Em se tratando de relacionamentos, já fui tanto vítima como vilã. Eu já machuquei e fui machucada, eu me regenerei e já orei pela regeneração do outro. Dizem que o fato de a gente se machucar em relacionamentos faz a vida ser injusta, mas creio que seja exatamente por isso que ela pode ser bem justa: nós estamos todos sob a possibilidade aleatória de ser qualquer uma das duas partes, a que sofre e a que fere. Muitas vezes, desempenhamos ambos os papeis simultaneamente.
Não é necessariamente uma questão de escolher o outro bem ou não - apesar disso ter certa importância - mas, nós já fomos escolhidos um dia e todos já, de alguma forma, agimos mal, mas ainda assim não nos consideramos pessoas horríveis. Talvez a gente não goste de si mesmo o tempo todo, mas a gente ainda se ama de alguma maneira. Às vezes fazemos burradas, machucamos as pessoas que mais amamos, aprendemos com nossos erros, pedimos desculpas, e seguimos adiante. Às vezes o outro nos perdoa e a amizade, o relacionamento amoroso, seguem adiante, outras vezes não.
É verdade, contudo, que algumas pessoas parecem ter uma maior afinidade por desempenhar um ou o outro papel com mais frequência. Tanto aquele que é vítima e vilão repetidamente o são por repetição de erros: o primeiro por escolher mal, o segundo por ser mau. Ambos provocam dor, o primeiro nele mesmo, o segundo nos outros. Pode ser proposital ou não, nunca saberemos.
Porém, em relacionamentos com cristãos, isso é um fator diferenciado se comparamos com outros tipos de relacioanmentos: não somos perfeitos, mas sempre estamos trabalhando pra sermos melhores amanhã. Mesmo se não acertamos tudo com o outro, podemos acertar as coisas com o Criador do outro, e isso nos fazer melhorar e não ferir qualquer outra criatura da mesma maneira. É meio que a mesma lógica que você machucar um animal de estimação de alguém e, mesmo que o animal não entenda quando você pede desculpas, você pede pro dono de qualquer forma - às vezes as pessoas fogem assustadas, porque elas não entendem que podemos realmente estar nos sentindo mal pelo que fizemos, mas pelo menos Deus entende quando pedimos perdão. Mas, nós também somos criaturas, filhos na verdade, dele, então nós também experimentamos do cuidado dele quando somos machucados.
Tanto erros como dor são fundamentais na formação do caráter cristão, são duas coisas que, por mais que não sejam agradáveis, nos ensinam muito. Os erros nos ensinam que somos humanos que precisam da Graça e do perdão do Pai, a dor nos ensina que somos frágeis e precisamos da graça de outro modo - pra nos curar, através do amor dele. Ou seja, ambos nos ensinam de maneiras completamente diferentes a exata mesma lição: Precisamos dele e da graça dele. Qualquer que seja o papel que desempenhamos, precisamos dele.
Então, estar na vida de alguém de qualquer forma - como conhecido, colega, amigo, namorado, noivo, marido - é um grande conforto saber que o outro é cristão, porque sabemos que através de Deus, desempenhando qualquer um dos papéis, nós estamos ajudando na formação do caráter do outro, ajudando a torná-lo mais santo.
Mas há uma grande diferença em como você ajuda a formar esse caráter mais santo. Há um abismo de diferença entre você estar ensinando a pessoa e juntos vocês estarem aprendendo através de amor e perdão de Deus e um para com ao outro, ou você estar ferindo a pessoa e forçando ela a se refugir em Deus e ter que exercitar o perdão ainda que a situação seja extremamente injusta.
No fim das contas, estando em um relacionamento com alguém que você sabe que busca Deus em primeiro lugar, você pode ficar tranquilo porque essa pessoa está se tornando mais santa todos os dias, e você certamente está vivendo um propósito e desempenhando um papel nesse processo de transformação. O problema é que existe uma enorme diferença entre estar cumprindo a vontade de Deus como Judas ou como João.
[Um pequeno texto elaborado um dia passeando no metrô de São Paulo a caminho da igreja, espero que tenha algo de bom!]