sábado, 8 de outubro de 2011

Extinção

Ontem, o retorno para casa foi cheio de reflexões e epifanias (salvo a parte em que um cara muito estranho sentou ao meu lado no ônibus e, como sempre, enfiei meu nariz em um livro, meu cobertor de segurança). Uma que foi particularmente interessante, foi quando antes de entrar no onibus vi uma mulher carregando um bebê, não devia ter mais que algumas semanas porque era extremamente pequeno.
O bebê estava dormindo, aquele sono gostoso de criança que faz você sentir falta de quando conseguia sonhar sem preocupações, e a insônia ainda não se instalara permanentemente como sua amiga. Ele estava confortavelmente arranjado e despejado no colo da mãe, dormindo profundamente.
Com a idade e a convivência social, perdemos muitas coisas - desde a criatividade, a curiosidade, a crença (acreditamos até nas brincadeiras mais bobas do tipo 'roubei o seu nariz!' quando somos crianças), mas acima de tudo aprendemos a desconfiar. A confiança que depositávamos nos braços de nossos pais, no colo de nossos familiares, na companhia de nossos amigos... se esvairesce, e aprendemos cada vez mais a dependermos de nós mesmos e a não dependermos ou confiarmos nos outros.
Isso se deve principalmente à experimentação - somos pequenos cientistas desde sempre. Nosso organismo está inteiramente programado a evitar as situações que no passado nos causaram dor, tristeza ou qualquer reação ruim; inclusive, é muitíssimo mais fácil nos lembrarmos das coisas ruins do passado porque são fatores alarmantes que devem ser evitados, é a programação de defesa do nosso organismo.
Assim, com o tempo descobrimos que nossos amiguinhos podem nos chatear, que nossos pais não mantém todas as promessas que fazem, que muitas vezes nos encontramos sozinhos no mundo. Todas as figuras e adornos platônicos que construímos ao redor das pessoas, com o tempo se dissipam no ar e vemos que as pessoas mentem, são egoístas, traem, e que não são dignas de nossa confiança.
O grande fator complicante disso é que afastamos de nós mesmos as pessoas e então descobrimos que ainda que seja ruim com elas... é pior sem elas.
Certa época estava convencida de que um mundo sem seres humanos seria ideal. A mim, parecia ilógica sequer a existência de um Deus simplesmente porque uma figura de amor e benevolente não poderia criar algo tão terrível quanto a humanidade, seria contraditório. E mesmo, até hoje, as pessoas em quem realmente confio cabem em menos que uma mão - se confio em mais de três pessoas, já é muito e certamente eu mesma não sou uma dessas pessoas. Tenho certeza que isto se deve ao enorme repertório que tenho no que se trata de frustrações e decepções, mas isso nunca deveria se tornar um motivo para viver menos como fiz até agora.
Mas... apesar da vulnerabilidade a que estamos expostos com o convívio social, a reconquista da confiança perdida passa a ter um valor exorbitante; cada vez que encontramos motivos para confiar em alguém, é um evento sobrenatural e extraordinário e deve ser tido como notável.
O difícil é descobrirmos com exatidão quem são aquelas pessoas dignas dessa confiança... porque se falharmos nessa identificação, a dor consequente deste mau julgamento pode superar qualquer dor registrada por nossa memória de sobrevivência.

*  *  *  *  *

"I woke up this morning with a funny taste in my head.

Acordei hoje de manhã com um gosto engraçado na minha cabeça
Spackled some butter over my whole grain bread.
passei um pouco de manteiga no meu pão integral
Something tastes different, maybe it's my tongue.
algo tem um gosto diferente, talvez seja minha língua
Something tastes different, suddenly I'm not so young.
algo tem um gosto diferente, de repente não sou tão nova.


I'm just a stranger, even to myself.
eu sou apenas uma desconhecida, até para mim mesma
A re-arranger of the proverbial bookshelf.
uma re arranjadora das estantes de livros proverbiais
(...)


What have I become?
o que me tornei?
Something soft and really quite dumb.
algo fofo e, na verdade, bastante estúpido
Because I've fallen,
porque eu caí
So far away from the place where I started from."
tão longe do lugar aonde comecei

[Die Alone - Ingrid Michaelson]



quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Cansei.

Bon soir, mon amis... Commet ça va?
É quase meia noite e tenho uma lista interminável de tarefas a realizar, sei que preciso descansar porque amanhã será um dia extenuante (como todas as outras sextas-feiras), mas estava com vontade de escrever, mesmo que signifique perder algum tempo de sono. Talvez eu me arrependa dessa decisão amanhã quando for fazer a lista de exercícios de física, mas tudo bem.

Bem, esses dias estou em uma pequena crise devido ao enorme número de responsabilidades me cutucando constantemente, e não bastasse as minhas 9 matérias e minha potencial IC, hoje fui convidada para ser representante discente no programa troca de saberes (pelo jeito participar da congregação fez bem à minha imagem!), e bem, sendo as reuniões usualmente uma vez por mês aceitei. Além do mais, é uma forma de comunicar o que se passa para os estudantes (particularmente do BCT, já que nossa representatividade é praticamente nula).
Juntando tudo isso, além das responsabilidades normais de manter uma casa, me alimentar, manter minhas roupas em ordem a bagunça aqui em casa já deixa claro que ela deixou de ser uma prioridade nos últimos dias..., é muita coisa pra uma cabeça só e é fácil se perder nisso tudo.
Os cuidados de cada dia crescem arbitrariamente e o tempo escorrega rapidamente por entre os meus dedos, que nem quando somos criança e pegamos um punhado de areia - e até chegar ao nosso destino, temos apenas alguns grãos grudados entre os dedos. Nos resta pouco.
Porém minhas prioridades têm mudado um pouco em relação ao semestre passado.
Semestre passado me dediquei quase que exclusivamente à faculdade, e devo dizer que foi praticamente um semestre perdido da minha vida - não me lembro de 1/3 do que estudei tanto, perdi contato com muitas pessoas e não fiz absolutamente nada de útil.
Tenho tentado encontrar um equilíbrio entre vivência e obrigações. Como diz um dos meus textos bíblicos favoritos: De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder minha própria alma?
E daí se eu estudar um monte, tirar 10 em tudo, me formar primeira da turma... e só? As conquistas acadêmicas... não são tudo. ao contrário do que pensei grande parte de minha vida.
Recentemente, mesmo que eu tenha uma prova para estudar... se minha vó está em casa e começamos a ter uma de nossas conversas a respeito da vida, seres humanos, Deus e decisões... eu não corto a conversa para ir estudar. Prefiro ficar até mais tarde estudando, e saber que o tempo que tive com minha vó foi bem aproveitado.
Cansei desse capitalismo de terrível infelicidade, de objetivos irreais e esúpidos. Cansei de ficar correndo atrás do vento.
Os livros estarão sempre nos esperando, o conhecimento constantemente se renovando - mas o valor que encontramos nas pessoas é infinitamente maior que isso, e definitivamente é um valor incomparável e insubstituível. É elementar que quero fazer o meu curso, que quero dar o melhor de mim nele, que quero conquistar certo espaço no âmbito científico ganhar um Nobel, usar minha massa encefálica para alguma coisa além dos cuidados de cada dia. Mas quero fazer de outro jeito... Eu quero também, não .
Tornei-me uma pessoa menos ambiciosa quanto a dinheiro, salário e um emprego com status - quero aquelas coisas simples: casa, família, cachorro, biblioteca, tempo com as pessoas que amo, uma vida razoavelmente confortável sem grandes extravagâncias, a certeza de que usei o tempo da melhor forma possível - e a certeza que dei valor às coisas certas.


*  *  *  *  * 
Furtando do facebook da Sarah...
"As pessoas ligam cada vez mais para o que tem preço e cada vez menos para o que tem valor."
"Don't you worry, there my honey
We may not have any money
But we've got our love to pay the bills."
[Ingrid Michaelson]

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

rest my bones

Caraca, estou com medo. Mais uma vez, alguns eventos descritos em meu conto para o concurso (que por sinal foi entregue hoje!) vieram a tomar parte na realidade. A vida copiou a ficção. Ou fiz a personagem muito parecida comigo - boba ao ponto de ficar trancada no banheiro da unifesp e cansada ao ponto de adormecer assim que chega da faculdade e nem ver a tarde passar.

Foi bastante curioso isso, porque creio que tenha sido a primeira vez em muitas noites que de fato dormi, descansei, sonhei. E nem foi uma noite inteira, foi por algumas míseras horas. Acho que estou agora começando a pagar o preço por cursar 9 matérias.
Estou terrivelmente desanimada com uma das notas que recebi, estou pessimista quanto às que hão de vir, estou bastante desesperançosa pela humanidade com tanto que tenho visto acontecendo dentro da faculdade (tanto no âmbito da politicagem, na qual estou de alguma forma começando a me envolver, como no âmbito social), e o mundo simplesmente me parece um lugar hostil e desanimador.
Talvez seja só a dor de cabeça, ou o cansaço que na última semana me atingiu com uma tremenda e súbita intensidade, só sei que quero achar um lugar para reclinar meus ossos cansados e não me preocupar.

Quem mandou querer fazer tudo de uma vez, meu bem?


*  *  *  *  *
"Slow down, you crazy child
You're so ambitious for a juvenile
But then, if you're so smart,
tell me: why are you still so afraid?
(...)

You've got your passion, you've got your pride
but don't you know that only fools are satisfied?
(...)
When will you realize? Vienna waits for you"
[Billy Joel - Vienna]

Quiçá fosse uma boa idéia ouvir o conselho de Billy Joel... saltar em um avião para Vienna, Paris, Belfast, Dublin, Londres, e sabe-se lá onde mais.
Espero que os próximos posts sejam um pouco melhores que este, sinto muito pelo texto precário, caros leitores!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Não fui eu, foi meu eu-lírico.

Há algo a respeito do leve tilintar da caneta contra o papel, do bater das teclas de uma máquina de escrever, ou até mesmo do bater das teclas de um teclado de computador que os torna incrivelmente confortantes.
Escrever é particularmente confortante porque ele lhe permite viver todos os mundos que você tem em si, todas as possiblidades, todos os sonhos (ou pesadelos). Permite colocar um pouco de si para fora, se deixar passear pelo mendo, se deixar entrar nas mentes alheias e passear entre sinapses.
Li recentemente uma frase brilhante, porém não me recordo o autor: "Para produzir alguma coisa, o artista deve mergulhar seu pincel em sua alma" - ou mergulhar a pena em sua alma. Algo que de alguma forma insiste em escapar de seu controle e sair desvairadamente pelo mundo a fora a expressar-se nas intermináveis e incontíveis folhas de papel.
Talvez seja por tirarmos de nós e colocar no papel ou no computador é que sentimo-nos aliviados, como se aquilo não mais fosse um peso, como se aquilo não fizesse mais parte de nós - podemos ser quem quisermos e dizer o que quisermos, porque as palavras nos deixam essa liberdade. Mas usualmente, nos apegamos àquela imagem que temos de nós mesmos.
Agora, o problema em escrever é que o caminho de nossas cabeças até nossos dedos é demasiado longo, a jornada dos pensamentos e sentimentos às palavras é nebuloso e entrecortado, então algo de nossa alma se dissipa antes de ser inteiramente exteriorizado, às vezes por nós filtrarmos o que escrevemos, às vezes pelas limitações que as palavras nos impõem, mas a realidade é que a linguagem ainda é falha e terrivelmente confusa. Vai ver é por isso que C.S.Lewis diz que as coisas que realmente valem à pena são aquelas que não são ditas.
Bem, independentemente disso, gosto da liberdade ou da falsa impressão desta que as palavras me dão. Uma ótima frase da música Make it Work do Kevin Max é: "If I could make it work in life like it works on paper... Then I would wipe my eyes, I'd dry this ink and trade my pen in on a pair of wings and I would, I would fly".
Mas acho que a vida e a ficção têm mais a ver do que pensamos - é só ver, nunca a literatura foi inteiramente inédita. Sua inspiração sempre foi a realidade. Afinal... na literatura, nada se cria - tudo se transforma. Ela nunca foi criada propriamente, apenas se baseou na vida que já existia.

*  *  *  *  *

Vagando pelo youtube ouvindo Ingrid Michaelson pra variar, me deparei com o videoclipe de uma música, e achei particularmente divertido esse. É o clipe da música "The Way I Am", simples e... bem, agradável de se assistir. A música, nem preciso comentar que me encanta.
Tentei 'embedar' (nossa, aportuguesar termos em inglês é terrível), mas deu erro... então deixarei apenas o link ali em cima. Enjoy!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

somebody to lean on

Hoje no retorno da faculdade, não sei se pelo cansaço, distração ou simplesmente pelo fato que meus pés são bobos, tropecei ao descer da ilha para atravessar a rua. Pensei que fosse conseguir me equilibrar, mas por amor à Fisiologia médica, não soltei o livro (eu sei, estúpida!) e caí; quando vi que não tinha jeito, ou era a cara ou era o livro, meu sistema em pânico soltou o livro e me apoiei em minhas mãos (raladas e doloridas, assim como meus joelhos). Foi tão rápido, estava no piloto automático. Pensei:
"Vix, não posso zuar o pé de novo!" mas quando vi que o pé estava bem, o pensamento mudou para "Os carros vão começar a sair e vão me atropelar, corre Melissa!", uma vez na calçada o pensamento foi "NO! Zuou a capa do livro!" (isso porque o livro nem é meu, é da biblioteca).
Bem, algo que facilitou muitíssimo para que esse processo corresse sem maiores desastres que mãos e joelhos ardendo e uma capa um pouco arrebentada, foi o fato que não estava sozinha - se estivesse sozinha teria tentado levantar, pegar o livro e sair correndo (não necessariamente nessa ordem), teria me atrapalhado, o resultado poderia ter sido pior que apenas um #epicfall. Alguém estava pensando logica e racionalmente, não instintivamente como meu sistema nervoso central (que deixou de funcionar por alguns isntantes) para me dizer: Calma, vamos pro outro lado.
Fiquei pensando no aspecto metafórico da coisa, o quanto é importante ter outras pessoas conosco nas situações de crise, que mesmo que não sintam sua dor, compreendam o contexto o suficiente para te estender a mão e dizer "Você não está sozinho".
Como diz o Maurão, é nos tempos de crise em que conhecemos nossos verdadeiros amigos, ele mesmo sentiu isso e creio que ainda sente.
Meu tio também sempre me diz algo a respeito de amizade: "Amigo é aquele que, se necessário, ele senta com você e come um saco de sal contigo." E acho que é verdade.
Tem muita gente que fala "Tenho 10 milhões de amigos no facebook!" "Sou pop, tenho mui-tos amigos!", mas me pergunto quantos desses comeriam sequer duas colheradas de sal contigo sem beber um copo d'água ou dizer que tem outra coisa pra fazer. Vivemos em tempos em que uma conversa a respeito de uma banda ou um filme fundamenta a amizade e um beijo é amor. Acabamos exagerando e imaginando aquilo que nos faz nos sentirmos melhores. Estamos tão superficiais (leia o port anterior!) que o mínimo sinal de compreensão e simpatia é um evento extraordinário.
Acho que é por isso que é tão difícil conhecer os amigos verdadeiros. Os desconhecemos, são demasiadamente raros. Nosso julgamento tornou-se falho e a realidade é subjugada por nossas expectativas.
Meus amigos verdadeiros constituem um pequeno punhado... mas é um punhado mais valioso que toneladas de ouro ou kgs de diamante. São além das medidas humanas.
E é um punhado que eu me esborracho no chão, mas não largo mão deles por nada - mesmo se for em uma segunda feira à tarde de um dia deplorável em que tudo parece que dá errado. Bem, suponho que pudesse ter sido pior. Poderia estar chovendo e minha calça jeans favorita poderia ter rasgado!

*  *  *  *  *
Dentre tantas músicas no tema de hoje (Bridge over troubled water, Time after time, You've got a friend, You`ve got a friend in me...) Escolhi "Lean on me", uma música que pipocou em minha mentezinha caótica e nem sei de onde tirei!

Sometimes in our lives
às vezes nas nossas vidas
we all have pain
nós todos temos dor
we all have sorrow
nós todos temos amargura
but if we are wise
mas se nós somos sábios
we know that there's always tomorrow
nós sabemos que há sempre um amanhã

Lean on me
recline-se em mim
when you're not strong
quando você não for forte
and i'll be your friend
e eu serei seu amigo
i'll help you carry on
eu te ajudarei a seguir em frente
for it won't be long
porque não demorará muito
till i'm gonna need
até que eu precise
somebody to lean on
de alguém para reclinar-me

Please
por favor
swallow your pride
engula seu orgulho
if i have pain
se eu tiver dor
you need to borrow
que você precisar emprestada
for no one can heal
pois ninguém se cura
those of your needs
daquelas necessidades
that you wont let show
que você não mostra

ya just call on me brother
você só me chame, irmão
if you need a hand
se você precisar de uma mão
we all need somebody to lean on
todos nós precisamos de alguém para nos reclinarmos
i just might have a problem that you'll understand
eu talvez tenha um problema que você entenda
we all need somebody to lean on
nós todos precisamos de alguém para nos reclinarmos


[Lean on me - Bill Withers]


domingo, 2 de outubro de 2011

Os pequeninos

Fui à igreja hoje e fui surpreendida por um gesto muitíssimo simples, mas absolutamente grandioso para mim. Uma menina com provavelmente seus 6 ou 7 anos veio, ficou em pé na minha frente, olhou pra mim e me deu um abraço (ou melhor, abrçou minha barriga porque eu estava em pé), eu automaticamente abracei-a como faço com os pequeninos do acampamento.
Quando voltei para a minha cadeira, só falei pra minha mãe: "Que saudade das minhas crianças!"
Acho bastante peculiar minha trajetória até onde estou quanto aos pequenos: quanto há cerca de 4 anos comecei a trabalhar no acampamento do Maurão, eu fazia questão de ressaltar o fato que só gostava de crianças de um jeito, bem passado e com uma porção de batata frita. Mas, para trabalhar com os adolescentes precisaria trabalhar com as crianças. Eu fui. Cética, mas fui.
A primeira vez, elementarmente foi muitíssimo difícil, minha adaptação a elas e elas a mim foi um tanto truncada; me lembro até hoje quando uma menina estava no banho e chamou "Tia!" E eu disse: "Que foi?" a garota apenas respondeu "Não! Eu quero a tia Salsinha!" Foi um golpe brutal para quem mal começara a lidar com crianças.
Com o tempo, comecei a entender a cabecinha adorável delas e elas começaram a entender como eu funciono... e cada vez que preciso chegar tarde na semana de crianças, é um fato absolutamente deplorável de minhas férias.
Em julho deste ano, foi uma dessas vezes que precisei chegar tarde, e devo dizer que foi fantástico ter algumas meninas pedindo pra eu ficar no quarto delas, foi maravilhoso reencontrar os pequeninos, mas uma experiência em particular me deixou algum lugar entre estonteada e encantada. Foi ficar no quarto da Larissa, a macarrãozinho.
Quando cheguei, arrumei minha cama e sentei-me nela e só vi esta pequena figura loira descendo da beliche "Eu vou ler o texto com a tia Mel hoje!", aconchegou-se no meu colo e me abraçou pelo pescoço e disse "Que saudades de você tia... Você nunca mais vai lá em casa." "Ah Lari, você sabe como é, a gente começa a crescer, começa a ficar sem tempo... E esse semestre seu irmão até me chamou pro aniversário dele, e eu queria muito ir, mas o meu pé tava bem mal ainda..." "Entendi. Sabe. Quando eu crescer, quero ser que nem você e o meu irmão. Eu quero ser tia também." "Então você já tá começando bem, é só continuar sendo uma acampante exemplar, bem obediente e boazinha... daí quando você crescer, já fica mais fácil!"
Fizemos a leitura do texto, conversamos um pouco, e as meninas novas me bombardearam de perguntas como é de costume: "Tia, quantos anos você tem?" (até me deram 27 anos e pensaram que tinha filhos!) "Tia Mel, o que você tá estudando?" "Tia, você tem namorado?", aquelas coisas de criança.
De alguma forma ou outra, o assunto namoro e amor acabou se prolongando (sendo as meninas meninas, é elementar que esse tipo de assunto surja entre as mais velhas) e a Larissa virou pra mim e disse "Tia, eu nunca sei. Qual a diferença entre paixão e amor?"
Parei por um breve momento, e a inocência me cativou. Fiquei perplexa pensando, todos nós já fomos assim. Coisas que hoje parecem óbvias, nós não compreendíamos (ok, neste contexto talvez não fosse tão óbvio). Ela estava tentando compreender um mundo todo que ainda lhe é estranho.
Lembrei de uma frase da professora Mércia "paixão é estado, amor é essência", mas supus que isto lhe soaria ainda mais confuso. Tentei conversar com ela, explicar "Ahh.. Sei lá, eu acho que paixão é quando você fica quase obcecado por alguém, sabe? Não tem controle sobre si próprio, pensa que a pessoa é perfeita e que nunca vai viver um segundo sem ela, mas isso tudo dura muito pouco tempo, você descobre que suas idéias tavam erradas e você estava mentindo pra si o tempo todo. Já, acho que amor é algo mais racional, sabe, que nem a gente tem com nossos pais ou irmãos... A gente pode até brigar com a pessoa, se chatear com ela, a gente sabe que ela não é perfeita... mas mesmo assim quer estar junto, porque sabe que isso faz você uma pessoa melhor." "Ahhh... Entendi." Uma vez que minha plena consciência não-filosófica retornou a mim, só disse "Bem, a tia Mel não tem namorado nem nada assim pra saber muito dessas coisas, talvez seja melhor perguntar pra outra tia, ela já é até casada, acho que vai saber melhor que eu!".
Ponderei a respeito da tremenda confiança que as crianças têm, elas confiam em você que você vai segurá-las quando elas caírem, elas dizem a verdade sem as bobagens de convenções sociais, são curiosas quanto ao mundo, e inocentes quanto à sua realidade. Se nós todos fossemos mais inocentes e nos aproveitássemos menos das pessoas, fôssemos mais sinceros e menos hipócritas, se soubéssemos viver sem necessariamente compreender tudo nos mínimos detalhes... talvez o mundo não seria um lugar tão hostil.

Enquanto nossa vida nos bombardeia com motivos para não termos esperança na humanidade, são pequenos momentos como esse que me fazem pensar que... talvez a raça humana não esteja de todo perdida.
Talvez está na hora de sabermos que não somos donos da verdade e aprendermos um pouco com os pequeninos.

*  *  *  *  *

"Be careful little feet where you go,
For it's the little feet behind you that are sure to follow"
[Casting Crowns - Slow Fade]

sábado, 1 de outubro de 2011

Superando a tensão superficial.

Algo que tenho percebido em minhas conversas com muitas pessoas muito diferentes na faculdade é que quaisquer que sejam as opiniões, problemas, alegrias, um mesmo problema que assombra-nos como um todo é a superficialidade; nosso contexto socioeconômico inteiro contribui para isso e está acabando lentamente com cada um, de formas diferentes, é claro.
Há os que se importam menos, há os que se importam mais, mas ao final do dia, aqueles que se adaptam e vivem em função dessa superficialidade não encontram plena satisfação nela, recorrem a formas químicas ou físicas de sesentirem melhor quanto ao contexto em que estão inseridos já que não encontram felicidade deforma emocional, enquanto que os outros que não se adaptam a essas formas se encontram terrivelmente infelizes porque apenas encontram as pessoas supracitadas que desistiram de encontrar profundidade emocional nos relacionamentos.
Vivemos dias em que vivemos apenas em contato com a tensão superficial social, andamos sobre a água sem molhar nossos pés - convivemos com as pessoas sem realmente conhecê-las, quanto mais nos importarmos com elas.
De alguma forma nos convencemos de que quando o outro está sozinho, é porque ele quer estar sozinho; quando o outro sente dor, a dor não é tão ruim assim quanto quando é conosco; quando o outro chora,é por alguma bobagem irrelevante e em alguns minutos passará, diferentemente de nós que temos os 'problemas de verdade'. Nos convencemos de que outro é humano... mas não tanto quanto nós.
É difícil encontrar pessoas que realmente te aceitem assim como está, sem interesses próprios, que queiram conhecer suas qualidades e seus defeitos, e que não tenha por objetivo te mudar ou te convencer de alguma forma a ser mais como elas, viver como elas. Os relacionamentos são grande parte do tempo fúteis e a existência ou não deles é irrelevante para o outro (ou quem sabe para nós mesmos), são de curta duração e grande parte do tempo são irracionais e estúpidos.
Creio que grande parte desse pensamento provenha do nosso contexto econômico, em que se julga e avalia uma pessoa pelos seus pertences, assim como pelo fato que os produtos são sempre melhorados e os antigos, descartáveis. Rapidamente a tecnologia evolui e por mais que a tecnologia antiga funcione, ela fica obsoleta simplesmente porque tem algo de diferente e atraente na nova. Substitui-se sem necessidade, vive-se em função daquilo que há de vir. Da mesma forma substituimos as pessoas porque achamos que a próxima vez será melhor, a próxima pessoa terá menos defeitos, o próximo, o que há de vir, o que nunca encontramos. Tratamos as pessoas como descartáveis e sem importância, mas elas são tão humanas quanto nós.
A grande dificuldade nisso é que tanto econômica como socialmente o que nos move é a plena infelicidade e eterna insatisfação, esperamos tão ansiosamente o próximo lançamento que não vemos que o que temos em nossas mãos pode ser melhor.
Vivemos uma mentira, porque estamos tão constantemente vivendo num futuro hipotético que nos alimenta de ilusões, que não sabemos nos contentar com a realidade, simples, falha e fantástica como seja. Temos que parar de olhar para um horizonte que nunca vamos atingir e começar a ser a diferença que nosso contexto atual precisa.