Não é incomum o mundo e seus fenômenos me deixarem perplexa. Muitas coisas são excessivamente complexas e, grande parte do tempo, maravilhosas demais pra caberem na minha compreensão pequena. Há diversas coisas nessa lista de "maravilhas assombrosas": desde o assombro com a ciência - a grandeza das galáxias e sistemas com estrelas com fusões nucleares produzindo energia, até a complexidade mínima do código genético de termos quem somos criptografado nas mesma moléculas que codificam inúmeras outras formas de vida - até outras maravilhas que vemos expressas através dessas coisas que constróem a ciência.
Contudo, brinco que estudo ciências exatas e naturais por elas serem infinitamente mais simples do que qualquer fenômeno que envolva o fator humano e psicológico, porque por mais difíceis diversos fenômenos científicos sejam de entender, é uma dificuldade concebível que pode ser prevista com equações, programas, teoremas, observações e fatos; o fator humano, em contrapartida, jamais pode ser previsto.
Um desses fatores que ainda me deixa incrivelmente perplexa é o apego emocional que construímos com pessoas próximas de nós, a sensação de interdependência que temos com o outro.
Se formos pensar do ponto de vista 'científico' e puramente prático, os únicos apegos úteis seriam algum tipo de paixão (de maneira a permitir a procriação) e o instinto materno (de maneira a garantir a sobrevivência da prole). Elementarmente outros tipos de apego são úteis por permitirem a vida em comunidade, o que melhoraria as chances de sobrevivência da nossa espécie, mas isso poderia ser feito de maneira puramente utilitária sem grandes apegos emocionais, devido ao desgaste e aumento do risco provocado pelo amor.
Imagino que a sentença 'risco provocado pelo amor' possa ter causado algumas reações nas suas sinapses, caro leitor. Uma primeira possibilidade seria você dizer que os riscos trazidos pelo amor de fato existem, mas são meramente emocionais, nada que não possa ser ajustado com o tempo - mas o risco a que me refiro é maior que apenas esse. Outra possibilidade é que você não enxergue risco algum no amor. Vejamos se sua opinião prevalece até o final do texto.
Ouvi uma frase certa vez que dizia: "Amar é dar ao outro o poder de te ferir, mas confiar que não o fará", e acho muito interessante pensar nisso, porque é verdade. O amar te torna muito vulnerável, porque o amor exige confiança, e confiança nos deixa inteiramente suscetíveis a todos os males que o outro pode fazer conosco, mas também aos riscos que nós podemos fazer com nós mesmos devido a esse extraordinário (e, grande parte do tempo, incompreensível) altruísmo.
Suponhamos uma cena de uma casa sendo consumida em chamas. Uma mãe, que mora na casa, está perto da porta pra sair e ela é apresentada com uma escolha: Sair pela porta em frente a ela ou entrar correndo de volta nas chamas crescentes pra tentar salvar o filho dela. Pelo que observo do amor materno, a grande maioria das mães que conheço nem teriam uma escolha, voltariam correndo pra salvar o filho, ainda que isso coloque em risco - e possivelmente causa a sua morte - dela mesma.
O medo da morte, nesse caso, acaba desempenhando papel bastante pífio ao lado do papel desempenhado pelo amor. Nesse sentido, acredito que o amor - e não a coragem, como normalmente colocaríamos - é o grande conquistador do medo. A coragem sem motivação válida não passa de estupidez, a coragem com motivos nobres é amor. E, considerando que o medo existe essencialmente para a autopreservação do indivíduo, é um loucura pensarmos em algo que anule a autopreservação de maneira tão enfática, e mais loucura ainda isso ser algo que prezamos tanto. O amor é perigoso.
Nos deparamos mais uma vez com uma questão que abordei recentemente: a loucura. Observando de fora, o amor é loucura, o amor é perigoso, o amor é motivo de fuga. Mas chegamos a um paradoxo: O amor traz grandes riscos à vida e ao bem estar, mas também é o que faz essa vida valer à pena e causa qualquer rascunho de felicidade e bem estar concebíveis no sentido puramente terreno (e também divino, considerando o amor de Deus por nós).
A partir do momento que nos deixamos nos apegar ao outro emocionalmente e amar, estamos entregando nossos medos, nossos sonhos, nossas fraquezas ao outro, entregamos-nos em toda a vulnerabilidade possível e dizendo que ele importa mais que tudo isso. É isso que uma mãe e um pai fazem com seus filhos, é isso que uma noiva diz para um noivo quando estão no altar, é isso que diz a compaixão quando sentimos a dor do outro mais que as nossas circunstâncias e mudamos nossa conduta para ajudá-lo.
Contudo, mais que apenas a dor que pode ser causada pelo outro, existe a dor que será provocada em nós que acontece no outro. Quando amamos, além da nossa própria dor, sentimos também a dor do outro como se fosse em nós - ou mesmo, muitas vezes, pior do que a dor em nós.
Lembro-me certa vez quando estava com um cisto pressionando o meu nervo na coluna e precisava ser removido, mas devido à infecção e inflamação, a anestesia não surtiu efeito, e foi um procedimento extremamente doloroso. Mas o que mais me assustou foi que, uma vez que estava saindo do consultório médico, o médico pediu pra que eu cuidasse da minha mãe - ela estava assustadoramente pálida e trêmula, quase desmaiando. A dor foi provocada em mim, mas ela sofreu mais que eu emocionalmente.
Hoje estou descobrindo o que é isso, sentir mais no outro que em si. Diversos amigos e pessoas queridas estão passando por situações muito difíceis e dolorosas, e tudo o que mais queria era poder tirar deles e colocar em mim pra que eles não sofressem mais... pra que não visse seus olhos tristes ou recebesse palavras de tamanha dor e desânimo. Mas não posso.
E quando paro pra pensar... seria autodestrutivo. Seria ilógico do ponto de vista natural e exato. Mas ainda o faria sem pensar duas vezes se estivesse no meu poder. Porque eu iria querer a dor deles pra mim? Isso é porque a dor delesjá é também a minha dor. Quando passei a amá-los, eles passaram a ser uma extensão, um pedaço de mim. Loucura seria não sentir o que eles sentem.
E mesmo que pra muitos o amor ainda seja considerado uma loucura por si só, só posso receber a insanidade de braços abertos sem me importar, sem questionar, sem sequer ponderar - porque de todos os loucos do mundo, que sejam os outros, tão loucos quanto eu, que quero ter comigo. E juntos, ao mesmo tempo que dividimos as tristezas, assim multiplicamos as felicidades.