Eu gosto de escrever cartas. Tudo bem, eu realmente gosto de escrever qualquer coisa, mas cartas são uma das coisas que mais gosto de escrever.
Por mais que goste do contato pessoal com as pessoas, sinto que através das palavras escritas consigo me expressar com muito mais eloquência, de maneira ponderada, racional e de maneira a transmitir meus pensamentos de maneira muito mais eficiente do que através da conversa presencial. Minha mente parece ficar meio abafada e confusa quando tento ouvir o que a pessoa está falando e responder corretamente o que minha mente está pensando.
O problema de escrever cartas hoje em dia, é a dificuldade em receber respostas. Se você manda um email, é muito mais provável receber uma resposta do que uma carta. As pessoas acabam esquecendo ou dão pouca importância, ou respondem de maneira bem xula sem dar atenção ao tempo que você dedicou para pôr no papel páginas e páginas de palavras, pensamentos e sentimentos.
Enviei duas cartas recentemente, e, surpreendentemente, recebi respostas para ambas. Uma, uma resposta longa, cheia de palavras bonitas, considerações fantásticas. A outra um sms simples. De maneira contrária às expectativas, a primeira me fez chorar, e me chateou muito. Por mais que as palavras fossem bonitas, elas eram vazias. Tinha promessas que nunca poderiam ser cumpridas, tinha fatos alegados que eram contrários a muitas evidências.
A mensagem de sms, por outro lado, não fez promessas. Não disse nada de aparentemente extraordinário, mas foi sincera. As palavras que escrevi foram levadas tão a sério, que não foram feitas promessas sem antes ter as palavras consideradas, ponderadas e serem relidas.
Isso me fez perceber muito a respeito das palavras: elas só são tão boas quanto nosso coração ao emití-las. Isso me fez perceber o sentido do texto de I Coríntios 13:
"Se eu falar com eloquência humana e com êxtase própria dos anjos e não tiver amor, não passarei do rangido de uma porta enferrujada."
Isso me fez pensar nas palavras que gosto de expor com tanta eloquência. Será que estou sendo o ranger de uma porta enferrujada, ou um sino batendo alto mas falando pouca coisa? Talvez, na próxima vez que for escrever uma carta, seja melhor eu passar mais tempo pensando sobre o por quê de escrevê-la - se é por amor, ou pra me colocar acima de alguém, ou pra me mostrar - do que de fato pensando no léxico mais apropriado e pomposo, cheio de mesóclises e aliterações, mas completamente vazias de sentimento ou conteúdo.
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