Não sei de vocês, mas quando leio aqueles textos bíblicos que comparam os ímpios e os justos, falam sobre os bem-aventurados, e os escarnecedores, eu tenho a tendência ridícula de querer me colocar na categoria positiva: nós, os bem aventurados; nós, os justos; eles, os escarnecedores; eles, os ímpios; eles, os perdidos.
Mas, como mencionei, é uma tendência absolutamente ridícula.
Creio que não sou a única que faz isso, e se for, estou muito pior do que pensava. O lance é que depois do instinto primário e infantil de fazer isso, a razão começa a falar que não é bem assim. E normalmente tenho que reler duas, três, quatro vezes e me incluir nas categorias 'negativas', pra começar a entender tudo um pouco melhor, porque é onde todos estamos.
"Se é assim, aonde isso nos levará? Será que nós judeus [e leia-se aqui 'nós cristãos', 'nós católicos', 'nós espíritas', 'nós homens', 'nós mulheres', 'nós ricos', 'nós pobres' ou qualquer outra categoria que as pessoas pudessem dizer que é melhor], estamos em situação melhor que os outros? Na verdade, não. Basicamente, todos nós, judeus e não judeus, começamos em condições idênticas. Todos nós começamos como pecadores. As Escrituras não deixam dúvida sobre isso:
Não há ninguém vivendo como deve, nem um sequer;
ninguém entende, ninguém presta atenção em Deus.
Todos eles erraram o caminho;
todos estão vagueando sem rumo.
Ninguém está vivendo da maneira correta,
e não creio que há quem consiga.
A garganta deles é um túmulo aberto
e a língua, escorregadia para enganar.
Cada palavra que pronunciam está impregnada de veneno.
Eles abrem a boca e empesteiam o ar.
São eternos concorrentes ao prêmio 'pecador do ano'
e emporcalham a terra com sofrimento e ruína.
Não fazem a menor ideia do que seja viver em comunidade.
Eles passam por Deus e o ignoram.
Está claro que esse texto não representa o que Deus diz a respeito dos outros, mas o que diz sobre nós, a quem as Escrituras foram primeiramente endereçadas! Está claro também que somos todos pecadores, cada um de nós. Estamos no mesmo barco furado, com todos os outros! Nosso envolvimento com a revelação de Deus não nos deixa de bem com ele. Isso só faz realçar nossa cumplicidade com o pecado de todos os outros."
Romanos 3:9-20 (MSG)
Quando li isso ontem à noite, foi um tapa na cara muito, muito forte mesmo. Tendemos a pensar 'mas eu não mato ninguém, mas eu nunca colei em uma prova, mas eu sempre tentei ser uma boa pessoa' - isso é tão bom quanto estar em um barco furado, sair nadando e deixar pra trás todo mundo que estava contigo. Às vezes era mais razoável você não saber nadar e afundar junto, do que saber nadar, aonde buscar ajuda e ainda assim deixar para trás os outros.
Sabe aquele personagem naqueles filmes de sobrevivência que passa todo mundo pra trás pra se dar bem? Então, aquele vilão horrível que odiamos, grande parte do tempo é a alegoria exata para nos descrever.
Nós somos eternos concorrentes ao prêmio 'pecador do ano' foi algo que pegou muito pesado pra mim, estamos todos sujeitos igualmente a esse título, e de alguma forma, todos somos pecadores do ano. Da década. Do século. Somos todos parte da ralé, dos babacas, dos estúpidos e egoístas.
Gostamos, então, de nos isentar da culpa e dizer: mas Deus me ama e cuida de mim, então não devo ser uma pessoa tããão horrível assim... BÉÉÉ! ERRADO de novo!
Vamos partir então dessa premissa básica: Todos nós erramos, não há um sequer que viva uma vida justa, nascemos pecadores e orgulhosos e bobões, correto? Mas, porém, entretanto, contudo, todavia, ele ainda assim ama a gente. Rapaz, é mega complicado a gente entender isso, mas não é que 'a gente que não é tão ruim assim', é só o amor dele que é fora de qualquer escala, simplesmente imensurável.
Quer um exemplo? A gente acha que amor de mãe e pai é algo extraordinário, porque grande parte do tempo nossos pais (especialmente mães, com instintos maternos e tudo o mais), nos amam mesmo quando os desobedecemos, fazemos coisas erradas que nos mandaram não fazer, mesmo sabendo que o fizemos voluntariamente - e isso é o amor de humanos para conosco, humanos tão ruins quanto nós. Agora imagina um outro conceito de 'amor' vindo de 'alguém' supremo, que manda em tudo o que acontece aqui nas bandas terrenas, que criou a gente. Do nada. Cada molécula dos ossos, cada célula, tecido, sistema.
"Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho, seu único filho, pela seguinte razão: para que ninguém precise ser condenado; para que todos, crendo nele, possam ter vida plena e eterna. Deus não se deu ao trabalho de enviar seu filho apenas para apontar um dedo acusador e dizer à humanidade que ela é má. Ele veio para ajudar, para por o mundo nos eixos outra vez. Quem confiar nele será absolvido, mas quem não confiar terá sobre si, sem o saber, uma sentença de condenação. E por quê? Porque não foi capaz de crer no único Filho de Deus quando este lhe foi apresentado."
João 3:16-18
Agora, a gente pode preferir tentar fazer um nado cachorrinho ridículo e chegarmos algum lugar sozinhos, ou podemos aceitar que ante ao mar que tenta afogar a gente, a gente não é nada.
E isso foi o consolo que recebi depois do tapa na cara: mesmo que o barco esteja afundando, sempre há uma mão estendida pra ajudar!
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