Talvez
devido ao maior acesso à informação - consequência bastante relacionada à
internet - nos últimos anos a ciência tem se popularizado bastante. Nas
conversas sempre se ouve um "li uma pesquisa que...",
"cientistas disseram que..." com fatos 'científicos' pra todos os
lados. Páginas de ciência se popularizaram, programas desse tipo estão com
públicos progressivamente maiores. Contudo me pergunto o quanto
essa popularização de fatos ‘de que se ouviu falar’ é de fato boa.
Li
esses dias do astrofísico Neil DeGrasse Tyson a frase “A coisa ótima da ciência
é que ela é verdade, quer você acredite ou não”; não sei o contexto em que foi
falado, contudo se analisarmos a frase avulsa, como foi divulgada, ela pode ser
um pouco indigesta.
Embora
eu trabalhe com ciência e ache interessantíssima a busca por respostas, fiquei
grandemente incomodada pela afirmação, porque a ciência – ao contrário da crença
popular – não tem todas as respostas. Existem fenômenos que não podemos explicar,
e existem fenômenos que temos mais que uma possível explicação. Existe na
física um grande embate, por exemplo, entre cientistas que defendem a teoria de
cordas e outros que acreditam na teoria quântica – e aqui peço perdão aos que
entendem mais do assunto que eu se estiver falando uma bobagem. Até onde saiba,
ambas são teorias científicas, mas não se sabe ao certo qual está correta. E,
para uma teoria estar correta, outra necessariamente deve estar errada – logo,
uma das ‘teorias científicas’ é uma mentira. Ou seja, a ciência não contém
apenas a verdade. Em termos mais simples, a boa ciência nunca assume que contém
apenas a verdade e toda a verdade, senão não há sentido em continuar fazendo
ciência.
É
isso que, pessoalmente, gosto da ciência: não existe um ponto de estagnação.
Sempre há algo a ser investigado e descoberto; é o fato que não podemos
conhecer todos os fatos e toda a verdade que é estimulante ao trabalho e que
permite que, a qualquer momento, seja feita uma correção. Para ser cientista,
você primeiramente tem que ser humilde e admitir que não sabemos muita coisa,
Estamos
substituindo aquilo que é buscado pelo meio pelo qual se busca: Buscamos a
verdade, usamos a ciência como uma ferramenta para tal. Mas estamos de repente
dizendo que a ciência é a verdade e que não existem outros meios! Assumimos que
toda a lógica, matemática, são irrefutáveis. Mas existem diversos tipos de
lógica, existem muitos meios realizar cálculos, é só olhar para toda a
antropologia cultural, todo o trabalho feito por ancestrais. Seria muito pouco científico considerar uma maneira (ou
seja, uso do método científico ocidental, por exemplo) só de lidar com
problemas.
Se
considerarmos a cor branca como sendo a verdade e a cor preta como sendo a
ignorância, podemos considerar a ciência a nossa análise para determinar se
algo está mais próximo do branco (algo conhecido e plenamente compreendido) ou
da cor preta. Contudo, não sabemos ainda o que é a verdade absoluta para termos
como referência e comparar com aquilo que temos, apenas sabemos pela ciência se
algo está em um tom de cinza mais escuro ou mais claro (e mesmo nessa
classificação é muito fácil nos equivocarmos).
Acredito
que aqui a função da ciência e da religião tenha uma intersecção, pois ambas
buscam a verdade, e podem encontrar respostas convergentes (ou divergentes
também). É por isso que acredito que seja difícil ser fanático por qualquer uma
das duas coisas: existem muitas religiões, e muitas delas contém a verdade,
embora seja impossível que todas elas
sejam a verdade simultaneamente; uma pode conter a verdade, mas dadas as
divergências entre elas, para esta ser verdadeira, as demais devem ser falsas
em algum nível. De maneira semelhante, a ciência pode ter também a verdade, mas
nem todas as teorias podem ser a verdade simultaneamente.
Por
isso me incomoda profundamente a maneira como as pessoas eliminam uma à outra
como ferramentas nessa busca pela verdade, quando ambas poderiam trabalhar
juntas (e por muito tempo na história da humanidade, de fato trabalharam
juntas). Dizer que apenas a evolução pode ter nos trazido até aqui embora haja
fortes evidências contrárias por causa da recusa em aceitar que talvez as
evidências apontem para um Criador inteligente, é uma bobagem; é fazer
exatamente aquilo de que religiosos são acusados: fechar a cabeça e interpretar as evidências
de maneira a justificar suas crenças.
A
ciência tornou-se a nossa nova religião: dizemos que ela é a verdade absoluta
em si, mas ela exige também fé. Defendemos ela e refutamos outra possibilidade,
mesmo que não seja mais conveniente. Vidas são sacrificadas em nome da ciência
(a experimentação nazista de 1940 e a experimentação animal que permeia até os
dias de hoje que o digam); usamos a ciência para tentar conseguir a vida
eterna, e queremos usá-la para obter respostas a respeito da origem e funcionamento do universo. Usamos
ela para obter o que queremos, mas com experimentos em vez de orações. Nós nos
tornamos os deuses vestindo jalecos brancos.
No
final do dia, precisamos de algum nível de fé para confiar em conceitos
abstratos como lógica, matemática, raciocínio, certo e errado, ética e moral –
são questões que não se pode provar, pois prová-las implicaria em usá-las na ‘dedução’.
Simplesmente são ou não são. Então agradeceria muito se a busca fosse pela
verdade, e não pela ciência, e que cientistas e a população entendessem que não
são deuses. A busca pela verdade tem o seu valor, mas quando o valor passa a
estar no meio pelo qual se busca e não no objeto buscado, é porque tem algo
profundamente errado no método usado.
