quarta-feira, 26 de junho de 2013

Desculpem-me o transtorno.

Estou escrevendo muito pouco no blog, percebi isso quando fui postar ontem a minha resenha/reflexão a respeito do Harry Potter. Fiquei me perguntando se havia uma motivação pra esses últimos 6 meses terem textos tão escassos, e fui levada a pensar não só em algumas respostas, mas tembém a algumas ponderações. 

Primeiramente, de maneira bastante lógica e objetiva: continuo escrevendo, só não aqui. Peço perdão se ainda há meia dúzia de leitores que tem esperança de acompanhar meus devaneios, mas tenho investido meu tempo predominantemente no meu livro de ficção que, com grande esforço e satisfação, atingiu suas 200 páginas (em reedição de um livro, ficaria com cerca de 400). Ainda faço reflexões, mas através de diálogos, situações e reflexões da própria personagem. Portanto, paciência, caros! Em breve revelo ao mundo o pequeno universo que habita minhas sinapses. 
Mas outra coisa que pensei foi: porque mudei a maneira de refletir? Porque dificilmente posto aqui o que penso? Porque mudei os assuntos sobre os quais reflito? A resposta é muito simples e ecoa muitas postagens desse blog (que, surpreendentemente, existe desde 2009): eu mudei. 
Gosto de tomar um tempo e ver algumas das coisas que escrevi no colégio, cursinho, entrando na universidade. Quando estava nessa ou naquela situação emocional ou familiar. Gosto porque eu fico feliz de ver que as coisas mudaram, que eu aprendi que a ciência e o conhecimento não vão resolver todos os problemas do mundo, que relacionamentos a dois não são a coisa mais importante mas também não são completamente despresíveis como já fiz parecer há alguns anos. 
Aprendi que eu cansei. Eu cansei de ter medo. De construir barreiras racionais, de pensar demais, de temer o que vão pensar de mim ou como vão me julgar. Cansei de seguir coisas que nunca pensei por quê faço ou não isso. Eu cansei de ficar na minha zona de conforto. 
Nos últimos dois meses, posso dizer que a quantidade de mudanças, caso fosse um gráfico, seria exponencial. Para os que fogem dos números e preferem as palavras, isso significa que mudei muito, mas muito, mas muito mesmo para algumas coisas. Sim, eu pisei pra fora da minha zona de conforto. 
Tive crises, revoltas, brigas, dúvidas e tristeza me moldando de uma maneira admirável em um processo intenso e curioso. Lembro de um dia estar com os meus amigos e chorar litros (olha aí, algo que nunca admitiria ter feito antes por aqui) porque eu sentia que as coias estavam mudando e estava apavorada, porque eu não tinha certeza de absolutamente mais nada. de abraçar eles porque eu sabia que precisava mudar mas não queria. 
Depois disso, eu percebi que tudo o que pensei que tinha, não tinha na verdade. Nada. Nadica. Nope, nem minha própria vida pertence a mim. Tudo pode ir embora muito fácil e muito rápido, então pensei: é apenas lógico que meus alicerces não estejam em algo que possa ir embora, certo? Então comecei a investir o meu tempo em Deus, em orar, ler a Bíblia, em realmente trabalhar naquilo que eu posso trabalhar - na minha alma, algo que, mesmo que não seja meu, é algo que é eterno. 
E a partir disso, eu comecei a descobrir o que é ficar feliz de verdade. Foi a partir da epifania e reconhecimento do fato que de que não tinha nada que veio uma consequência lógica: se não tenho nada, não tenho nada a perder. Não tenho o que murmurar e reclamar, querer além do que tenho. Então comecei a fazer coisas novas, por menores que sejam, novas experiências culinárias, estudar sem me preocupar com o 'passar ou não' e às vezes até investir a madrugada em uma boa conversa em vez de dormir. Comecei a me abrir mais, a não ficar escondendo as coisas, a ver as pessoas como almas que nem eu. 
E foi a partir do momento em que eu passei a me desapegar, eu aprendi a amar. Amar de verdade. A partir do momento em que aprendi que minha felicidade não pode estar em nada daqui da terra, comecei a aprender o que é a felicidade. 
Não fico chorando pelos cantos desejando que minha vida fosse assim ou assado, ou que esse ou aquele sonho tivesse se realizado. As coisas são como são e bola pra frente, porque o melhor ainda está por vir. E só assim aprendi a valorizar aquilo que já veio melhor. E a melhor parte de todas? É que toda essa felicidade e esse amor são estão começando. Ainda tem muito o que mudar pra eu poder olhar esses textos e ter certeza de que eu aprendi, eu cresci, eu melhorei, mas sempre tem o que melhorar.

Então, se eu demorar pra postar de novo, é só que decidi colocar as minhas reflexões mais nas minhas atitudes do que em um endereço eletrônico. Desculpe-me o transtorno, estou em reforma pra melhor atendê-Lo.



"Quando eu aprender a amar a Deus mais do que as coisas terrenas que me são mais preciosas, eu acabarei amando as coisas que me são mais preciosas mais do que agora. Mas se eu me acostumo a amar as coisas que me são mais preciosas em detrimento de Deus e em vez de dEus, estarei me aproximando do potno em que não estarei mais amando coisa nenhuma. Quando as coisas primárias da vida são postas em primeiro lugar, as coisas secundárias, nào são suprimidas, mas providas."

- Lewis


terça-feira, 25 de junho de 2013

Geração Harry Potter

Eu não li Harry Potter quando criança porque minha mãe não deixou; ela disse que tinha coisas que eu não deveria ler por ser uma criança. Então, elementarmente (como não era o Harry e aceitava autoridade), não li. Mas também me recusei a assistir os filmes - porque, afinal, não se pode assistir os filmes e depois ler os livros, isso é um ataque brutal à imaginação! Cerca de 12 anos depois da proibição de ler o livro, agora aos 21 anos, eu queria alguma leitura fácil pra desligar a cabeça mas de preferência com o mínimo de romance possível, então decidi fazer o que todas as crianças descoladas em 1998 faziam: ler as histórias que formaram a minha geração. E sabe qual foi a conclusão à qual eu cheguei?

Obrigada, mãe, por não me deixar ler Harry Potter quando criança.

[Esta postagem conterá spoilers da história dos livros, então se não os quiser, pare de ler agora e não veja os outdoors dos estados unidos sobre a morte de Dumbledore. Ops. Tarde de mais.]

A história base é um padrão bem similar ao de diversas outras histórias de sucesso, um indivíduo, normalmente do sexo masculino, é escolhido para uma determinada tarefa que só ele pode realizar e que vai salvar muita gente.
A diferença é que isso se passa em um universo onde há pessoas que podem usar mágica e se escondem de nós, meros mortais (Muggles, ou Trouxas conforme é a tradução feita para o português); vivemos com eles apagando nossa memória, manipulando o que entendemos do mundo pra não sabermos da existência deles.
O universo criado de fato é interessantíssimo. A autora, J.K.Rowling, consegue transportar elementos da cultura britânica pra cultura de bruxos com pequenos trocadilhos muito engraçados e interessantes que, infelizmente, o público que lê versões traduzidas acaba perdendo, e consegue elaborar todo um universo com sistemas educacionais, órgãos governamentais pra regulação da magia, leis para bruxos, tudo muito interessante e envolvente. De fato é um universo bem construído (apesar de seguir um padrão social bem similar ao nosso, creio que isso seja por ser algo criado para crianças então foi mantido de maneira bem simples e compreensível sem grandes reflexões socioeconômicas).
A escrita é bem feita, ela consegue criar personagens muito bem construídos e de muitas camadas, apesar de um tanto caricatos - mas uma das características que mais gostei da escrita é o fato de lendo uma fala você consegue saber qual o personagem falando. Cada personagem tem a sua linguagem, a sua pronúncia, tudo muito bem transportado pro papel e constribuindo fortemente pra você de fato ficar imerso em um mundo onde todas as portas (ou quase todas) se destrancam balançando sua varinha e dizendo Alomohora! A linguagem é simples e os livros são bem rápidos de ler. Mas aqui começam os pontos negativos (fãs, me perdoem!).

Os livros seguem um mesmo padrão, uma mesma estrutura. Aniversário do Harry e ele está miserável odiando o mundo porque ele tem uma vida tão deplorável e ninguém lembra dele, ele vai para Hogwarts, é determinado cada ano um professor para a disciplina de Defense Against the Dark Arts, tem algo suspeito acontecendo na escola, Harry quebra diversas regras e cede à curiosidade pra descobrir o que está acontecendo mas permanece confuso. Chega Halloween, algo interessante acontece. Daí chega o Natal, que deixa mais interessante o que aconteceu no Halloween. Suas provas finais se aproximam, páscoa, Harry salva o dia (mesmo que os seus amigos tenham ajudado ele até certo ponto, no final é ele quem salva o dia e encontra so-zi-nho e batalha com o Lord Voldemort). Ele - por coincidencia, porque só fazia aquilo por curiosidade inicialmente - salva um monte de gente e sobrevive. Grifinólia ganha centenas de pontos pela pura estupidez e incosequência do personagem, eles vencem, acabam as aulas. Ele volta pra number 4 Privet Drive ameaçando os seus tios. Pronto, você já conhece a estrutura básica de todos os livros do Harry Potter.

Eu achei isso uma pena e um desperdício de uma boa história. Por um lado, é válido seguir esse padrão pra você ter uma noção da passagem do tempo (cada livro conta o período de um ano), mas há outras maneiras  mais criativas de se fazer isso, seja por datas, estações do ano, ou mesmo com datas escritas em capítulos talvez seria mais fácil e menos previsível e/ou cansativo. E alguém me explica por favor: porque raios o Lord Voldemort sempre espera o final do semestre pra atacar? Ele acha que o Harry vai estar mais distraído com as provas finais e vai finalmente conseguir matar ele?

Outra coisa que achei uma pena foi a narração. A narração é feita em terceira pessoa mas com todos os defeitos da primeira pessoa. A narração é contada do ponto de vista do Harry, então não é onisciente - o que é válido pra manter o suspense - mas ao mesmo tempo ao nos prendermos de maneira solta ao Harry não conseguimos nem entrar completamente no personagem e nem conhecer bem todo o universo criado. Por isso acho que talvez a autora acabou optando por fazer o Harry meio corajoso (ao ponto de ser inconsequente) pra ela arrastar ele por todo o universo pra você conhecer tudo. E aqui entramos no ponto chave: a inconsequência do Harry.

Muitas, muitas vezes eu queria dar uma surra no personagem. Eu juro. Eu ainda não entendo porque amavam ele tanto no livro: ele era um filhinho de papai, mimado, popular, desobediente, narcisista e que não consegue lidar com autoridade. Eu consigo plenamente imaginá-lo naquela situação de menino mimado em que, quando alguém vai acusá-lo ele diz: "Você sabe quem é o meu pai?" Mas não só com o pai. Pai, Mãe, padrinho e até mesmo diretor da escola. Tudo isso ele usa a favor dele mesmo pra se esquivar das consequências da estupidez dele. Percebam: em momento algum ele de fato paga pelo mal que fez. Ele mata aulas, ele não estuda, ele desobedece todas as regras da escola e ainda assim não é expulso. O único personagem que insiste que ele deve ser expulso é tratado durante a maior parte do tempo como um vilão, que é o Professor Snape - que o Harry detesta, e com razão: O Snape não aceita a ladainha do menino mimado e metido que o Harry é e o vê de verdade, sem rótulos de "O Escolhido" ou "O menino que sobreviveu".
Isso traduz muito da geração Harry Potter: uma geração que não quer sofrer as consequências de seus atos, que quer sempre se esquivar de tudo, seja por contatos, improvisação, títulos... Luta contra a injustiça quando ela não favorece ele, mas permite a injustiça a favor dele.
O único episódio que eu consigo pensar que Harry sofre a consequência de sua própria estupidez e de ouvir o seu ego é com a morte do seu padrinho, Sirius Black. Por causa do Harry não treinar Occlumenscy ele fica vulnerável ao Lord Voldemort e é manipulado, provocando, indiretamente, a morte do Sirius. Mas mesmo nesse caso, ele consegue culpar absolutamente todos acima de si mesmo, tem uma crise de menino mimado na sala do Dumbledore (com direito à quebra de artigos valiosíssimos do velho, xingamentos e gritos à torto e direita sem reação do senhorzinho simpático).
Além disso, o Harry também é um parasita. Alguém me diz como que ele teria passado em alguma disciplina se não fosse pela Hermione? De novo e de novo, ela faz a lição do Harry e do Ron, ela corrige, ela dá as anotações dela e explica e resolve as coisas pra ele. E mesmo quando ela se recusa a ajudar ele, ele recorre à ajuda do príncipe de meio-sangue. Isso é a nossa geração toda de novo, que não faz nada, só quer fazer aquilo que lhe agrada (ficar jogando quadribol? andando em corredores escuros à noite pra culpar o seu arquiinimigo que é tão ruim quanto você?) e suga os outros pra se dar bem. E quantas vezes a Hermione é vista como algo ruim e negativo? Todos ficam irritados com ela, não gostam da maneira como ela participa da aula e de fato é uma boa aluna, e do fato que ela é contra a escravidão dos elfos domésticos. Me desculpe, mas eu acho que seria muito mais construtiva a leitura de uma série sobre a Hermione Granger no aspecto moral, de responsabilidade e o tipo de pessoa que o mundo precisa.
E quando o Ron vira Prefect em vez do Harry? Inacreditável a atitude egoísta de que ele que deveria ter sido o escolhido! Ele deveria estar feliz meramente porque não foi expulso da escola e ainda fica culpando o Dumbledore fazendo birra!
Outro item válido a ser considerado da geração Harry Potter é que uma vez que você entra naquele universo, tudo é possível. Tudo é consertável através de mágica, tudo é mais fácil e rápido. Pobres trouxas, a vida é tão difícil pra eles. Mas nós nascemos superiores a eles. E depois de um tempo lendo você começa a pensar "Ah, se eu tivesse uma poção Polissuco ou um Liquid Luck agora..." como se a vida pudesse ser resolvida assim, sem esforço que nem é com o Harry - tudo o que ele tem ele tem por herança dos pais lindos e maravilhosos ou por circunstâncias perfeitas que contribuem para ele mesmo.

Enfim, eu poderia continuar por horas e horas deliberando a respeito do menino que sobreviveu infinitas mil vezes, morreu e voltou, mas creio que isso baste pra retratar o meu ponto de que, por mais que os livros tentem passar muitas lições morais válidas de lealdade, amizade, compreensão com os mais fracos, muitas das características dos personagens traduziram o perfil psicológico de uma geração inteira de maneira negativa.
É difícil saber aonde começou, se nós éramos assim e por isso gostamos dos livros ou se passamos a ser assim por consequência de livros que seguem esse padrão. Mas de qualquer maneira, ler esses livros me ajudou muito a entender mais de mim, mais da minha geração como um todo e eu não pude deixar de pensar: Obrigada, mãe, por não me deixar acreditar que eu era a Escolhida que podia fazer o que quisesse quando bem entendesse sem sofrer consequências por isso. Obrigada, mãe, por não me deixar ler Harry Potter quando eu era criança. 

domingo, 16 de junho de 2013

V de Vida

Eu andei por uma das ruas onde teve um protesto recentemente, ninguém adivinharia o cenário de horror que estava lá horas antes. O desespero das pessoas, de ambas as partes. Pessoas sendo presas, tendo sua integridade física afetada das mais diversas formas, propriedade material sendo desrespeitosamente destruída. Era como se nada tivesse acontecido, mas aconteceu. E pode ficar pior. E provavelmente vai ficar pior. E talvez mais ruas vão ter mais histórias, marcas e eventos com finais menos que belos ou felizes. 
E vou ser plenamente sincera, eu não sei qual é a minha posição com a situação toda de manifestações recentes que tem acontecido na cidade de São Paulo e agora estão no Rio e se espalhando entre os brasileiros. Vejo fotos, protestos, engajamento por todas as partes, seja quem você for, você provavelmente tem uma opinião. 
Mas hoje enquanto eu orava na igreja antes da ceia, pensando no sacrifício de Jesus, em tudo o que ele fez por nós, a conclusão à qual eu cheguei foi bastante simples: Ele morreu por quem deu tiro de borracha em quem tentou ajudar os machucados; Ele morreu também por quem incendiava a propriedade pública; Ele morreu pelo jornalista que só estava tentando cumprir o seu trabalho da noite e acabou cego; e Ele também morreu por gente que nem eu, que está acompanhando tudo de casa com medo, tristeza e desespero, sem saber como agir. 
Eu fico pensando e fico um tanto aterrorizada ao perceber que as ideias estão ganhando mais importância do que a própria vida, a defesa por ideais vale mais que a vida do outro ou o bem estar do outro. E percebo que essa não é a primeira - nem pior - nem a última vez que isso ecoa na história, isso acontece, de novo e de novo, ora mais intensamente, ora menos. 
Estamos desumanizando as pessoas, e esse é o grande problema de todos os lados. Estamos coisificando o outro - eles são imagens, são ideias, não pessoas com famílias, sentimentos, frustrações e demônios que os assombram. 
Como cristã, eu não sei qual é a atitude correta. Quero justiça, mas também quero promover a paz e quero mostrar amor. Como eu concilio todos? Como eu me mostro como filha do Reino e não como mais uma pessoa manipulada, seja pela mídia, pelas massas, pelos colegas, pelo facebook? Como eu devo responder a essa cultura de ódio e de morte que de repente está batendo à minha porta, com gritos aterrorizados, com lágrimas e talvez até sangue nas ruas? 

E, pensando bem, até eu saber que lado é correto - se é que isso existe - posso corrigir uma frase do início da reflexão e dizer que sei sim a minha posição. De joelhos e de cabeça baixa, pedindo por misericórdia - misericórdia por todos nós, porque mesmo não sabendo muita coisa, isso sei ao certo: todos precisamos dela. E muito. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Tudo é uma lição

Errando e Aprendendo

Quando se sentiu pronto
Faltava tanto, foi duro de encarar
Quando se sentiu santo
Um tapa bem na face te colocou no seu lugar

Quando se sentiu certo
Tudo deu errado, não pode consertar
No dia em que se deu conta
Percebeu que Deus te deu a chance de recomeçar

Tudo é uma lição
A gente tem que aprender
O Mestre usa a vida a vida usa tudo
Será que oramos tanto
Sem nunca compreender
Que aquilo contra o que lutamos
Poderia ser o caminho que
Quer ensinar a viver o futuro?

Um dia de cada vez

É muito fácil e muito sutil a maneira como estabelecemos a nossa identidade e nossos valores em coisas passageiras. Você pode dizer quantas vezes quizer, jurar de pés juntos, separados ou do avesso, mas a verdade é que grande parte do tempo, apesar de acreditarmos que nossa identidade está em Deus, tire as outras coisas, e daí que você vê aonde que está de verdade.
Coisas passageiras em que nossa identidade pode estar? Pff, difícil de enumerá-las! Tem aquelas coisas clichê: dinheiro, beleza, relacionamentos amorosos. Mas tem outras menos comentadas, e é uma dessas que eu queria abordar, e são os sonhos.
Todo mundo diz que temos que 'seguir nossos sonhos', 'lutar pelas nossas ambições', seja em uma cultura cristã ou não, mas eu tenho colocado isso muito em questão. Tudo bem criar sonhos. Mas se colocar nos sonhos, ou seja, estabelecer o seu valor de acordo com a conquista ou não desses objetivos me parece uma grande bobagem.
Nós estamos estabelecendo um padrão sem ter todas as circunstâncias pra julgar se aquilo vai acontecer ou não. Estamos considerando o hoje como referência para o amanhã para criar os nossos sonhos e planos para o futuro, e haja quantas rotinas houver, o hoje e o amanhã nunca são iguais. Fazer previsões pra uma semana já é difícil, quanto mais um, dois, dez anos. Então, você valorizar a si mesmo a partir de planos feitos sem uma fundamentação racional e ciente de todos os fatos que podem afetar o sucesso ou não da sua empreitada é uma atitude de suicidio emocional.
E daí, como fica? Ficamos sem sonhos? Não, mas o desafio não é o ter ou não ter sonhos, o desafio é ter sonhos mas estar completamente confortável com a possibilidade deles não se transcreverem na realidade. Não apenas por uma decisão empírica de que 'o mundo não funciona fácil assim', mas sim porque ficamos confortáveis por saber que nada disso depende da gente. E confiamos pleanamente em quem dependem todas as coisas.


"Uma atitude mais cristã, que pode ser alcançada em qualquer idade, é deixar o futuro nas mãos de Deus. E é bom que façamos isso, porque a Deus pertence o nosso futuro, não importa se o deixamos em suas mãos ou não. Jamais confie, seja em tempos de guerra ou de paz, a sua virtude ou felicidade ao futuro. São mais felizes no trabalho aqueles que não levam os seus planos de longo prazo tão a sério e que, a cada instante, trabalham "Como que para o Senhor". Somos encorajados a pedir o nosso pão diário, e nada mais. O único tempo em que podemos cumprir qualquer tarefa ou receber qualquer graça é o presente."
- O peso da glória

terça-feira, 2 de abril de 2013

Dois

Caros, estive ponderando um pouco recentemente sobre conceitos de relacionamentos, amor, namoro, etc, e eu cheguei a algumas conclusões que listei aqui. Podem estar completamente errados? Plenamente possível. Daqui a dez anos eu vou ler isso e me achar uma idiota escrevendo bobagens na internet? Provavelmente. Mas ainda assim, aqui vai um insight pra minha cabeça, espero que tirem algum proveito disso!

O conceito comum de relacionamentos e amor é, quando a gente para pra pensar, bem estranho. Primeiro porque é muito vago, cada um tem um conceito diferente do outro, mas o que existe de padrão na nossa cultura é o que eu tenho estranhado muito.
Não é por acaso que Nicholas Sparks tem tantos best sellers: os livros dele contam histórias sobre amor, paixão, como isso muda as pessoas pra melhor, sobre finais felizes... porque quando o leitor está lendo aquilo - se consegue ler sem ter um surto psicótico de revolta contra tanta bobagem - está sentindo como se aquilo estivesse acontecendo com ele, fica emocionalmente apegado e daí - tcharan! Final feliz!
E assim a nossa construção sobre o que é um relacionamento é baseado em Nicholas Sparks, Disney, todas histórias de grandes gestos, declarações de amor e palavras bonitas, mas isso não é um relacionamento feliz. Nem saudável, por sinal.
Esse padrão de concepção de relacionamentos parte de um pressuposto: o meu futuro namorado(a)/marido(a)/amor da minha vida é perfeito(a). E, bem, começar uma teoria com fatos que necessariamente estão incorretos já tira toda e qualquer fundamentação da sua afirmação. Segundo: eu sou perfeito(a). Pior ainda!
Como consequência disso, seremos um casal perfeito, sem problemas, ele vai me dar flores, chocolates, escrever poesias e viveremos eternamente apaixonados. Espera, o relacionamento se baseia em grandes gestos e sentimentos assim? E quando as flores morrerem? Um dos dois ficar com diabetes? E quando - pasmem - o sentimento se esvairar?
Um relacionamento a dois é muito mais que qualquer uma dessas coisas. Se a pessoa fosse perfeita e se nós fossemos perfeitos seria fácil demais amar, perderia o seu valor! A partir da compreensão de que primeiro - eu não sou perfeito(a) e nem nunca serei, você começa bem o relacionamento - esquece toda aquela bobagem de sempre ser o certo em qualquer argumento.
Segundo - seu bem amado também não é perfeito. Mas mesmo assim você quer estar com ele(a). Você ama tanto, mas tanto, que até as coisas negativas você passa a amar entendendo que aquilo também constrói o caráter do outro que você ama.
Então, começando do 'ninguém é perfeito' (que em outra situação pareceria uma afirmação bastante trivial) nós vemos quanto amor deve existir pra que a coisa funcione - porque é por esse amor que você faz promessas que, a certo ponto, podem ser difíceis de guardar, e que você decide que você quer ser uma pessoa melhor, que você vai ser paciente quando o outro não estiver em um de seus melhores dias também.
Agora, quando eu falo de amor, eu não estou falando do sentimento fofinho e adorável da ativação do sistema nervoso simpático ao se deparar com a sétima beleza natural (ou não?) do universo. O sentimento existe sim, mas sentimentos são coisas custosas pro seu organismo manter. Dá trabalho ficar produzindo todos aqueles neurotransmissores de bem estar, e hora ou outra, seu sistema dopamínico não vai mais acender como uma árvore de natal em uma ressonancia magnética funcional. Mas, mesmo assim, o amor - o amor de verdade - que é aprendido, e não sentido, entra em ação e faz a coisa funcionar.
C.S.Lewis coloca uma metáfora bem interessante nesse sentido: O amor é o que mantém um motor funcionando, a paixão foi a faísca inicial para ignir esse motor no começo da história. É esse amor que não te deixa ir embora quando as coisas ficam feias e complicadas, é esse amor que te fala: você está se tornando uma pessoa melhor. Você está aprendendo. Essa pessoa faz parte de você agora, mas de uma maneira sobrenaturalmente mais racional e dosada, algo que não seja tão custoso de ser mantido.
Então, temos até agora: pessoas imperfeitas e muito amor. Mas não pára por aí. Não adianta nada ter isso se você não sabe o que fazer com isso. Lembra do motor? Então, não basta ter o combustível e as peças. Tem que ter algo mais pra produzir movimento: trabalho. Muito, muito trabalho duro. A decisão empírica de trabalhar pra isso funcionar porque você sabe que aquilo está te levando pra frente e sempre mantendo o foco em onde você quer chegar.
Ah, daí temos outros fator - estamos indo pra algum lugar, mas isso não basta. Se cada um quiser ir pra um lugar, não faz mais sentido. A partir da união de duas pessoas formando um casal, podemos dizer que de certa forma eles começam - em um processo lento e demorado - a ser um organismo só. Mas, 'a house divided in itself cannot stand' ou algo assim.
Por isso eu não entendo quando as pessoas dizem 'ah, mas nós temos religiões diferentes', ou seja, vocês só estão rumando para direções opostas. Isso não seria muito prático, se formos parar pra pensar no exemplo do motor se considerarmos o restante do carro. Se duas rodas querem ir pra um lado e duas pro outro, ele vai se partir no meio.
Isso não é contado nas histórias bonitinhas, elas sempre acabam no 'felizes para sempre', e o saldo final de tudo pode até ser positivo e muito, muito feliz. Mas felicidade não é sinônimo de facilidade: dá trabalho. Mas... acho que deve valer à pena.

domingo, 31 de março de 2013

estado "laico"

Política e religião andam discutindo bastante no Brasil, o limite entre o que é um, outro e intersecção de ambos está difícil de definir.
Fique triste ao ver notícias sobre evangélicos quererem que o Brasil deixe de ser um país laico - e eu sei que posso ser impopular com o que vou escrever aqui, e eu posso estar errada, mas vamos lá.

Eu não sei bem aonde querem chegar com isso tudo nem extensão dessas mudanças, mas considerando um cenário hipotético em que o Brasil se tornasse oficialmente um país evangélico com leis baseadas nisso, não creio que isso seria o ideal como muitos evangélicos talvez diriam.
Minah motivação pra isso é simples: Quando Jesus se encontrava com algum potencial discípulo alguma vez ele impôs alguma coisa? Pelo que me lembro, Jesus sempre diz "Siga-me", e os que quisessem seguí-lo receberiam ensinamentos que poderiam aplicar ou não na vida prática. Também poderiam dar meia volta e continuar na vida que levavam antes (como é o caso do jovem rico).
Jesus nunca veio com uma proposta ativista - apesar de revolucionária - a grande revolução dele era que não era imposta, era que essa nova proposta de maneira de vida de amor a Deus e ao próximo fosse tão contagiante que acabaria por si só revolucionando indivíduos e, um por um, chegaríamos à harmonia com Deus e com nós mesmos.
Ele nunca jogou ninguém na fogueira nem apedrejou, apenas ensinou. Querer apontar o dedo e ordenar a todos como seguirem suas vidas seria como um insulto ao livre arbítrio que o próprio Deus fez!

A partir disso, eu fico pensando: então quem somos nós, como cristãos (isto é, da tradução literal, os ''pequenos Cristos"), para querer apontar o dedo e basear toda a nossa legislação em coisas que nem todos concordam? Não somos Deus, nem Jesus, nem nada assim. Nós estamos todos na mesma situação miserável e pecadora que todos os outros, só porque acreditamos que Jesus pode nos salvar da nossa situação e em gratidão a isso queremos mudar a nossa conduta, isso não quer dizer que precisamos impor absolutamente tudo à sociedade como nós cremos.
Queremos ser agentes exteriores para uma transformação, mas o nosso papel é justamente instigar os outros para que se interessem e talvez, como nós, decidam seguir a Jesus. Não arrastar contra a própria vontade, isso seria o contrário da proposta do cristianismo. Isso seria o contrário do que viemos aqui pra fazer.