sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Desabafos e as mentiras nossas de cada dia

Normalmente eu não escrevo desbafos longos e tediosos e compartilho com o mundo porque acho isso uma grande perda de tempo – a vida não é perfeita, a vida é difícil, e faz parte do processo natural de amadurecimento aprender que é difícil e precisamos seguir adiante. Mas chego à conclusão de que às vezes, pra poder seguir adiante, a gente precisa colocar as coisas pra fora.
Sendo uma pessoa com interesse em múltiplas áreas, um Bacharelado Interdisciplinar pra chegar até a Engenharia me parecia uma excelente ideia. Por mais que nunca fosse excelente em exatas, ainda haveria outras disciplinas que eu gostaria, e foi a essa esperança que me prendi quando ingressei no Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Que aprenderia um pouco de tudo, podendo me aprofundar nas coisas que gostava. Contudo, percebo hoje meu equívoco nessa decisão.
Essa semana estava sentada na biblioteca com três colegas tentando fazer um relatório – todas cansadas, exaustas, de olhos vermelhos pela falta de sono (ok, eu estava descansada porque no dia antes tive um nervo pinçado por tensão e fui forçada a dormir porque sequer a rotação da minha cabeça provocava uma dor intensa e vista com halo). Estávamos sentadas quando chegou um email com o calendário estipulado para o próximo ano. Nada poderia ter preparado a gente pro baque psicológico daquele email.
Um ano atrás, tivemos uma greve de 4 meses dos professores – greve durante a qual muitos de nós continuamos na universidade fazendo pesquisa – e precisamos corrigir o calendário esse ano: porque não fazer 3 semestres em um ano? Elementarmente 2 semanas de férias são mais que o suficiente entre um semestre e outro. Estamos finalmente perto de corrigir o calendário e ansiamos com todas as forças pelas primeiras férias de fato que teremos no mês de fevereiro, quando nos é dito que as aulas serão suspensas em junho por causa da copa.
Eu pensei que fosse só eu que estivesse me sentindo no meu limite, mas aquele breve momento percebi que não. Que todas estávamos no mesmo limite. Cheias de frustração, cansaço. Nosso curso de engenharia com 4.400 horas (a maioria das universidades tem apenas 3.600 horas), que deveria formar bons profissionais, não vejo formando nada além de bons estudantes depressivos com corpos e vidas sociais em decadência.
Temos uma gama de disciplinas exorbitante, porém que todos os professores exigem o máximo. Os professores de cálculo esperam que saibamos cálculo como matemáticos, os de biologia que saibamos bioquímica como biólogos, que saibamos química como químicos. Espera, mas a ideia não era ter um pouco de contato com tudo pra escolher em que aprofundar?
Além disso, temos horas, e horas de aulas infinitas – horas que sinto sugadas da minha vida e indo pra lugar nenhum porque a maior parte do tempo não aprendo nada. Duas horas que eu poderia passar na biblioteca sentada com um livro aprendendo muito, muito mais do que em uma sala escura com um professor passando slides (que são, grande parte do tempo, uma cópia do livro) em voz monótona e eu estou distraída e cansada tentando ficar acordada nas condições deploráveis.
Eu francamente estou cansada, em todos os sentidos. Estou cansada de um sistema meritocrático que incentiva o trabalho em grupo em que um aluno suga o outro e os espertos, e não os esforçados se dão bem. Estou cansada de fazer exercícios e listas por nota (porque não temos tempo de aprender de fato), de aprender as 'receitas para solucao' em vez de os fatos. De “aprender pra esquecer” uma semana depois. Estou cansada desse conhecimento volátil que não passa de decoreba.
Estou cansada de um sistema em que os professores não entendem que somos seres humanos. É uma coisa exigir dos alunos pra que possamos crescer e sermos bons profissionais, mas ter cargas de matéria que nos faz fazer sacrifícios exorbitantes é ridículo.
O que vejo desde que entrei na universidade é a decadência do meu corpo – antes era mal estar por causa de um RU com comida de baixa qualidade, e problemas de gastrite por causa do excesso de stress e cafeína. Depois tudo vai escalando: dor nas articulações, tensões que provocam enxaquecas e travam o movimento, insônia, a insônia faz tudo piorar porque já temos poucas horas de sono pra dar conta de tudo. Relacionamentos interpessoais são sacrificados – tenho colegas que são mães, colegas que são casados, e como fica a família? Como fica a vida?
Estamos fazendo sacrifícios e mais sacrifícios, pra quê? Por status? Por um raio de um pedaço de papel com nosso nome dizendo que por causa daquilo temos valor? Então nosso valor depende de um diploma? Bem,  o status dá dinheiro, então é por dinheiro? É pra ter, possuir? Então é o que temos que define quem somos nessa sociedade estupidamente materialista? Ah, não, mas podemos estar trabalhando, pra ganhar muito dinheiro pra então sermos felizes. Como seremos felizes? A última coisa que vejo nos corredores é a felicidade. Vejo mais que tudo depressão. E mesmo se um dia pudermos descansar, não teremos mais famílias porque as sacrificamos pra estudar, trabalhar, ganhar mais. Não teremos mais saúde porque desde cedo somos submetidos a tensão, a stress. Porque nós precisamos conquistar o nosso valor. Porque nós não valeremos nada se não conseguirmos passar em Cálculo, ou Física 3 ou se não apresentarmos nosso trabalho de pesquisa em posters coloridos. Nós não teremos valor sem esbanjar nossas conquistas intelectuais e financeiras. Nós não temos valor nenhum se não temos, se não conquistamos, porque isso se tornou o que nós somos.
Estou farta dessa lógica que coloca tudo acima do valor intrínseco do ser humano. Estou cansada de de novo e de novo ter que apresentar as mesmas velhas lições de que eu tenho sim valor fora do meu curso, do meu título e da minha conta bancária – porque na mesma medida que tento me ensinar isso, o resto do mundo não mede esforços em me dizer que sou insuficiente, que eu não presto pra nada.
A publicidade inteiras que nos bombardeia, a mídia nos dizem nada menos que somos insuficientes. Você não vai ser bom se não tiver esse carro, usar esse perfume que vai te fazer arranjar alguém, ter, ter, consumir, ser – ou finja ser. Tenha a imagem que o mundo espera de você, de uma pele perfeita, de um corpo ideal. Você precisa. Precisa.

A única coisa que eu preciso é parar de pensar que eu preciso de qualquer coisa que esse mundo possa me oferecer. Eu preciso quebrar essa lógica, essa cultura de morte, infelicidade e insuficiência que mantém as engrenagens dos egos, do consumo e do excesso funcionando. Se for pra sermos alguma coisa, temos que ser um ponto fora da curva, fora do que o mundo espera. Eu cansei de tentar me encaixar em um molde para o qual nunca fui feita. 
Eu cansei de tentar ouvir um mundo que não tem nada de valor pra dizer. O valor que temos está na nossa identidade em Deus, na nossa identidade como seres humanos, e não na próxima exigência, moda ou título, nessas porcas e ridículas ilusões que mantém uma sociedade doentia cada vez mais deturpada e morta por dentro. 

domingo, 3 de novembro de 2013

Dividir para multiplicar

Não é incomum o mundo e seus fenômenos me deixarem perplexa. Muitas coisas são excessivamente complexas e, grande parte do tempo, maravilhosas demais pra caberem na minha compreensão pequena. Há diversas coisas nessa lista de "maravilhas assombrosas": desde o assombro com a ciência - a grandeza das galáxias e sistemas com estrelas com fusões nucleares produzindo energia, até a complexidade mínima do código genético de termos quem somos criptografado nas mesma moléculas que codificam inúmeras outras formas de vida - até outras maravilhas que vemos expressas através dessas coisas que constróem a ciência. 
Contudo, brinco que estudo ciências exatas e naturais por elas serem infinitamente mais simples do que qualquer fenômeno que envolva o fator humano e psicológico, porque por mais difíceis diversos fenômenos científicos sejam de entender, é uma dificuldade concebível que pode ser prevista com equações, programas, teoremas, observações e fatos; o fator humano, em contrapartida, jamais pode ser previsto. 
Um desses fatores que ainda me deixa incrivelmente perplexa é o apego emocional que construímos com pessoas próximas de nós, a sensação de interdependência que temos com o outro. 
Se formos pensar do ponto de vista 'científico' e puramente prático, os únicos apegos úteis seriam algum tipo de paixão (de maneira a permitir a procriação) e o instinto materno (de maneira a garantir a sobrevivência da prole). Elementarmente outros tipos de apego são úteis por permitirem a vida em comunidade, o que melhoraria as chances de sobrevivência da nossa espécie, mas isso poderia ser feito de maneira puramente utilitária sem grandes apegos emocionais, devido ao desgaste e aumento do risco provocado pelo amor. 
Imagino que a sentença 'risco provocado pelo amor' possa ter causado algumas reações nas suas sinapses, caro leitor. Uma primeira possibilidade seria você dizer que os riscos trazidos pelo amor de fato existem, mas são meramente emocionais, nada que não possa ser ajustado com o tempo - mas o risco a que me refiro é maior que apenas esse. Outra possibilidade é que você não enxergue risco algum no amor. Vejamos se sua opinião prevalece até o final do texto. 
Ouvi uma frase certa vez que dizia: "Amar é dar ao outro o poder de te ferir, mas confiar que não o fará", e acho muito interessante pensar nisso, porque é verdade. O amar te torna muito vulnerável, porque o amor exige confiança, e confiança nos deixa inteiramente suscetíveis a todos os males que o outro pode fazer conosco, mas também aos riscos que nós podemos fazer com nós mesmos devido a esse extraordinário (e, grande parte do tempo, incompreensível) altruísmo. 
Suponhamos uma cena de uma casa sendo consumida em chamas. Uma mãe, que mora na casa, está perto da porta pra sair e ela é apresentada com uma escolha: Sair pela porta em frente a ela ou entrar correndo de volta nas chamas crescentes pra tentar salvar o filho dela. Pelo que observo do amor materno, a grande maioria das mães que conheço nem teriam uma escolha, voltariam correndo pra salvar o filho, ainda que isso coloque em risco - e possivelmente causa a sua morte - dela mesma. 

O medo da morte, nesse caso, acaba desempenhando papel bastante pífio ao lado do papel desempenhado pelo amor. Nesse sentido, acredito que o amor - e não a coragem, como normalmente colocaríamos - é o grande conquistador do medo. A coragem sem motivação válida não passa de estupidez, a coragem com motivos nobres é amor. E, considerando que o medo existe essencialmente para a autopreservação do indivíduo, é um loucura pensarmos em algo que anule a autopreservação de maneira tão enfática, e mais loucura ainda isso ser algo que prezamos tanto. O amor é perigoso. 
Nos deparamos mais uma vez com uma questão que abordei recentemente: a loucura. Observando de fora, o amor é loucura, o amor é perigoso, o amor é motivo de fuga. Mas chegamos a um paradoxo: O amor traz grandes riscos à vida e ao bem estar, mas também é o que faz essa vida valer à pena e causa qualquer rascunho de felicidade e bem estar concebíveis no sentido puramente terreno (e também divino, considerando o amor de Deus por nós). 

A partir do momento que nos deixamos nos apegar ao outro emocionalmente e amar, estamos entregando nossos medos, nossos sonhos, nossas fraquezas ao outro, entregamos-nos em toda a vulnerabilidade possível e dizendo que ele importa mais que tudo isso. É isso que uma mãe e um pai fazem com seus filhos, é isso que uma noiva diz para um noivo quando estão no altar, é isso que diz a compaixão quando sentimos a dor do outro mais que as nossas circunstâncias e mudamos nossa conduta para ajudá-lo. 
Contudo, mais que apenas a dor que pode ser causada pelo outro, existe a dor que será provocada em nós que acontece no outro. Quando amamos, além da nossa própria dor, sentimos também a dor do outro como se fosse em nós - ou mesmo, muitas vezes, pior do que a dor em nós. 
Lembro-me certa vez quando estava com um cisto pressionando o meu nervo na coluna e precisava ser removido, mas devido à infecção e inflamação, a anestesia não surtiu efeito, e foi um procedimento extremamente doloroso. Mas o que mais me assustou foi que, uma vez que estava saindo do consultório médico, o médico pediu pra que eu cuidasse da minha mãe - ela estava assustadoramente pálida e trêmula, quase desmaiando. A dor foi provocada em mim, mas ela sofreu mais que eu emocionalmente. 
Hoje estou descobrindo o que é isso, sentir mais no outro que em si. Diversos amigos e pessoas queridas estão passando por situações muito difíceis e dolorosas, e tudo o que mais queria era poder tirar deles e colocar em mim pra que eles não sofressem mais... pra que não visse seus olhos tristes ou recebesse palavras de tamanha dor e desânimo. Mas não posso. 

E quando paro pra pensar... seria autodestrutivo. Seria ilógico do ponto de vista natural e exato. Mas ainda o faria sem pensar duas vezes se estivesse no meu poder. Porque eu iria querer a dor deles pra mim? Isso é porque a dor delesjá é também a minha dor. Quando passei a amá-los, eles passaram a ser uma extensão, um pedaço de mim. Loucura seria não sentir o que eles sentem.
E mesmo que pra muitos o amor ainda seja considerado uma loucura por si só, só posso receber a insanidade de braços abertos sem me importar, sem questionar, sem sequer ponderar - porque de todos os loucos do mundo, que sejam os outros, tão loucos quanto eu, que quero ter comigo. E juntos, ao mesmo tempo que dividimos as tristezas, assim multiplicamos as felicidades. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Freedom of a fearing fool

You ask for no less than everything
But all is just so hard to give
Then will I be left with anything?
Is my life my own to live?
You say, “For love, for me you’ll live
For you I gave everything to forgive.
The only things you’ll ever have
Is the ones you learn to give.”  

I have always been at risk of flight
I still am a cowardly running fool
I knowI should not, but I still do
Hoping maybe I just might
Outrun my tears, not need to fight
I ran from my fears and I still would
'Till I ran from myself and into You

You are love as who lives in You
In love there is no room for fear
But still I’m trembling down here
Does that mean I am not true?
Turn towards me your loving ears
Oh Father, my plea please do hear
Please do, teach me to love too
Father, teach me to love You


So now I know your love, Father
And rely on what it has for us
I am now free from sin’s curse
Still I need you for each step further.
You say I should have confidence
You say that I must trust
For your love’s the strongest armor
It does not bend or break or rust.

What is here?

Essa semana foi particularmente difícil em alguns sentidos, acredito que a maioria destes ligados à minha péssima qualidade de sono. Tenho tido muitos pesadelos, e quando entro nesses períodos de pesadelos sucessivos começo a ir dormir cada vez mais tarde porque não quero vivenciá-los. Espero até estar absolutamente exausta pra finalmente me render aos terrores que a minha mente é capaz de criar. Acabou que minha média de sono da semana foi de 5 horas por noite, não consegui fazer tudo o que precisava fazer, o que fiz não ficou tão bom quanto queria, e acabei a semana um pouco frustrada. 
Na sexta-feira estava fazendo um relatório na unifesp que deu muito trabalho e da biblioteca observava tudo lá fora ao longo do dia, principalmente o clima porque estava bem representativo da semana - estava chovendo, mas vez ou outra saía o sol, fazendo inclusive a chuva ficar bonita.
Terminei o relatório e entreguei, estava voltando pra casa caminhando feliz com o fim da semana chegando, cansada e olhei pro céu procurando alguma coisa. Procurando um arco-íris. Por mais que estivesse naquele momento bastante em paz e contente, ainda gostaria muito de ter aqueles comprimentos de onda passando pelas gotas de chuva... Por um brevíssimo instante pensei ter visto alguma coisa. Mas não era nada. 
Tinha tudo pra ter um arco-íris - sol, chuva, a cor do céu favorável pra ele ser visualizado... Mas não teve. O ângulo de incidência da luz na chuva talvez estivesse errado. Ou a umidade insuficiente. Não sei. 
Continuei caminhando ainda procurando, torcendo contra esperanças... quando um glorioso aroma tomou conta do meu arredor. Desviei os olhos do céu e olhei pro asfalto: Estava coberto de um carpete de flores amarelas que caíram de uma árvore, mas tinha mais flores que já tinha visto no asfalto. A chuva nas flores enfatizou grandemente o seu aroma suave, e caminhei pensativa, contemplando aquela cena e experimentando cada detalhe. 
Fiquei pensando em como eu quase não vi as flores com a minha distração. Fiquei pensando, ainda, em como a minha expectativa de meramente ver o arco-íris, quase poderia ter me roubado a experiência tão mais rica de, além de ver o belo, também sentir seu cheiro, também sentir as flores sob os meus pés cansados. Fiquei pensando em quantas vezes dedicamos tanta atenção aos nossos desejos e expectativas que às vezes perdemos oportunidades únicas que se apresentam de maneira inesperada, porém muito mais adequada. 
Talvez esteja na hora de parar de procurar tanto e tentar perceber: o que tenho aqui diante de mim?


Grace for me - Michael Gungor
"This jar of clay and all its weakness;
Somehow inside dwells Your fullness.
Even though I’m not yet flawless,
You are forming me.

Your grace for me is all I need
All I need is here
Your grace for me
Is all I need
All I need is here

Everything that I desire 
really may not meet my needs. 
Help me to seek first Your kingdom.
You’ll provide for me.

Valleys come and tears aren’t dry yet 
and there are things I don’t yet see.
But I’ll rejoice despite of hardship; 
You’ll watch over me."

domingo, 13 de outubro de 2013

Julgando um livro pela capa

Nunca julgue um livro pela capa. Aprendi bem essa lição esses dias, tanto no sentido figurado de que não se deve julgar uma pessoa por sua aparência ou avaliá-la pelos padrões que nossa sociedade impõe, como no sentido literal em se tratando de livros. O fato curioso? Aprendi as duas coisas com um mesmo livro. Eu o julguei, e julguei mal. Julguei pelo título cliché e pela capa piegas. Mas errei.

Na igreja me recomendaram o livro 'O significado do casamento' (por Timothy e Kathy Keller) há uns 6 meses, e eu não estava nem um pouco em clima de ler essas coisas, mas recomendaram fortemente 'pra casados, pós casados, descasados e pré casados', disseram que mesmo pra solteiros seria um bom livro. Não li.
Acabei dando o livro de presente de dia das mães pra minha mãe porque ela queria ler, mas me mantive firme na convicção de que não o leria tão cedo. Acabou que teve um seminário sobre o livro e muitos dos meus amigos decidiram ir, então fui pra receber eles no seminário.
Até que o que foi falado era interessante mas... ainda assim. Não. Depois de um tempo mais duas pessoas me recomendaram o livro, duas pessoas que estavam em situação amorosa similar à minha - solteiras, jovens, sem perspectivas de relacionamentos.

Decidi acatar a recomendação um dia que vi o livro na sala porque minha mãe tinha interrompido a leitura e deixado por lá. Apesar da persistência necessária pra começar o livro, a leitura fácil e agradável bastaram pra que terminasse rapidamente o livro.
Acabou que o livro não trata só de casamento. Ele fala sobre o casamento na nossa sociedade, das expectativas da nossa sociedade ocidental dos casamentos, como ele se expressou ao longo da história e o que a Bíblia tem a falar a respeito disso.
Contudo, o que eu realmente não esperava era que o casamento é na verdade uma metáfora viva do relacionamento de Cristo com a igreja e reflete também o relacionamento do Ser divino (Pai, Filho e Espírito Santo).
Não consigo tirar trechos isolados do livro porque ele faz uma construção que jamais conseguiria tirar de contexto porque todos os capítulos são extremamente interdependentes, mas posso dizer os efeitos do livro sobre mim. Posso dizer que agora entendo um pouco mais do que significa o Amor.
Não em sentido meramente humano. De maneira incrivelmente inusitada, entendi muito mais do Evangelho através do livro do que do casamento em si. Entendi o amor que Cristo tem por mim, a maneira que ele me vê - não pelo que sou, mas pelo que posso ser. Entendi que tudo o que Ele fez (e faz) por mim é pra me levar ao potencial completo que ele vê em mim.
Eu dificilmente faço isso, mas eu chorei muito de plena felicidade ao entender a dimensão, a extravagância, desse amor. Então, em vez de o livro sobre casamento me fazer querer mais que qualquer coisa casar, o livro me ajudou a entender quão gloriosa também é a situação de estar solteiro e poder ter em Cristo todas as minhas necessidades emocionais satisfeitas, porque além dele ter sido o grande exemplo de amor, esse amor também é direcionado a mim. Que amor há que é maior que dar a vida em favor de outro? E alguém fez isso por mim. Isso é amor além do que qualquer história ou conto de fadas poderia sequer considerar! Ele não escalou a montanha mais alta por amor, mas ele subiu no Calvário. Ele não nadou todos os oceanos por amor, mas ele acalmou a tempestade - e acalma todas as tempestades em mim. Ele não fez promessas vazias. Ele foi a confirmação de uma promessa.
 Eu jamais conseguiria expressar por meio de palavras o quanto aprendi ou o quanto cresci com a leitura desse livro, mas o que posso fazer é deixar um poema citado no livro. Porque às vezes chega um ponto em que a felicidade não pode mais ser expressa por meio de palavras. Talvez eu precisasse ser o escritor ou poeta mais eloquente ou músico mais habilidoso pra conseguir expressar tudo. Só o que posso dizer é: Se puderem, leiam o livro. Não façam como eu. Não julguem-no pela capa.


LOVE (III)
by George Herbert


Love bade me welcome, yet my soul drew back,
        Guilty of dust and sin.
But quick-ey'd Love, observing me grow slack
        From my first entrance in,
Drew nearer to me, sweetly questioning
        If I lack'd anything.

"A guest," I answer'd, "worthy to be here";
        Love said, "You shall be he."
"I, the unkind, the ungrateful? ah my dear,
        I cannot look on thee."
Love took my hand and smiling did reply,
        "Who made the eyes but I?"

"Truth, Lord, but I have marr'd them; let my shame
        Go where it doth deserve."
"And know you not," says Love, "who bore the blame?"
        "My dear, then I will serve."
"You must sit down," says Love, "and taste my meat."
        So I did sit and eat.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desconcerto da alma

Brasileiros adoram contar vantagem dizendo que no português temos uma palavra que não é encontrada em nenhuma outra língua: Saudades. É claro que é possível transmitir em outras línguas a ideia, mas as traduções são mais próximas de 'estar sentindo falta de' em oposição a sentir saudades. 
Contudo, não sei se acho essa palavra tão apropriada. Posso estar sendo tendenciosa por preferir o inglês pra me comunicar de maneira mais sincera e 'sentimental' já que meus relacionamentos afetivos com a família sempre foram nessa linguagem, mas acho que o inglês foi muito mais feliz em como explicou o sentimento com 'I miss you'
To miss é ter algo faltando; por exemplo, se tivermos um quebra-cabeças e não houver uma peça diremos que esse quebra cabeça 'has a piece missing'. Por isso acredito que a palavra seja mais adequada para expressar o sentimento quando se está sentindo saudade de alguém ou alguma coisa. 
Dizer que 'estou com saudade' me parece muito estar perdido em pensamento vivendo no passado, relembrando estar fazendo determinada atividade ou com determinada pessoa, porém isso me parece demasiadamente nostálgico e pouco prático - afinal, não passamos horas pensando em todas as pessoas de quem sentimos saudade. Isso acontece brevemente e acaba sendo um sintoma do estar sentindo falta. 
Contudo, quando sentimos falta, existe uma certa inquietude, um desconcerto de nós mesmos. Às vezes você nem sabe bem o que é, mas é constante. É como uma dor de cabeça leve e irritante, ela te deixa de mau humor, irritado e incapaz de fazer as atividades com total eficiência, mas demora algumas horas antes que perceba que está com dor. Sentir falta é assim. Às vezes você percebe as consequências antes da causa. 
Conversando com a minha vó, gosto muito de ouvir as histórias dela sobre a vinda para o Brasil e, principalmente, as histórias do meu avô. Ela era (e ainda é) uma pessoa extremamente apaixonada por ele; em tempos em que é muito difícil encontrar amor de verdade, sei exatamente o que é amor quando ela fala sobre ele e vejo aquilo nos olhos dela. E algo que ela sempre diz é que cada vez que ele saía no cavalo com nada mais que uma escova de dentes, uma troca de roupa e a sua Bíblia debaixo do braço pra pregar, ela sentia um buraco no meio da barriga. Um buraco que só se preenchia quando o avistava de longe se aproximando da casa, semanas ou às vezes meses depois. 
Essa é exatamente a sensação de um quebra-cabeça com uma peça faltando, ou de uma máquina que não consegue funcionar com rendimento total porque uma peça está ausente. Não é uma peça fundamental ainda, mas uma peça que ajuda meuito. Assim, quando criamos laços afetivos com pessoas ou quando temos uma afinidade muito grande por determinada coisa ou atividade, a distância nos dá a sensação de sermos incompletos enquanto separados. 
Certa vez vi uma frase que dizia "Nós somos formas de todas as coisas que amamos", e de fato acredito que todas as coisas e pessoas que amamos nos mudam um pouco, e quando estas se vão, fica um vão reservado para quando aquilo voltar. Às vezes acabamos tentando preencher os vãos com outras coisas, mas as marcas nunca de fato vão embora. A única coisa que acontece é que tiramos aquele vazio de evidência, mas ele nunca deixa de existir. 
Então, esqueçam brasileirismos! Cada vez que digo que 'estou com saudades' de escrever, de ler, de desenhar, mas acima de tudo, de cada pessoa, estou dizendo que estou temporariamente incompleta. Temporariamente incompleta até que os encontre mais uma vez, e finalmente o buraco no meio do meu estômago será preenchido com a vista distante dos amigos de alma, tão longe a maior parte do tempo, mas que mudaram tanto do que sou.

"Um verdadeiro amigo é uma alma em dois corpos"
- Aristóteles

sábado, 5 de outubro de 2013

Colecionando Histórias

Quando li o livro Cartas de um diabo ao seu aprendiz pela primeira vez, gostei muito do livro, mas algumas coisas me incomodaram um pouco e precisei passar muito tempo tentando entendê-las. Uma dessas coisas foi o trecho que fala sobre o tempo e a eternidade e o uso que seres humanos fazem das duas coisas, porque sempre fui uma pessoa movida a 'amanhãs' e a expectativas. Hoje não era um bom dia, mas amanhã era. No final de semana eu ia sair, no mês que vem teria acampamento, ano que vem eu ia me formar. Colocava minhas esperanças nos eventos futuros e, grande parte do tempo, acabava frustrada por eles não satisfazerem minhas expectativas. 

"Ele portanto, eu acredito, quer que [os humanos] dêem atenção a duas coisas principalmente, à eternidade em si, e ao ponto do tempo que eles chamam de Presente. Pois o presente é aquele ponto em que o tempo tangencia a eternidade. Do presente momento em diante, e dele apenas, humanos tem a experiência análoga à experiência que [Deus] tem da realidade como um todo; só nele liberdade e realidade são oferecidos a eles. Ele preferiria que eles continuamente se preocupassem ou com a eternidade (que significa se preocuparem com Ele) ou com o o Presente - qualquer um dos dois mediando sua união eterna, ou separação eterna, dele mesmo, ou então obedecendo a voz presente da consciência, suportando a cruz do momento, recebendo a graça do momento, dando graças pelo prazer do momento. (...) Em uma palavra, o futuro é, de todas as coisas, a menos parecida com a eternidade. É a parte mais temporal do tempo - pois o passado é congelado e não flui mais, e o Presente é iluminado com raios eternos."

A partir dessa leitura, comecei a perceber quanta infelicidade é gerada por essas eternas expectativas, pois a realidade nunca as satisfaz. Viver no futuro é viver em mentiras e ilusões, pois nunca virá a se realizar. Simon Tugwell coloca as expectativas de felicidade de uma excelente maneira: 

"Uma das maneiras mais eficazes de não sermos felizes é insistir em sermos felizes a qualquer custo. A religião da felicidade, lembra-nos o padre Brown, é uma religião cruel, e talvez a melhor maneira de não enlouquecer esteja em não nos importar muito se enlouquecermos."
- Simon Tugwell
Lembro há uns 5 meses quando estava voltando pra casa da minha mãe após o final do semestre, estava em um estado deplorável. Estava extremamente triste, cansada e só queria me enterrar em uma caverna e não sair nunca mais de lá, quando um homem no ônibus me pergunta em inglês onde era pra descer na rodoviária. Expliquei que estava indo pra lá e poderia mostrar o caminho. No final descobri que eram dois amigos chineses que estavam trabalhando em São José dos Campos e iam pra Liberdade em São Paulo. Me ofereci pra ajudar eles a chegar lá, e mesmo com as dificuldades de um inglês com um sotaque chinês fortíssimo, conseguimos nos entender. Eles me perguntaram porque eu estava sendo tão legal com eles. Percebi que era porque eu não tinha nada a perder. Estava me sentindo vazia de esperanças e expectativas, pois as expectativas que tinha haviam sido frustradas. Estava vazia de qualquer coisa. E foi quando estava com as mãos vazias, quando estava só tentando entender o momento presente, que pude estender essa mão vazia em favor de outro. 
Eles tiraram fotos comigo e escreveram em uma nota fiscal velha e amassada o email deles e disseram com um sorriso 'In case you in China need help!' Ajudei eles, eles não entenderam porque eu estava ajudando sem pedir nada em troca, e talvez eu mesma também não entendesse. 
Mesmo no estado que estava, fiquei feliz. E comecei a entender a que o texto do Lewis se referia.. 

Esse dia provocou grandes mudanças em mim e comecei a viver de uma outra maneira, aos poucos comecei a habitar o presente mais que o futuro. Comecei a fazer coisas que normalmente não faria e viver cada dia de uma vez - fui pela primeira vez há uma festa junina, experimentei muitas coisas que nunca havia experimentado como churros, maçã do amor e mastiguei a maçã como se fosse a versão materializada do amor romântico, experimentei suco de tamarindo mesmo tendo aspecto mais de suco de terrra do que qualquer fruta, comecei a viajar pelo estado vários finais de semana, tenho tentado ser mais honesta e aberta com as pessoas, abracei minha própria loucura e estranheza sem me preocupar com o que as pessoas pensam de mim, e isso tem se refletido de maneira muito positiva em todos os meus dias, no meu rendimento e no meu humor.

Ontem tive mais uma experiência fantástica. Estava na rodoviária, entretida mandando uma mensagem quando ouço "16h45!" e surpresa perguntei "Mas já? Ainda são 16h30." "Tem bastante vaga nesse, pode ir agora se quiser." 
Nos meus quase 3 anos fazendo esse trajeto, isso nunca tinha acontecido. Entrei no ônibus e sentei na única janela vaga. Uma senhora de idade entrou no ônibus e sentou-se do meu lado. Fiquei absorvida com a minha música e com as minhas mensagens via sms, mas senti que deveria conversar com ela. Mas morro de vergonha. Se alguém precisasse conversar o diálogo, teria que ser ela. 
Subitamente ela virou e me ofereceu uma balinha. Recusei de início, mas ela insistiu. Foi como se fosse um déjà vu, como se eu soubesse que aquele diálogo ia acontecer. Começamos a conversar, e ela me contou sobre o trabalho dela como assistente social em favelas, em como ela gosta de ajudar pessoas a construirem sonhos, sobre o trabalho dela em desapropriação e ajuda em construir e encontrar casas, sobre as três famílias dela (pai, mãe e irmãos, família que ela construiu com o marido e a igreja), ouvi histórias lindas e aprendi muito. No final, vim embora com o telefone dela e um convite pra que vá na casa dela 'tomar um café e conversar' porque ela sempre está sozinha. 

De repente, percebi que quanto menos penso na história que está sendo construída, mas a história se torna fascinante. Não esperar nada do futuro abre infinitas possibilidades de um futuro feliz - porque não espero absolutamente nada! Qualquer coisa que vem é lucro! Seja um e-mail de dois chineses perdidos, seja uma bala ou um convite pra ir tomar um café. Percebi que vivendo no futuro perdemos a beleza e a graça do presente. Finalmente percebi o que o trecho dizia com a seguinte frase: 

"Ele não quer que homens dêem ao Futuro os seus corações, que coloquem seus tesouros nele. (...) Seu ideal é o homem que, tendo trabalhado o dia todo pelo bem da prosperidade (se essa for a vocação dele), lave sua mente de todo o assunto, entrega os problemas aos Céus e retorna de uma vez à paciência ou gratidão demandada pelo momento que está se passando nele."