confiança.
O grande fator complicante disso é que afastamos de nós mesmos as pessoas e então descobrimos que ainda que seja ruim com elas... é pior sem elas.
Certa época estava convencida de que um mundo sem seres humanos seria ideal. A mim, parecia ilógica sequer a existência de um Deus simplesmente porque uma figura de amor e benevolente não poderia criar algo tão terrível quanto a humanidade, seria contraditório. E mesmo, até hoje, as pessoas em quem realmente confio cabem em menos que uma mão - se confio em mais de três pessoas, já é muito e certamente eu mesma não sou uma dessas pessoas. Tenho certeza que isto se deve ao enorme repertório que tenho no que se trata de frustrações e decepções, mas isso nunca deveria se tornar um motivo para viver menos como fiz até agora.
Mas... apesar da vulnerabilidade a que estamos expostos com o convívio social, a reconquista da confiança perdida passa a ter um valor exorbitante; cada vez que encontramos motivos para confiar em alguém, é um evento sobrenatural e extraordinário e deve ser tido como notável.
O difícil é descobrirmos com exatidão quem são aquelas pessoas dignas dessa confiança... porque se falharmos nessa identificação, a dor consequente deste mau julgamento pode superar qualquer dor registrada por nossa memória de sobrevivência.

*  *  *  *  *

"I woke up this morning with a funny taste in my head.

Acordei hoje de manhã com um gosto engraçado na minha cabeça
Spackled some butter over my whole grain bread.
passei um pouco de manteiga no meu pão integral
Something tastes different, maybe it's my tongue.
algo tem um gosto diferente, talvez seja minha língua
Something tastes different, suddenly I'm not so young.
algo tem um gosto diferente, de repente não sou tão nova.


I'm just a stranger, even to myself.
eu sou apenas uma desconhecida, até para mim mesma
A re-arranger of the proverbial bookshelf.
uma re arranjadora das estantes de livros proverbiais
(...)


What have I become?
o que me tornei?
Something soft and really quite dumb.
algo fofo e, na verdade, bastante estúpido
Because I've fallen,
porque eu caí
So far away from the place where I started from."
tão longe do lugar aonde comecei

[Die Alone - Ingrid Michaelson]



Nenhum comentário:

Postar um comentário