quinta-feira, 12 de junho de 2014

O gol do Brasil foi contra a Ciência, não a Croácia

Pra um povo que faz festa sem motivo, canta e dança no carnaval só porque falta 40 dias para a Páscoa, e é conhecido como um dos países mais felizes do mundo, tenho certeza que os turistas chegando no Brasil – especialmente no caos da cidade de São Paulo – estão sendo surpreendidos com um país tão surpreendentemente infeliz. Contudo, não estou fazendo essa pequena postagem pra listar valores e números relacionados às promessas que não foram cumpridas de infraestrutura do país para receber o evento, nem sobre os números de pessoas que foram desabrigadas por causa das construções, das mortes de operários nas construções feitas às pressas, por causa dos desvios de verba, por causa da FIFA e o jeito que ela funciona, sobre leis criadas para proteger a população que foram revogadas pra proteger os patrocinadores da copa do mundo. Isso já tem aos baldes pela internet: videos, fotos, textos, com dados muito mais precisos e confiáveis que qualquer coisa que eu poderia colocar aqui, e certamente com muito mais humor também.
Estou escrevendo aqui porque a minha proposta inicial ao criar o blog era falar a respeito de coisas que eu gostava, ou achava interessantes (leia-se o nome, Que J’adore, ou seja, que eu adoro). E tinha uma única coisa que eu – e mais uma nação de pesquisadores, cientistas, acadêmicos – estavam torcendo pra que acontecesse na copa, uma coisa que me deixou feliz. Pela primeira vez a ciência brasileira receberia destaque em um evento internacional sediado no país. Pela primeira vez veríamos o trabalho feito pra ajudar aqueles que não podem andar a voltar a andar sendo visto: a Engenharia Biomédica estaria em evidência. Sim, nós sabemos fazer mais que futebol.
Mas um gol contra nos recebeu, e não foi o do Brasil com a Croácia, foi na própria abertura da copa. Queríamos ver um voluntário usando um exoesqueleto para um paraplégico poder andar e chutar uma bola, com tecnologia que todos estão ansiosíssimos pra ler a respeito nas publicações. Mas câmera estava mais ocupada filmando corpos malhados com roupas pequenas demais de cantoras dublando uma música pra filmar isso e transmitir. Ironicamente, o projeto Andar de Novo me fez me perguntar como o Brasil caminha desse jeito, e acho que, mais que a bola, chutaram o balde na irreverência e superficialidade na transmissão. Não porque alguém ‘esqueceu’ de filmar e transmitir, mas porque essa é a cultura que olha mais peitos e bundas do que pra ciência, que olha mais pros patrocinadores do que pro valor intrínseco de um ser humano – seja desvalorizando a vida nos acidentes, seja desvalorizando a dignidade ao enxotá-los de suas casas, seja desvalorizando seus impostos investindo em tantas futilidades, seja quando a ciência e a vida de inúmeras pessoas pode ser afetada positivamente atráves de uma pesquisa envolvendo diversos pesquisadores de aproximadamente 21 países mas nada disso recebe atenção -  e tudo isso é indicador de problemas morais muito mais sérios do que onde a câmera estava.
Vejo muita gente se revoltando com o fato que a ciência dos brasileiros dificilmente é feita no Brasil, dizendo que as pessoas ‘abandonam o Brasil’, mas é por atitudes como essa que eu entendo os cientistas que vão pra fora pra trabalhar; o próprio Miguel Nicolelis, que encabeçou o projeto Andar de novo, é um pesquisador brasileiro mas, embora tenha um instituto aqui no Brasil em Natal, faz a maior parte da sua pesquisa na universidade de Duke, nos Estados Unidos.
Como você vai ser um cientista em um país onde não existe essa profissão – só dá pra fazer pesquisa se você também é professor? Como você vai pesquisar quando querem implementar uma lei que instituições públicas não podem comprar literatura de origem estrangeira? Como você vai fazer ciência quando todos os produtos, equipamentos, soluções necessárias têm impostos imensuráveis que encarecem o conhecimento? E por que raios você vai trazer de volta pro Brasil o produto da sua pesquisa que pode mudar inúmeras vidas humanas no futuro se você poderia ser muito mais facilmente alguém no holofote dançando e dublando depois de algumas cirurgias plásticas e academia?

Aparentemente, é mais fácil para os cientistas fazer um paraplégico andar antes de conseguir responder a essas perguntas.

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