Desde a aula de Anatomia, minha cabeça tem matutado muito quanto à morte, bater as botas, ir dessa para a melhor, ir viajar para sempre... escolham o eufemismo favorito.
Desde que vi um cara aberto de olhos fechados que hoje não mais tem um nome, apenas um número estou com pensamentos pairando pela mente sobre: Quem era esse? O que ele fazia? Por que ninguém veio procurá-lo? Ele fez algo contra a família para que nem sentissem sua falta após sua morte?
Nada além de suposições
Fiquei pensando se quando eu morrer serei uma dessas indigentes, ou se posso morrer tendo feito diferença na vida de alguém.
Não ligo para virar uma pilha de ossos, não ligo de entrar em decomposição - nada mais natural como virar comida de vermes e insetos- mas ligo muito para se só serei um ser supérfulo ao planeta. Alguma coisa quero deixar aqui.
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Na quinta feira após a aula de anatomia tive aula de Barroco, em que tinha um trecho de uma pregação do Padre Antônio de Vieira sobre isso. Coincidência? Provavelmente. Interessante? Extremamente!
"O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem‑na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. — Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem‑no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder‑vos‑ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es? Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es? Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz‑me, e supõe que sou homem: logo não sou pó. O homem é uma substância vivente, sentitiva, racional. O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. "
[Padre Antonio de Vieira - Sermão da Quarta-feira de Cinzas]
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