sexta-feira, 8 de março de 2013

Wake up call

O meu único desejo quando morrer é que tudo o que puder ser aproveitado pra prolongar a vida de outra pessoa ou melhorar a qualidade da vida desta, que seja aproveitado. Depois, com a carcaça, podem cremar, podem botar plantinhas pra crescerem, podem levar pra um laboratório pra ciência, não importa. Não serei mais eu. E, aliás, quem velar meu corpo, eu volto pra puxar o pé de noite - não sou mais eu.

Hoje fui a um laboratório de anatomia e museu, estudei, analisei, desenhei, fiz de tudo, mas é agora que - banho tomado, formol lavado - estou tendo uma chance de ponderar e digerir tudo. Não foi a primeira vez que vi pessoas mortas nem creio que tenha sido a última, mas isso sempre mexe comigo. Eu fico pensando no enorme número de indigentes lá. Pessoas que o mundo não sentiu falta.
Eu fico pensando porque eu penso no que aquelas pessoas já foram - vivas, amadas. Quando seguro um cérebro, penso que aquilo já conteve a personalidade, cognição, inteligência, sonhos de alguém. Alguém já usou um desses para fazer uma oração, para se emocionar, para se enraivescer, pensar - exatamente como eu tenho o privilégio de estar fazendo pra escrever esse texto. E eu passo aqueles breves instantes pensando.
É inevitável pensar - e eu? O que eu estou fazendo? E as outras pessoas, o que estavam fazendo pra esse sujetio acabar assim? Será que se eu falar sobre Jesus essa pessoa vai sair das ruas, não vai mais fugir da polícia e acabar assim? Será que se eu der uma ponta de esperança ela vai voltar pra família?
Praqueles, não posso fazer muito. Mas tem outras 7 bilhões de pessoas mundo a fora, e grande parte do tempo vivo tudo pra satisfazer a mim mesma, com o foco nos meus sonhos, nas minhas emoções. Mas e os outros? Do que eles precisam? Como vão lembrar de mim? O que eu estou fazendo com o tempo precioso que Deus me deu, meus poucos anos vagando em um planeta, quiçá de milhões de anos? Não está na hora de fazer algo mais útil, algo que possa salvar uma alma humana em vez de só ficar focando nos probleminhas e bobagens cotidianos que consomem a maior parte da minha energia?

Está na hora de acordar, ou posso morrer de outro jeito - morrer por dentro. E isso é infinitamente pior que só morrer por fora.

"Pois de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro mas perder sua própria alma?"

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