Minhas viagens de ônibus sempre me deixam propensas à reflexão. Talvez seja o movimento estático, talvez sejam as pessoas.
A história da vez foi ontem, entrei no ônibus e sentei na minha poltrona. Fiquei com receio de mais pessoas estranhas sentarem-se perto de mim como usualmente acontece, mas minha alegria foi imensa quando uma mulher veio com o filho de uns 10 anos, ela sentou-se ao meu lado e ele na poltrona do outro lado do corredor.
Vi que ele começou a perguntar porque não podia sentar-se com ela, e ela pacientemente explicou que não havia outras poltronas livres e que ele teria que viajar assim. Como estava no celular, não falei nada inicialmente, mas em seguida me ofereci para trocar de lugar com ele pra que ficasse perto da mãe.
Puxa vida, a mãe ficou tão feliz, agradeceu tanto... e graciosamente recusou a oferta. Peculiar.
Ele falou durante a viagem sobre os amiguinhos, sobre o xbox que fulaninho ganhou e o jogo de beltrano... e a mãe pacientemente ouviu, mas não comentou muito. Sua paciência visivelmente esvairava-se.
Estávamos chegando na rodoviária, elementarmente lotada devido ao feriado, e ele exclamou "Olha mãe! Parece que são josé inteeeeiro veio passear em São Paulo!" "Não, filho, nem todo mundo é de São José..." "Então tem gente do país inteeeeeeeeiro que veio pra cá também!".
Inevitavelmente, comecei a rir, e a mãe começou a rir em desânimo: "ai, que exagero!" eu só disse "é criança, não tem muito o que fazer!".
E fiquei pensando... se estivesse no lugar da mãe, isto é, cansada após um longo dia de trabalho e viajando para outra cidade com uma criança de 10 anos que não te deixa dormir... creio que meu desânimo teria sido o mesmo, simplesmente porque é muito mais fácil ser impaciente, grosso, mal educado com as pessoas mais próximas de nós.
As pessoas um pouco mais distantes podem ter manias, mas são manias que vemos uma vez ou outra e não tem problema. Elas nos estouram a paciência, mas depois voltamos para casa e esquecemos delas. As pessoas próximas não: é quando chegamos em casa, cansados, estressados e com a paciência limítrofe que encontramos elas. É quando queremos estar sozinhos que eles querem falar sobre seu dia e seus eventos. É quando queremos nos desligar do mundo que eles querem nos religar ao mundo deles.
E assim os relacionamentos próximos se desgastam, e saem brigas, discussões, mas... do mesmo jeito que muitas vezes achamos os outros insuportáveis, talvez até nós sejamos mais insuportáveis. Da mesma forma que há esforço de nossa parte, há um esforço astronômico da outra.
Para os outros, somos o Outro, esse difícil.
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