quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um estudo sobre a feiúra



Recentemente tenho ponderado e refletido um pouco a respeito da beleza, feiúra, deformidade, ou qualquer característica que nos faça julgar mal uma pessoa sem sequer conhecê-la.

Na literatura, teatro e cinema não faltam exemplos disso – desde histórias infantis como o patinho feio, até clássicos como A bela e a fera, O corcunda de notre-dame, e O fantasma da opera.

Me atendo aos últimos dois exemplos, acho peculiar como a mocinha normalmente ilude o ‘monstro’, ‘o feio’, ‘o rejeitado da sociedade’ até que surja o herói, bonito, perfeito e amável para resgatá-la. É absolutamente deplorável, tudo o que Quasimodo faz é por Esmeralda, e ela o deixa sozinho. Na história original, é o bonito e admirável capitão que trai ela – ela é enforcada e seu corpo depositado sem cerimônias sob a catedral, e Quasimodo fica ao lado de seu cadaver até que morre de fome; quando, anos depois, tentam separar as ossadas de ambos, as dele se desfazem e tornam-se pó. O belo trai, o feio é fiel. É bastante diferente da versão bonitinha da Disney, assim como é bastante diferente de O fantasma da opera.

O fantasma da opera é diferente em diversos aspectos, primeiro porque o feio é um tanto quanto mais socialmente doente – torna-se um stalker possessivo de Christine, mas ainda assim ela se encanta porque acredita que ele é um anjo da música que seu pai enviou (traumas de infância, o que seria a ficção sem vocês!). Então fica aquela coisa: Roul, um amor real, belo, forte, inteligente, e estável enquanto que com o fantasma é um relacionamento muito mais irracional, carnal, passional.

Quando há aquela cena de ‘Don Juan’ que o fantasma se apresenta com Christine, você começa a achar que ela vai escolher o fantasma… canta tudo passionalmente, mesmo sabendo que seu noivo está assistindo quando BAM! Ela trai o fantasma e remove a mascara diante de toda a opera! Mas tudo bem, ele é o feio, o louco, tudo bem traí-lo… Porque não em primeiro lugar não iludí-lo:: Porque ele não está nos padrões sociais esperados.

Os vilões são raramente belos e inteligentes, são corcundas, velhos, narigudos, magros demais, gordos demais… Mas porque a sociedade cultua tanto o belo e a estética: O atlético e o inteligente: Isso acaba por depositar a maior parcela da população emu ma categoria de ‘não são bons os suficiente’, quando isso na verdade é bastante vazio e sem fundamento.

No livro À Imagem e Semelhança de Deus fruto da colaboração entre Philip Yancey e Dr. Paul Brand, o autor toma bastante tempo para falar a respeito de Imagens, e apesar de muito incômodo o capítulo porque sei que grande parte do tempo eu julgo mal as pessoas e cultuo o belo também, é extremamente válido e está me dando uma nova perspectiva a respeito do tema.

“A auto-imagem humana alimenta-se da atração física, habilidade atlética, ocupação digna. Trabalhei para dar essas dádivas a pilotos feridos na Inglaterra e pacientes leprosos na Índia e agora nos Estados Unidos. Mas, paradoxalmente, qualquer uma dessas qualidades desejáveis pode erquer uma barreira contra a imagem de Deus; pois praticamente qualquer qualidade que possa apoiar uma pessoa torna mais difícil a ela confiar no espírito de Deus. O belo, o forte, o politicamente poderoso e o rico dificilmente representam a imagem de Deus. Em vez disso, o espírito de Deus brilha com mais força por meio da debilidade do fraco, da impotência do pobre, da deformidade do corcunda. Mesmo que os corpos estejam destruídos, a imagem pode crescer mais radiante.

A princípio, achei esse discernimento na natureza do corpo de Cristo desagradável. Talvez porque me tivesse trazido a incômoda consciência de que, no mais das vezes busquei me cercar do bem-sucedido, do inteligente e do belo. Com demasiada freqüência julguei pela imagem das pessoas em vez de julgar pela imagem de Deus. Mas, quando refleti sobre minha vida e sobre as pessoas que melhor representam a imagem de Deus para mim, minha mente fixou-se especialmente em três pessoas. E nenhuma delas alcançara o padrão humano de sucesso.”

Há um versículo que gosto muito na bíblia que diz que Deus só nos dá fardos tão pesados quanto nossos corações podem suportar, portanto quando a vida apresenta-nos problemas ou qualquer tipo de barreira ou dificuldade… é quase como Deus apresentando-nos uma oportunidade para aprendermos o quanto podemos suportar. Ir além do limite que estabalecemos para nós mesmos, um voto de confiança dizendo ‘Yes, you can’.

Então se você não é perfeito, não é o mais bonito, o mais inteligente ou bem sucedido… Não há porque se sentir mal, Deus deu-lhe uma grande oportunidade que você pode usar, ou não. E mesmo se você não quiser usar essa oportunidade, é uma oportunidade para os outros – uma oportunidade pra julgar pela imagem de Deus, e não pela imagem humana.

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