domingo, 25 de setembro de 2011

Máscara de vitrais

Eu sei, realmente preciso estudar, minha prova de Cálculo já é terça e meu rendimento em relação ao tempo de estudo está desesperadoramente baixo, mas desde quinta feira um assunto me vem rondando a mente e realmente quero exteriorizá-lo.
Quinta-feira passada, após a aula de laboratório um pequeno grupo de pessoas que já haviam terminado a tarefa se reuniram próximo à minha bancada e começamos a ter uma daquelas conversas bacanas sobre a vida, comportamento, convenções, morelidade, egoísmo vs. altruísmo, hipocrisia coisa e tal, daquelas conversas que a gente se sente em casa e sente que todos os dias deveriam ser assim. (Viu? os cientistas também pensam, ok?)
Um dos muitos assuntos abordados foi a igreja, aquela mesma que nos remete a imagens de longos bancos vazios, vitrais coloridos, sinos e órgãos. Falamos, dentre outras coisas, de sua hipocrisia. Curiosamente, hoje na igreja este assunto foi abordado e de forma incrivelmente próxima à minha opinião. E bem, sendo o Ziel que estava falando, e ainda mais sobre um assunto desses, elementarmente me diverti horrores.
Tratando a igreja, agora, não mais aquelas quatro paredes intimidantes e opressivas mas como o grupo de pessoas com determinadas crenças a respeito de Deus que se reúnem para compartilhar experiências e ajudar umas às outras tanto no âmbito social, econômico, como (principalmente) espiritual, vemos que ela traz consigo uma grande responsabilidade que nem sempre assume - a responsabilidade de mostrar ao mundo o que é o verdadeiro cristianismo.
A igreja é chamada para demonstrar amor, mas como demonstramos esse amor ao pedir para um bêbado ou uma prostituta se retirarem do local por causar 'incômodo' aos que ali estão? Como demonstramos amor ao 'disciplinar' pessoas, removendo-as da comunidade devido a algum erro que, de acordo com alguém, tem um maior 'impacto moral'? Como estamos demonstrando amor se somos os primeiros a ter preconceitos contra homossexuais?
É algo tão estúpido e ilógico como um hospital se recusar a tratar pessoas doentes: "Ah, você está enfermo? Então, você vai, se cura, e depois vem pra cá." "Você tem um problema? Desculpe, mas você pode contaminar ou incomodar os que estão aqui...Mas depois que você estiver bem, a gente te ajuda!"
O cristianismo deveria ser a esperança para qualquer homem, qualquer que seja seu estado ou origem. Sim. Qualquer um. Até aquele político corrupto, marido infiel, seu vizinho chato que ouve música alta, professor de cálculo do mal que se recusou a postergar a prova, aquele coleguinha bocó que se aproveita do seu esforço pra tirar nota. Pois é. Ninguém disse que seria fácil. Ninguém disse que seria natural. Ninguém disse que seria cômodo - e pelo contrário, o cristianismo é bastante incômodo à nossa natureza e instintos, porisso não entendo quando tratam-no como um ópio religioso.
Por experiência própria, uma das coisas mais terríveis nisso tudo, é o receio que surge de declarar a sua fé. Não por Deus, não por Jesus, não pela salvação ou vergonha disso tudo... mas pela imagem que muitas igrejas pintam, pastores maquiados até os dentes fazendo drama, gritando e prometendo o mundo quando só estão no olho do seu dinheiro. A imagem terrível de uma instituição religiosa que ao invés de acolher os cansados e abatidos, os repele. O grupinho moralista e separatista que se recusa a conhecer outras pessoas fora do círculo religioso. Dizer que você é cristão, para muitas pessoas é o mesmo que dizer "Sou um preconceituoso, hipócrita, homofóbico, alienado e separatista metido a sabe-tudo".
A resposta que o Ziel disse quando o perguntaram se era preconceituoso foi uma das melhores que já ouvi:
"Como cristão, não sou obrigado a dizer que as outras religiões estão erradas, pelo contrário, há muitíssimos ensinamentos válidos nessas, mas devo dizer que há algumas diferenças com o cristianismo, e em algumas ouso dizer contradições. Agora, devo dizer que o cristianismo tem algumas coisas diferentes do restante que valem à pena ser investigadas."
Deveríamos ser aqueles que demonstram esperança e amor, não ódio e destruição. Já cansei de ouvir aquela história de 'olê, olê, sou melhor do que você' porque sigo leis que nunca ponderei, porque sou correto, porque eu sou o cara, porque sou cristão. Muitas vezes dá vontade de dizer o que a Eliza doolittle diz na música 'rollerblades': "So take your seat, because you don't stand for what you preach".
O grande lance do cristianismo é a humildade, esse é o grande exemplo de Jesus quando lava os pés dos seus discipulos. O mestre fazendo o trabalho dos servos. Nós estamos aqui no mundo pra amar, pra servir, pra trazer esperança. Não para impor opiniões, não para apontar os erros dos outros, não para nos isolarmos. Não podemos fazer uma diferença no mundo quando muitas vezes nos mostramos piores do que ele.

Acho que está na hora de começarmos a viver mais e falar menos.

*  *  *  *  * 

"Are we happy plastic people
Somos pessoas felizes de plástico
Under shiny plastic steeples
Sob campanários plásticos e brilhantes
With walls around our weakness
Com muralhas ao redor de nossa fraquezas
And smiles to hide our pain
E sorrisos que escondem a dor?
But if the invitation's open
Mas se o convite estiver aberto
To every heart that has been broken
Para todo coração que já foi quebrado
Maybe then we close the curtain
Talvez então fecharemos a curtina
On our stained glass masquerade
Em nossa máscara de vitrais"

[Casting Crowns - Stained glass masquerade]

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