terça-feira, 17 de junho de 2014

A Religião da Ciência

Talvez devido ao maior acesso à informação - consequência bastante relacionada à internet - nos últimos anos a ciência tem se popularizado bastante. Nas conversas sempre se ouve um "li uma pesquisa que...", "cientistas disseram que..." com fatos 'científicos' pra todos os lados. Páginas de ciência se popularizaram, programas desse tipo estão com públicos progressivamente maiores. Contudo me pergunto o quanto essa popularização de fatos ‘de que se ouviu falar’ é de fato boa.
Li esses dias do astrofísico Neil DeGrasse Tyson a frase “A coisa ótima da ciência é que ela é verdade, quer você acredite ou não”; não sei o contexto em que foi falado, contudo se analisarmos a frase avulsa, como foi divulgada, ela pode ser um pouco indigesta.
Embora eu trabalhe com ciência e ache interessantíssima a busca por respostas, fiquei grandemente incomodada pela afirmação, porque a ciência – ao contrário da crença popular – não tem todas as respostas. Existem fenômenos que não podemos explicar, e existem fenômenos que temos mais que uma possível explicação. Existe na física um grande embate, por exemplo, entre cientistas que defendem a teoria de cordas e outros que acreditam na teoria quântica – e aqui peço perdão aos que entendem mais do assunto que eu se estiver falando uma bobagem. Até onde saiba, ambas são teorias científicas, mas não se sabe ao certo qual está correta. E, para uma teoria estar correta, outra necessariamente deve estar errada – logo, uma das ‘teorias científicas’ é uma mentira. Ou seja, a ciência não contém apenas a verdade. Em termos mais simples, a boa ciência nunca assume que contém apenas a verdade e toda a verdade, senão não há sentido em continuar fazendo ciência.
É isso que, pessoalmente, gosto da ciência: não existe um ponto de estagnação. Sempre há algo a ser investigado e descoberto; é o fato que não podemos conhecer todos os fatos e toda a verdade que é estimulante ao trabalho e que permite que, a qualquer momento, seja feita uma correção. Para ser cientista, você primeiramente tem que ser humilde e admitir que não sabemos muita coisa,
Estamos substituindo aquilo que é buscado pelo meio pelo qual se busca: Buscamos a verdade, usamos a ciência como uma ferramenta para tal. Mas estamos de repente dizendo que a ciência é a verdade e que não existem outros meios! Assumimos que toda a lógica, matemática, são irrefutáveis. Mas existem diversos tipos de lógica, existem muitos meios realizar cálculos, é só olhar para toda a antropologia cultural, todo o trabalho feito por ancestrais. Seria muito pouco científico considerar uma maneira (ou seja, uso do método científico ocidental, por exemplo) só de lidar com problemas.
Se considerarmos a cor branca como sendo a verdade e a cor preta como sendo a ignorância, podemos considerar a ciência a nossa análise para determinar se algo está mais próximo do branco (algo conhecido e plenamente compreendido) ou da cor preta. Contudo, não sabemos ainda o que é a verdade absoluta para termos como referência e comparar com aquilo que temos, apenas sabemos pela ciência se algo está em um tom de cinza mais escuro ou mais claro (e mesmo nessa classificação é muito fácil nos equivocarmos).
Acredito que aqui a função da ciência e da religião tenha uma intersecção, pois ambas buscam a verdade, e podem encontrar respostas convergentes (ou divergentes também). É por isso que acredito que seja difícil ser fanático por qualquer uma das duas coisas: existem muitas religiões, e muitas delas contém a verdade, embora seja impossível que todas elas sejam a verdade simultaneamente; uma pode conter a verdade, mas dadas as divergências entre elas, para esta ser verdadeira, as demais devem ser falsas em algum nível. De maneira semelhante, a ciência pode ter também a verdade, mas nem todas as teorias podem ser a verdade simultaneamente.
Por isso me incomoda profundamente a maneira como as pessoas eliminam uma à outra como ferramentas nessa busca pela verdade, quando ambas poderiam trabalhar juntas (e por muito tempo na história da humanidade, de fato trabalharam juntas). Dizer que apenas a evolução pode ter nos trazido até aqui embora haja fortes evidências contrárias por causa da recusa em aceitar que talvez as evidências apontem para um Criador inteligente, é uma bobagem; é fazer exatamente aquilo de que religiosos são acusados:  fechar a cabeça e interpretar as evidências de maneira a justificar suas crenças.
A ciência tornou-se a nossa nova religião: dizemos que ela é a verdade absoluta em si, mas ela exige também fé. Defendemos ela e refutamos outra possibilidade, mesmo que não seja mais conveniente. Vidas são sacrificadas em nome da ciência (a experimentação nazista de 1940 e a experimentação animal que permeia até os dias de hoje que o digam); usamos a ciência para tentar conseguir a vida eterna, e queremos usá-la para obter respostas a respeito da origem e funcionamento do universo. Usamos ela para obter o que queremos, mas com experimentos em vez de orações. Nós nos tornamos os deuses vestindo jalecos brancos.

No final do dia, precisamos de algum nível de fé para confiar em conceitos abstratos como lógica, matemática, raciocínio, certo e errado, ética e moral – são questões que não se pode provar, pois prová-las implicaria em usá-las na ‘dedução’. Simplesmente são ou não são. Então agradeceria muito se a busca fosse pela verdade, e não pela ciência, e que cientistas e a população entendessem que não são deuses. A busca pela verdade tem o seu valor, mas quando o valor passa a estar no meio pelo qual se busca e não no objeto buscado, é porque tem algo profundamente errado no método usado. 

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