Pra um povo que faz festa sem motivo, canta e
dança no carnaval só porque falta 40 dias para a Páscoa, e é conhecido como um
dos países mais felizes do mundo, tenho certeza que os turistas chegando no
Brasil – especialmente no caos da cidade de São Paulo – estão sendo
surpreendidos com um país tão surpreendentemente infeliz. Contudo, não estou
fazendo essa pequena postagem pra listar valores e números relacionados às
promessas que não foram cumpridas de infraestrutura do país para receber o
evento, nem sobre os números de pessoas que foram desabrigadas por causa das
construções, das mortes de operários nas construções feitas às pressas, por
causa dos desvios de verba, por causa da FIFA e o jeito que ela funciona, sobre
leis criadas para proteger a população que foram revogadas pra proteger os
patrocinadores da copa do mundo. Isso já tem aos baldes pela internet: videos,
fotos, textos, com dados muito mais precisos e confiáveis que qualquer coisa
que eu poderia colocar aqui, e certamente com muito mais humor também.
Estou escrevendo aqui porque a minha proposta
inicial ao criar o blog era falar a respeito de coisas que eu gostava, ou
achava interessantes (leia-se o nome, Que J’adore, ou seja, que eu adoro). E
tinha uma única coisa que eu – e mais uma nação de pesquisadores, cientistas,
acadêmicos – estavam torcendo pra que acontecesse na copa, uma coisa que me
deixou feliz. Pela primeira vez a ciência brasileira receberia destaque em um
evento internacional sediado no país. Pela primeira vez veríamos o trabalho
feito pra ajudar aqueles que não podem andar a voltar a andar sendo visto: a
Engenharia Biomédica estaria em evidência. Sim, nós sabemos fazer mais que
futebol.
Mas um gol contra nos recebeu, e não foi o do
Brasil com a Croácia, foi na própria abertura da copa. Queríamos ver um
voluntário usando um exoesqueleto para um paraplégico poder andar e chutar uma
bola, com tecnologia que todos estão ansiosíssimos pra ler a respeito nas
publicações. Mas câmera estava mais ocupada filmando corpos malhados com roupas
pequenas demais de cantoras dublando uma música pra filmar isso e transmitir.
Ironicamente, o projeto Andar de Novo me fez me perguntar como o Brasil caminha
desse jeito, e acho que, mais que a bola, chutaram o balde na irreverência e
superficialidade na transmissão. Não porque alguém ‘esqueceu’ de filmar e
transmitir, mas porque essa é a cultura que olha mais peitos e bundas do que
pra ciência, que olha mais pros patrocinadores do que pro valor intrínseco de
um ser humano – seja desvalorizando a vida nos acidentes, seja desvalorizando a
dignidade ao enxotá-los de suas casas, seja desvalorizando seus impostos
investindo em tantas futilidades, seja quando a ciência e a vida de inúmeras
pessoas pode ser afetada positivamente atráves de uma pesquisa envolvendo
diversos pesquisadores de aproximadamente 21 países mas nada disso recebe
atenção - e tudo isso é indicador de
problemas morais muito mais sérios do que onde a câmera estava.
Vejo muita gente se revoltando com o fato que a
ciência dos brasileiros dificilmente é feita no Brasil, dizendo que as pessoas ‘abandonam
o Brasil’, mas é por atitudes como essa que eu entendo os cientistas que vão
pra fora pra trabalhar; o próprio Miguel Nicolelis, que encabeçou o projeto
Andar de novo, é um pesquisador brasileiro mas, embora tenha um instituto aqui
no Brasil em Natal, faz a maior parte da sua pesquisa na universidade de Duke,
nos Estados Unidos.
Como você vai ser um cientista em um país onde
não existe essa profissão – só dá pra fazer pesquisa se você também é professor?
Como você vai pesquisar quando querem implementar uma lei que instituições
públicas não podem comprar literatura de origem estrangeira? Como você vai
fazer ciência quando todos os produtos, equipamentos, soluções necessárias têm
impostos imensuráveis que encarecem o conhecimento? E por que raios você vai
trazer de volta pro Brasil o produto da sua pesquisa que pode mudar inúmeras
vidas humanas no futuro se você poderia ser muito mais facilmente alguém no
holofote dançando e dublando depois de algumas cirurgias plásticas e academia?
Aparentemente, é mais fácil para os cientistas
fazer um paraplégico andar antes de conseguir responder a essas perguntas.
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