segunda-feira, 5 de agosto de 2013

MáTemática

Detesto não ter resoluções e respostas para problemas. Desde criança, lembro de sentar com meu livro de matemática e meu caderno e passar horas tentando encontrar a resolução pra um problema, tentar fazer, comparar o resultado com a resposta no final do livro, ver que estava errado e com grande frustração apagar tudo e começar de novo. Lembro de em uma véspera de prova de química no ensino médio ficar por horas e horas tentando entender a lógica do cálculo de molaridade e que raios era aquele 6x10^23. Minha mãe teve de me mandar dormir aquele dia e simplesmente deixar estar. Tirei 10 na prova. 

Mesmo quando o livro estava fechado, eu continuava matutando e tentando encontrar sentido naquilo. Quantas vezes não fui dormir com o problema na cabeça - minha irmã reclamava que eu fazia contas enquanto dormia - e quando acordava, tinha o resultado. 

Eu não consigo deixar as coisas estar. Esperar e deixar as coisas se resolverem, enquanto eu não tenho a resposta eu continuo pensando, repensando, remoendo e ponderando sobre possíveis maneiras de resolver. O grande problema, é que isso não só se transportou desde minha infância, através da adolescência e tenho agora na juventude - mas essa característica transcende as diversas áreas da minha vida. Não fico só remoendo e ponderando os problemas de matemática, cálculo ou física. Isso se expandiu pra todas as áreas da minha vida. 

A molaridade não é um problema tão grande quanto a moralidade. A integração não é tão importante quando a missão integral. A teoria da relatividade não é tão intrigante quanto a relativização moral da sociedade atual. As reações químicas que produzem sentimentos não são nem um pouco tão confusas e difíceis de determinar como os sentimentos produzidos.

Por que isso está acontecendo? Por que isso acontece no mundo? Por que estou sentindo isso? Aliás, o que estou sentindo exatamente? Qual a melhor resposta pra essa proposta? Qual a melhor escolha? Por que isso parece um problema muito maior que de fato é? Tudo fica rodando na minha cabeça. Perco noites - como a noite passada passada - pensando em tudo, tentando encontrar sentido nos fatos soltos da sociedade, das pessoas, da minha vida, da minha cabeça. Até quando sonho não tenho paz. Fico inquieta, ansiosa, frustrada. 

Creio que o grande problema esteja no fato de a vida não ser cálculo ou física, que você pode ir pras últimas páginas e pegar a resposta dos exercícios. Ou seja, mesmo se chego a uma conclusão brilhante, eu não sei se essa conclusão ou resposta está certa. Acabo sentindo a necessidade de processar os mesmos problemas de novo e de novo, tentando em condições diferentes, pressuposições diferentes, ver se consigo chegar ao mesmo resultado. Como todo bom cientista, eu verifico se meu resultado pode ser reproduzido. 

Seria muito bom se tivéssemos as respostas, mesmo se não tivéssemos a resolução. Saber que rumo você quer que sua solução tenha, isso ajuda bastante. Seria até didático só ter os resultados: Lembro-me do meu primeiro curso de cálculo, quando o exercício propunha algumas equações para encontrar a derivada pela definição. Bem, eu tinha um problema, e sabia que podia encontrar a solução com a minha munição do ensino médio para derivar. Então fiz assim. Apresentei pro professor. Errado. 

Não que a solução estivesse errada, mas eu cortei caminhos, resolvi o problema sem saber o que era derivar. Alguém me disse um dia em uma aula de física no ensino médio que podia usar a regra, usei a regra, mas sem saber o por quê. Ele me explicou de maneira bem simplificada "Resolver assim sem saber a definição seria como ensinar uma criança a usar uma calculadora sem ensinar as operações matemáticas básicas primeiro." 

Talvez, na minha vida eu esteja tentando fazer a mesma coisa. Estou tentando encontrar resoluções sem saber as definições, meramente apresentando uma solução de acordo com padrões previamente definidos. O processo de compreender e buscar a solução que pode ser a lição mais importante no momento, não saber a resposta. Talvez sejam necessárias essas noitas mal dormidas e dias de ansiedade e frustração pra, um dia, eu acordar e saber: agora sei o por quê. 

Se formos considerar a didática da vida como a didática das ciências, o resultado acaba sendo um tanto quanto menos importante. Mesmo que a gente passe horas e horas conseguindo resultados errados, se ao final de todos esses erros e frustrações aprendemos a lição, o tempo não foi perdido. Estudando cálculo, meus resultados errados me ensinaram muito mais do que a derivada de resultado correto que não sabia porquê fazia.

A grande diferença é que a vida, ao contrário da matemática, física ou cálculo, não tem conceitos e definições bem determinados. Tudo está sujeito à sua cosmovisão, ao conjunto de pressuposições que determinam como você vai enxergar o mundo. Ou seja, as definições são muito pessoais, mutáveis e subjetivas. Portanto, quando um problema se apresenta, dificilmente a sua resolução vai ser igual à de todas as outras pessoas. 

Pensando na vida como livro novamente, não creio que meu erro esteja em desejar que a vida seja como um livro - acredito que de fato haja muita similaridade na vida e nos livros. Porém, meu erro reside no desejo que seja um livro explicativo de ciências exatas, quando na verdade é algo mais próximo de uma obra literária. Uma obra em que o início e o fim não são tão importantes quanto o que acontece entre os dois. 

Similarmente ao que o livro Grandes esperanças diz, o início da vida (ou o início de um grande dia que opera grandes mudanças em nós, que nos faz apagar muito do que fizemos e começar de novo) é meramente um elo inicial para uma corrente de ferro, ouro ou flores que se conduz ao longo da história. O processo é mais importante que os pontos de início e de chegada. 

Até porque, de certa forma, como seres humanos, sabemos que a nossa jornada terrena terá um mesmo início e fim: nascimento e morte. Mas nem por isso nossas histórias sejam todas iguais, nem por isso chegamos todos às mesmas resoluções. Nem por isso nossas histórias não devem ser contadas. Nem por isso devemos nos considerar desastres naturais por não termos todas as respostas certas. O que aprendemos no meio do caminho, em que nos transformamos com cada resultado, podem fazer muito mais diferença na nossa construção como pessoas, como almas, do que ter uma resposta sequer. 

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