domingo, 16 de junho de 2013

V de Vida

Eu andei por uma das ruas onde teve um protesto recentemente, ninguém adivinharia o cenário de horror que estava lá horas antes. O desespero das pessoas, de ambas as partes. Pessoas sendo presas, tendo sua integridade física afetada das mais diversas formas, propriedade material sendo desrespeitosamente destruída. Era como se nada tivesse acontecido, mas aconteceu. E pode ficar pior. E provavelmente vai ficar pior. E talvez mais ruas vão ter mais histórias, marcas e eventos com finais menos que belos ou felizes. 
E vou ser plenamente sincera, eu não sei qual é a minha posição com a situação toda de manifestações recentes que tem acontecido na cidade de São Paulo e agora estão no Rio e se espalhando entre os brasileiros. Vejo fotos, protestos, engajamento por todas as partes, seja quem você for, você provavelmente tem uma opinião. 
Mas hoje enquanto eu orava na igreja antes da ceia, pensando no sacrifício de Jesus, em tudo o que ele fez por nós, a conclusão à qual eu cheguei foi bastante simples: Ele morreu por quem deu tiro de borracha em quem tentou ajudar os machucados; Ele morreu também por quem incendiava a propriedade pública; Ele morreu pelo jornalista que só estava tentando cumprir o seu trabalho da noite e acabou cego; e Ele também morreu por gente que nem eu, que está acompanhando tudo de casa com medo, tristeza e desespero, sem saber como agir. 
Eu fico pensando e fico um tanto aterrorizada ao perceber que as ideias estão ganhando mais importância do que a própria vida, a defesa por ideais vale mais que a vida do outro ou o bem estar do outro. E percebo que essa não é a primeira - nem pior - nem a última vez que isso ecoa na história, isso acontece, de novo e de novo, ora mais intensamente, ora menos. 
Estamos desumanizando as pessoas, e esse é o grande problema de todos os lados. Estamos coisificando o outro - eles são imagens, são ideias, não pessoas com famílias, sentimentos, frustrações e demônios que os assombram. 
Como cristã, eu não sei qual é a atitude correta. Quero justiça, mas também quero promover a paz e quero mostrar amor. Como eu concilio todos? Como eu me mostro como filha do Reino e não como mais uma pessoa manipulada, seja pela mídia, pelas massas, pelos colegas, pelo facebook? Como eu devo responder a essa cultura de ódio e de morte que de repente está batendo à minha porta, com gritos aterrorizados, com lágrimas e talvez até sangue nas ruas? 

E, pensando bem, até eu saber que lado é correto - se é que isso existe - posso corrigir uma frase do início da reflexão e dizer que sei sim a minha posição. De joelhos e de cabeça baixa, pedindo por misericórdia - misericórdia por todos nós, porque mesmo não sabendo muita coisa, isso sei ao certo: todos precisamos dela. E muito. 

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