Duas tarefas muito importantes na ciência são a análise e interpretação de dados. Involuntariamente, eu pareço estar fazendo isso, criando alguns padrões malucos na minha cabeça na tentativa de separar o mundo em categorias, classes, cada grupo com suas características.
Um desses padrões que tenho observado é via compartilhamentos no facebook, e até percebi e comentei disso antes de, de fato, ponderar a respeito. Então cá estou eu, ponderando.
Por causa de trabalhar com crianças no acampamento, tenho elas no meu facebook e, portanto, recebo seus compartilhamentos na minha página inicial. Os meninos dificilmente compartilham muita coisa, geralmente são piadas ou referências ao futebol, pequenas bobagens, enquanto as meninas enchem - lotam mesmo - minha página de imagens românticas, fofas com frases sobre amor eterno, sobre provar amor todos os dias, sobre fidelidade, sobre 'esperar pelo que Deus tem preparado pra você', etc e tal. São umas frasesinhas de efeito bobocas sobre príncipes encantados e coisas que elas nem começam a compreender, a única coisa que, de fato, compreendem é os efeitos das inundações de hormônios precoce, e pensam que qualquer bobagem é aquele tal 'amor' que as suas histórias de princesas contam. Histórias de dependência, histórias de finais felizes, e, a maior parte do tempo, histórias de mentiras, ilusões.
Bem, daí chegamos ao grupo das meninas com seus dezesseis anos, seus posts em geral (repito, em geral, não necessariamente) começam a mudar. São sobre como o sofrimento as tornou mais fortes, mais frias, mas inteligentes e espertas. Sobre como não vão mais correr atrás, sobre como cansaram de amar, sobre como 'é melhor dormir porque amar é f*da e comer engorda'. Parece ser uma série de anos de ceticismo quanto ao amor, e atêm-se quase exclusivamente ao aspecto físico do gostar, quando atêm-se a isso.
Daí, chegamos aos vinte e poucos anos, em que ainda há umas esperançosas com imagens fofas, outras conformadas compartilhando imagens e piadas de forever alone, outras mandando a sociedade para o inferno e outras aceitando qualquer coisa, seja príncipe, seja vilão. E assim reduzem-se aos poucos os posts no facebook de acordo com que elas se encontram na vida: seja em um marido, seja no trabalho, nos estudos, seja onde for.
É peculiar esse processo cíclico, principalmente porque tenho minhas dúvidas se as pessoas que falam tanto de amor já o sentiram. Com o mesmo suspiro que você diz 'eu te amo' pra alguém, você diz 'eu amo aqueles sapatos' ou 'eu amo o meu carro'. Parece que o 'amo' que grande parte do tempo usamos, é o da coisificação do ser humano, não que personificamos as coisas.
Todos tornam-se coisas, substituíveis. As palavras tornam-se vazias, e ficamos a nos perguntar: aquele amor de que falam nossos avós, aciãos, ou até tios e talvez pais, será que está em extinção? Será que o conceito social que nos é ensinado do que é o amor não mudou ao longo dos anos? Não estamos confundindo as coisas e as pessoas?
É quase que como se estivéssemos perdendo nossa capacidade de identificar exatamente o que sentimos, naquela ansiedade toda de 'isso é bom, se é bom, deve ser amor', pode até ser, mas não necessariamente esse tipo de amor. O amor que vejo nos olhos da minha vó quando ela fala de quando meu vô andou de bicicleta atrás do ônibus em que ela estava porque ele não tinha dinheiro para duas passagens. O amor que a gente ouve tanto falar, que escreve histórias bonitas e de finais felizes. O amor que nunca desiste, altruísta, que não quer o que não tem, que não é esnobe, que não tem mente soberba, que não se impõe, não perde as estribeiras, não julga, não festeja quando os outros rastejam, tem prazer na verdade, tolerante. Confia em Deus, sempre procura o melhor, nunca olha para trás, mas prossegue até o fim.
O sentimento mais comentado no mundo, mas menos sentido também.
Oi, eu leio seu blog faz um tempo, e acho que você escreve coisas realmente do coração.
ResponderExcluirEu nunca disse as três palavras mágicas, nem pra minha mãe. Dizer isso virou tão banal que eu tenho medo de dizer isso pra alguém sendo mentira.
Claro, outro motivo é que eu tendo a ser meio fechada pra essas coisas, mas me esforço pra mostrar o quanto me importo com os outros.
Mas, realmente, o amor não é simplesmente gostar do outro, é também querer a felicidade do outro, não importa onde, e evoluir junto com a pessoa. Isso, parece que muitos esqueceram, e outros nem aprenderam.
Olá Soph-chan!
ResponderExcluirPuxa, realmente é bastante animador que há leitores por aí que não lêem minhas bobagens puramente por me conhecer, mas por realmente se interessarem.
Conheço bem esse receio de dizer para alguém que o(a) amamos, e acho que é bastante natural quando nossa concepção difere da banalização que a sociedade construiu ao longo dos anos, mas eu acho que quando a gente realmente ama, nem precisa falar, nossas ações e atitudes demonstram isso.
Muito obrigada pelo comentário, você não tem idéia como isso me anima para continuar me dedicando ao blog na rotina louca que tenho vivido!