quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Frail

Algo que há muito tem me intrigado e, de certa forma, até assombrado tem sido perceber a estonteante fragilidade humana, e particularmente quão cegos somos a isso.
Se fizermos um zoom out de nossas vidinhas toscas, e olharmos o mundo, a galáxia, o universo, percebemos quão absolutamente somos indispensáveis a este último. Veremos que somos como um grão de areia em uma praia que tende ao infinito.
Ainda assim, temos a terrível tendência de de alguma estranha forma achar que nós somos importantes e inclusive nos enganamos ao pensar que somos mais importantes do que os outros indivíduos, que o restante da natureza, que qualquer coisa - e fazemos atrocidades morais, ecológicas, sociais... e nos convencemos dessa suma importância de tal forma que acreditamos que ela seja normal.
Estamos tão acostumados a nos imaginarmos em um platô de superioridade, que não vemos que nós não somos independentes - pelo contrário, somos extremamente dependentes de um status quo, e uma mínima variação disso pode ocasionar sérias consequências, até mesmo a morte.
Tente ficar sem oxigênio por alguns minutos. Tente ficar sem água por alguns dias. Tente não se alimentar por alguns dias. Tente ficar em uma temperatura acima de 42 graus Celsius. Como disse hoje o professor Flávio, "enquanto nós nos achamos super resistentes, adaptáveis e fantásticos, em 45 graus nossas proteínas e enzimas se desfizeram e você não é nada. Já uma bactéria, você a coloca a 1500 graus e ela dá risada da sua cara!".
Talvez justamente a nossa inteligência tenha que existir para criarmos formas de nos proteger do mundo e tudo o que ele pode implicar, já que alguns metros de altura, um erro de divisão celular ou certo volume de água poderiam ser fatais a nós. Talvez, precisamente por sermos tão vulneráveis que precisamos construir e arquitetar ambientes para que mimiquemos aquilo que a natureza faz por si só em outras espécies.
Além disso temos uma fragilidade diferente da de outras espécies, a emocional - e não se engane pensando que isso não te afeta muito. A emoção e o fisiológico estão fortemente entrelaçados, e um depende do outro para o bem estar geral do indivíduo.
Intrigantemente, essa tal fragilidade emocional também é o que nos retira do contexto e nos torna únicos em meio a esse caos generalizado de átomos, moléculas, impulsos elétricos que constituem o mundo como o conhecemos. A consciência é tão complexa que sabemos tão bem que não a entendemos que a 'ciência' que busca entendê-la já sabe que não a compreende - e a psicologia, então, não é nem uma ciência, uma pseudociência.
Somos vulneráveis, não apenas ao contexto em que estamos, mas também uns aos outros; e essa é a beleza da raramente encontrada confiança (tão rara quanto a honestidade, como dizia Billy Joel...), de dar a alguém o poder de te ferir, mas confiar que ela não o fará. E assim em nossa fragilidade, em nossa pequenez, em nossa insignificância, podemos nos tornar algo além de insignificantes. Podemos deixar de ser algo e nos tornarmos alguém, alguém que faz coisas que parecem insignificantes mas que podem impactar outros 'alguéns'.

É tudo tão complexo, tão intrigante, tão instigante... Que é quase enlouquecedor.

"Como você pode ver com isso tudo, não há sentido em tentar enlouquecer para impedir-se de ficar louco. Você pode muito bem dar-se por vencido e guardar a sanidade para mais tarde."
[Douglas Adams]

*  *  *  *  *


"On and on the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star.
On and on the rain will say
How fragile we are, how fragile we are"
[Sting - Fragile]

Nenhum comentário:

Postar um comentário