quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Não cabe na dispensa

A vida definitivamente é extremamente dinâmica - se não fosse, a morte já a teria vencido em todas as formas. Contudo, o fato de ela ser adaptável normalmente implica que haverá mudanças que exigirão essa adaptação, desde o rápido desenvolvimento de um bebê que em 10 meses passa de uma bolinha cor de rosa que dorme 16 horas por dia para uma pequena criatura que aprende a se locomover e falar, até as mudanças que acontecem ao longo das nossas vidas – pessoas que ficam pra trás, etapas que terminam, outras etapas começam.
Contudo, as mudanças só exprimem sua total capacidade maléfica ou benéfica de nos moldar uma vez que as compreendemos. Um bebê aprende a andar porque é isso que ele faz, ele imita. Ele não quer ficar eternamente deitado quando ele pode explorar um mundo mais explêndido que seu berço. Mas quanto mais crescemos, aprendemos e observamos, mais queremos ficar presos aos nossos berços – aos nossos estados confortáveis onde nossas necessidades estão sendo satisfeitas. Não queremos aquilo que desconhecemos.
Quanto mais velha vou ficando, percebo que ao final de cada etapa um novo sentimento se instala, diferente daquele que se instalava antes. Antes, quando terminei a pré-escola, a quarta série, a oitava série, eu lembro da sensação de euforia e de expectativa pelo futuro, ansiedade por seguir em frente – mesmo que eu não pensasse muito sobre o que estava ‘em frente’.
Mas percebi ao observar alguns colegas se formando, ao ver novas oportunidades se manifestando de repente, que em vez de a euforia estar com a ansiedade, a euforia está de mãos dadas com a saudade. Me encontro antecipando com medo o futuro, me prendendo com amor ao passado e ainda tentando viver o presente nas horas vagas. Quero prender o que tenho com o que posso ter nas minhas mãos e segurar tudo com toda a minha força pra que não precise soltar de nada e possa levar tudo adiante. Mas posso? Acontece que a vida não nos permite levar malas, nela só cabe a bagagem de mão, e preferencialmente nem isso.
A vida não espera pra você fazer as malas, se despedir ou se decidir. Ela vai. Você pensou que fizesse parte dela, que fosse uma peça fundamental nela... mas não é. É por isso que ela existe e persiste, porque ela segue adiante no seu próprio compasso, e quem quiser que acompanhe. Se ela sente saudade? Gosto de acreditar que sim. Gosto de acreditar que ela vê as coisas de um jeito diferente, que com a experiência ela aprendeu a ver as coisas entendendo mais que a gente. Entendendo que aquilo que importa não é um fardo, aquilo que deve ser guardado não precisa ser empacotado ou despedido. Aquilo que vale à pena a gente carrega na gente, e não tem como prender nas mãos aquilo que só cabe no coração. 


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O semideus e o maltrapilho: A esquizofrenia que habita em mim

Ultimamente tenho vivido bastante no modo automático - sabe aquela época em que você vive um dia de cada vez, absorvido pela rotina, prazos e obrigações? Você esquece de muitos aspectos da vida que não envolvem o imediato, ou, mesmo que perceba que tem algo errado em uma dessas outras áreas, continua do jeito que dá porque tem que dar conta de tudo.
O grande problema é quando tem algo errado e continuamos no modo automático por necessidade, ainda que você tenha 'inflamações' ou problemas que povocam dor, você toma um analgésico e continua - tanto no sentido literal como metafórico. O grande problema é que analgésicos não resolvem problemas, meramente os mascaram tratando os sintomas em vez de a causa. No final, quando você finalmente consegue parar, que você percebe todo o estrago que foi feito, ou tudo o que aconteceu no seu período de ausência de si mesmo.
Minha irmã certa vez disse que vivemos as coisas pra depois processá-las. Quando escrevemos, desenhamos, produzimos qualquer tipo de arte, refletimos, temos epifanias, normalmente naquele momento você não está com o sentimento que provocou aquilo - a emoção excessiva te impede de produzir qualquer coisa de boa qualidade -, mas você produz essas coisas depois, por consequência das coisas que você viveu. Produzimos, pensamos, refletimos sobre as memórias, não as circunstâncias instantâneas.
É por isso que só agora - no meu brevíssimo período antes de voltar à loucura - estou tomando um tempo pra refletir e ponderar sobre as coisas que tenho observado e vivido, que tem me mudado; chego à conclusão de que o modo automático é útil, mas a longo prazo é bem pouco prático. É difícil entender exatamente as mudanças que se passaram em si, saber exatamente o que você passou a ser depois que as mudanças se completaram. Parece tudo um emaranhado confuso, sem pé nem cabeça. Você se percebe se comportando de maneira diferente e bastante particular, mas ainda se desconhece. Até produzi um breve pensamento esses dias sobre isso:

"Acredito que essa seja uma das muitas belezas da contradição humana: estar em eterna transformação dinâmica enquanto nos iludimos pensando ser estáticos. Contudo, nossa real condição evidencia-se ao nos depararmos com a emenda entre o ser antigo e o ser novo, o breve período de coexistência paradoxal de ambos quando a metamorforse ainda está incompleta; o breve instante de perplexidade ante às mudanças que sabemos que estão acontecendo, mas não sabemos bem para onde irão convergir."
Estou me estranhando muito, porque percebo cada vez mais que a minha imagem de mim mesma se mostra muito diferente daquilo que pareço ser. A imagem que quero projetar tem um abismo de ilusões, mentirinhas e ignorâncias cotidianas entre aquilo que sou e quero me fazer parecer ser, sobre meu caráter, minhas escolhas, minha fé, minha visão de mundo. 
Contudo, quando conheço os outros, fico esperando que a imagem que eles projetam seja sincera, diferentemente da minha. Fico iludida a acreditar que todos eles são de fato perfeitos, que eles são toda a beleza que eles demonstram, todas as palavras bonitas que eles falam são mais sinceras que as minhas - e me pego com medo de que eles percebam que sou uma impostora, que me infiltrei no meio dos perfeitos sem que eles percebessem e que a qualquer momento percebam aquilo que de fato sou: mesquinha, egoísta, orgulhosa. 
Assim, apesar de conhecer minha hipocrisia, detesto a ideia de hipocrisia alheia. Acredito ela ser inadmissível, mas apenas para os outros. A minha cuido com todos os cuidados, cobrindo ela com camadas de desculpas e ilusões no subconsciente e no consciente. 
O problema é que isso gera um cotidiano de medo e insegurança, como se ao se depararem com a minha imperfeição, não mais serei aceita. E de fato, isso é bastante plausível que aconteça - contudo não por causa da imperfeição e da fragilidade, mas sim pela farsa da diferença entre a imagem projetada e a imagem real que somos, sobre as mentiras que pintei pra que todos pensassem que eram o que de fato sou.
Tudo isso, esses medos e inseguranças, acabam sendo uma grande tolice, porque todos vivemos assim, de um modo ou de outro. Dificilmente somos sinceros ao nos apresentarmos e nos mostrarmos para o outro; os pontos de realidade e pura sinceridade que os outros vêem, vêem por causa de deslizes nossos, porque em alguns instantes cansamos de ser semideuses e deixamos escapar vislumbre de fragilidade, nos permitimos sermos humanos. 
E é essa a beleza de nos relacionarmos com as pessoas a longo prazo. Quanto mais construímos os relacionamentos com as pessoas, quanto mais tempo mantemos o nosso ato, uma hora ou outra, cansamos. Desistimos dos nossos papéis: é exaustivo estar em cena por tempo demais. E é apenas quando nos deixamos ser humanos, sinceros e frágeis que nos deixamos ser amados - porque é impossível amar um semideus. O semideus fica tão distante que é inatingível. O humano é vizinho, é próximo. Nos identificamos com o humano porque lá no fundo da nossa sinceridade, sabemos que nos identificamos com ele. Sabemos que sofremos, lutamos e enlouquecemos como ele com o eterno paradoxo do ser e do projetar.
Percebemos que eticamente, moralmente, espiritualmente, emocionalmente... somos todos maltrapilhos, somos todos carentes, cada um da sua forma. E é quando conhecemos o outro maltrapilho, que nós nos reconhecemos - no sentido de conhecer a nós mesmos novamente.
É nesse momento em que percebemos nossa real condição e a real condição alheia, e percebemos que não amamos o outro menos por causa da imperfeição - talvez até o amemos mais, porque nos sentimos menos sozinhos com a nossa esquizofrenia.
A partir desse momento, em que conseguimos nos identificar, e conseguimos amar o outro, percebemos que é possível que nós sejamos amados também, mesmo na nossa imperfeição. Assim, o amor passa a ser o grande conquistador da hipocrisia, do orgulho e do medo, e nos permite deixar nossas máscaras de lado em favor da sinceridade ao finalmente nos depararmos com o fato que, se não temos nada, não temos nada a perder. E é quando amamos que temos tudo a ganhar. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Desabafos e as mentiras nossas de cada dia

Normalmente eu não escrevo desbafos longos e tediosos e compartilho com o mundo porque acho isso uma grande perda de tempo – a vida não é perfeita, a vida é difícil, e faz parte do processo natural de amadurecimento aprender que é difícil e precisamos seguir adiante. Mas chego à conclusão de que às vezes, pra poder seguir adiante, a gente precisa colocar as coisas pra fora.
Sendo uma pessoa com interesse em múltiplas áreas, um Bacharelado Interdisciplinar pra chegar até a Engenharia me parecia uma excelente ideia. Por mais que nunca fosse excelente em exatas, ainda haveria outras disciplinas que eu gostaria, e foi a essa esperança que me prendi quando ingressei no Bacharelado em Ciência e Tecnologia. Que aprenderia um pouco de tudo, podendo me aprofundar nas coisas que gostava. Contudo, percebo hoje meu equívoco nessa decisão.
Essa semana estava sentada na biblioteca com três colegas tentando fazer um relatório – todas cansadas, exaustas, de olhos vermelhos pela falta de sono (ok, eu estava descansada porque no dia antes tive um nervo pinçado por tensão e fui forçada a dormir porque sequer a rotação da minha cabeça provocava uma dor intensa e vista com halo). Estávamos sentadas quando chegou um email com o calendário estipulado para o próximo ano. Nada poderia ter preparado a gente pro baque psicológico daquele email.
Um ano atrás, tivemos uma greve de 4 meses dos professores – greve durante a qual muitos de nós continuamos na universidade fazendo pesquisa – e precisamos corrigir o calendário esse ano: porque não fazer 3 semestres em um ano? Elementarmente 2 semanas de férias são mais que o suficiente entre um semestre e outro. Estamos finalmente perto de corrigir o calendário e ansiamos com todas as forças pelas primeiras férias de fato que teremos no mês de fevereiro, quando nos é dito que as aulas serão suspensas em junho por causa da copa.
Eu pensei que fosse só eu que estivesse me sentindo no meu limite, mas aquele breve momento percebi que não. Que todas estávamos no mesmo limite. Cheias de frustração, cansaço. Nosso curso de engenharia com 4.400 horas (a maioria das universidades tem apenas 3.600 horas), que deveria formar bons profissionais, não vejo formando nada além de bons estudantes depressivos com corpos e vidas sociais em decadência.
Temos uma gama de disciplinas exorbitante, porém que todos os professores exigem o máximo. Os professores de cálculo esperam que saibamos cálculo como matemáticos, os de biologia que saibamos bioquímica como biólogos, que saibamos química como químicos. Espera, mas a ideia não era ter um pouco de contato com tudo pra escolher em que aprofundar?
Além disso, temos horas, e horas de aulas infinitas – horas que sinto sugadas da minha vida e indo pra lugar nenhum porque a maior parte do tempo não aprendo nada. Duas horas que eu poderia passar na biblioteca sentada com um livro aprendendo muito, muito mais do que em uma sala escura com um professor passando slides (que são, grande parte do tempo, uma cópia do livro) em voz monótona e eu estou distraída e cansada tentando ficar acordada nas condições deploráveis.
Eu francamente estou cansada, em todos os sentidos. Estou cansada de um sistema meritocrático que incentiva o trabalho em grupo em que um aluno suga o outro e os espertos, e não os esforçados se dão bem. Estou cansada de fazer exercícios e listas por nota (porque não temos tempo de aprender de fato), de aprender as 'receitas para solucao' em vez de os fatos. De “aprender pra esquecer” uma semana depois. Estou cansada desse conhecimento volátil que não passa de decoreba.
Estou cansada de um sistema em que os professores não entendem que somos seres humanos. É uma coisa exigir dos alunos pra que possamos crescer e sermos bons profissionais, mas ter cargas de matéria que nos faz fazer sacrifícios exorbitantes é ridículo.
O que vejo desde que entrei na universidade é a decadência do meu corpo – antes era mal estar por causa de um RU com comida de baixa qualidade, e problemas de gastrite por causa do excesso de stress e cafeína. Depois tudo vai escalando: dor nas articulações, tensões que provocam enxaquecas e travam o movimento, insônia, a insônia faz tudo piorar porque já temos poucas horas de sono pra dar conta de tudo. Relacionamentos interpessoais são sacrificados – tenho colegas que são mães, colegas que são casados, e como fica a família? Como fica a vida?
Estamos fazendo sacrifícios e mais sacrifícios, pra quê? Por status? Por um raio de um pedaço de papel com nosso nome dizendo que por causa daquilo temos valor? Então nosso valor depende de um diploma? Bem,  o status dá dinheiro, então é por dinheiro? É pra ter, possuir? Então é o que temos que define quem somos nessa sociedade estupidamente materialista? Ah, não, mas podemos estar trabalhando, pra ganhar muito dinheiro pra então sermos felizes. Como seremos felizes? A última coisa que vejo nos corredores é a felicidade. Vejo mais que tudo depressão. E mesmo se um dia pudermos descansar, não teremos mais famílias porque as sacrificamos pra estudar, trabalhar, ganhar mais. Não teremos mais saúde porque desde cedo somos submetidos a tensão, a stress. Porque nós precisamos conquistar o nosso valor. Porque nós não valeremos nada se não conseguirmos passar em Cálculo, ou Física 3 ou se não apresentarmos nosso trabalho de pesquisa em posters coloridos. Nós não teremos valor sem esbanjar nossas conquistas intelectuais e financeiras. Nós não temos valor nenhum se não temos, se não conquistamos, porque isso se tornou o que nós somos.
Estou farta dessa lógica que coloca tudo acima do valor intrínseco do ser humano. Estou cansada de de novo e de novo ter que apresentar as mesmas velhas lições de que eu tenho sim valor fora do meu curso, do meu título e da minha conta bancária – porque na mesma medida que tento me ensinar isso, o resto do mundo não mede esforços em me dizer que sou insuficiente, que eu não presto pra nada.
A publicidade inteiras que nos bombardeia, a mídia nos dizem nada menos que somos insuficientes. Você não vai ser bom se não tiver esse carro, usar esse perfume que vai te fazer arranjar alguém, ter, ter, consumir, ser – ou finja ser. Tenha a imagem que o mundo espera de você, de uma pele perfeita, de um corpo ideal. Você precisa. Precisa.

A única coisa que eu preciso é parar de pensar que eu preciso de qualquer coisa que esse mundo possa me oferecer. Eu preciso quebrar essa lógica, essa cultura de morte, infelicidade e insuficiência que mantém as engrenagens dos egos, do consumo e do excesso funcionando. Se for pra sermos alguma coisa, temos que ser um ponto fora da curva, fora do que o mundo espera. Eu cansei de tentar me encaixar em um molde para o qual nunca fui feita. 
Eu cansei de tentar ouvir um mundo que não tem nada de valor pra dizer. O valor que temos está na nossa identidade em Deus, na nossa identidade como seres humanos, e não na próxima exigência, moda ou título, nessas porcas e ridículas ilusões que mantém uma sociedade doentia cada vez mais deturpada e morta por dentro. 

domingo, 3 de novembro de 2013

Dividir para multiplicar

Não é incomum o mundo e seus fenômenos me deixarem perplexa. Muitas coisas são excessivamente complexas e, grande parte do tempo, maravilhosas demais pra caberem na minha compreensão pequena. Há diversas coisas nessa lista de "maravilhas assombrosas": desde o assombro com a ciência - a grandeza das galáxias e sistemas com estrelas com fusões nucleares produzindo energia, até a complexidade mínima do código genético de termos quem somos criptografado nas mesma moléculas que codificam inúmeras outras formas de vida - até outras maravilhas que vemos expressas através dessas coisas que constróem a ciência. 
Contudo, brinco que estudo ciências exatas e naturais por elas serem infinitamente mais simples do que qualquer fenômeno que envolva o fator humano e psicológico, porque por mais difíceis diversos fenômenos científicos sejam de entender, é uma dificuldade concebível que pode ser prevista com equações, programas, teoremas, observações e fatos; o fator humano, em contrapartida, jamais pode ser previsto. 
Um desses fatores que ainda me deixa incrivelmente perplexa é o apego emocional que construímos com pessoas próximas de nós, a sensação de interdependência que temos com o outro. 
Se formos pensar do ponto de vista 'científico' e puramente prático, os únicos apegos úteis seriam algum tipo de paixão (de maneira a permitir a procriação) e o instinto materno (de maneira a garantir a sobrevivência da prole). Elementarmente outros tipos de apego são úteis por permitirem a vida em comunidade, o que melhoraria as chances de sobrevivência da nossa espécie, mas isso poderia ser feito de maneira puramente utilitária sem grandes apegos emocionais, devido ao desgaste e aumento do risco provocado pelo amor. 
Imagino que a sentença 'risco provocado pelo amor' possa ter causado algumas reações nas suas sinapses, caro leitor. Uma primeira possibilidade seria você dizer que os riscos trazidos pelo amor de fato existem, mas são meramente emocionais, nada que não possa ser ajustado com o tempo - mas o risco a que me refiro é maior que apenas esse. Outra possibilidade é que você não enxergue risco algum no amor. Vejamos se sua opinião prevalece até o final do texto. 
Ouvi uma frase certa vez que dizia: "Amar é dar ao outro o poder de te ferir, mas confiar que não o fará", e acho muito interessante pensar nisso, porque é verdade. O amar te torna muito vulnerável, porque o amor exige confiança, e confiança nos deixa inteiramente suscetíveis a todos os males que o outro pode fazer conosco, mas também aos riscos que nós podemos fazer com nós mesmos devido a esse extraordinário (e, grande parte do tempo, incompreensível) altruísmo. 
Suponhamos uma cena de uma casa sendo consumida em chamas. Uma mãe, que mora na casa, está perto da porta pra sair e ela é apresentada com uma escolha: Sair pela porta em frente a ela ou entrar correndo de volta nas chamas crescentes pra tentar salvar o filho dela. Pelo que observo do amor materno, a grande maioria das mães que conheço nem teriam uma escolha, voltariam correndo pra salvar o filho, ainda que isso coloque em risco - e possivelmente causa a sua morte - dela mesma. 

O medo da morte, nesse caso, acaba desempenhando papel bastante pífio ao lado do papel desempenhado pelo amor. Nesse sentido, acredito que o amor - e não a coragem, como normalmente colocaríamos - é o grande conquistador do medo. A coragem sem motivação válida não passa de estupidez, a coragem com motivos nobres é amor. E, considerando que o medo existe essencialmente para a autopreservação do indivíduo, é um loucura pensarmos em algo que anule a autopreservação de maneira tão enfática, e mais loucura ainda isso ser algo que prezamos tanto. O amor é perigoso. 
Nos deparamos mais uma vez com uma questão que abordei recentemente: a loucura. Observando de fora, o amor é loucura, o amor é perigoso, o amor é motivo de fuga. Mas chegamos a um paradoxo: O amor traz grandes riscos à vida e ao bem estar, mas também é o que faz essa vida valer à pena e causa qualquer rascunho de felicidade e bem estar concebíveis no sentido puramente terreno (e também divino, considerando o amor de Deus por nós). 

A partir do momento que nos deixamos nos apegar ao outro emocionalmente e amar, estamos entregando nossos medos, nossos sonhos, nossas fraquezas ao outro, entregamos-nos em toda a vulnerabilidade possível e dizendo que ele importa mais que tudo isso. É isso que uma mãe e um pai fazem com seus filhos, é isso que uma noiva diz para um noivo quando estão no altar, é isso que diz a compaixão quando sentimos a dor do outro mais que as nossas circunstâncias e mudamos nossa conduta para ajudá-lo. 
Contudo, mais que apenas a dor que pode ser causada pelo outro, existe a dor que será provocada em nós que acontece no outro. Quando amamos, além da nossa própria dor, sentimos também a dor do outro como se fosse em nós - ou mesmo, muitas vezes, pior do que a dor em nós. 
Lembro-me certa vez quando estava com um cisto pressionando o meu nervo na coluna e precisava ser removido, mas devido à infecção e inflamação, a anestesia não surtiu efeito, e foi um procedimento extremamente doloroso. Mas o que mais me assustou foi que, uma vez que estava saindo do consultório médico, o médico pediu pra que eu cuidasse da minha mãe - ela estava assustadoramente pálida e trêmula, quase desmaiando. A dor foi provocada em mim, mas ela sofreu mais que eu emocionalmente. 
Hoje estou descobrindo o que é isso, sentir mais no outro que em si. Diversos amigos e pessoas queridas estão passando por situações muito difíceis e dolorosas, e tudo o que mais queria era poder tirar deles e colocar em mim pra que eles não sofressem mais... pra que não visse seus olhos tristes ou recebesse palavras de tamanha dor e desânimo. Mas não posso. 

E quando paro pra pensar... seria autodestrutivo. Seria ilógico do ponto de vista natural e exato. Mas ainda o faria sem pensar duas vezes se estivesse no meu poder. Porque eu iria querer a dor deles pra mim? Isso é porque a dor delesjá é também a minha dor. Quando passei a amá-los, eles passaram a ser uma extensão, um pedaço de mim. Loucura seria não sentir o que eles sentem.
E mesmo que pra muitos o amor ainda seja considerado uma loucura por si só, só posso receber a insanidade de braços abertos sem me importar, sem questionar, sem sequer ponderar - porque de todos os loucos do mundo, que sejam os outros, tão loucos quanto eu, que quero ter comigo. E juntos, ao mesmo tempo que dividimos as tristezas, assim multiplicamos as felicidades. 

domingo, 20 de outubro de 2013

Freedom of a fearing fool

You ask for no less than everything
But all is just so hard to give
Then will I be left with anything?
Is my life my own to live?
You say, “For love, for me you’ll live
For you I gave everything to forgive.
The only things you’ll ever have
Is the ones you learn to give.”  

I have always been at risk of flight
I still am a cowardly running fool
I knowI should not, but I still do
Hoping maybe I just might
Outrun my tears, not need to fight
I ran from my fears and I still would
'Till I ran from myself and into You

You are love as who lives in You
In love there is no room for fear
But still I’m trembling down here
Does that mean I am not true?
Turn towards me your loving ears
Oh Father, my plea please do hear
Please do, teach me to love too
Father, teach me to love You


So now I know your love, Father
And rely on what it has for us
I am now free from sin’s curse
Still I need you for each step further.
You say I should have confidence
You say that I must trust
For your love’s the strongest armor
It does not bend or break or rust.

What is here?

Essa semana foi particularmente difícil em alguns sentidos, acredito que a maioria destes ligados à minha péssima qualidade de sono. Tenho tido muitos pesadelos, e quando entro nesses períodos de pesadelos sucessivos começo a ir dormir cada vez mais tarde porque não quero vivenciá-los. Espero até estar absolutamente exausta pra finalmente me render aos terrores que a minha mente é capaz de criar. Acabou que minha média de sono da semana foi de 5 horas por noite, não consegui fazer tudo o que precisava fazer, o que fiz não ficou tão bom quanto queria, e acabei a semana um pouco frustrada. 
Na sexta-feira estava fazendo um relatório na unifesp que deu muito trabalho e da biblioteca observava tudo lá fora ao longo do dia, principalmente o clima porque estava bem representativo da semana - estava chovendo, mas vez ou outra saía o sol, fazendo inclusive a chuva ficar bonita.
Terminei o relatório e entreguei, estava voltando pra casa caminhando feliz com o fim da semana chegando, cansada e olhei pro céu procurando alguma coisa. Procurando um arco-íris. Por mais que estivesse naquele momento bastante em paz e contente, ainda gostaria muito de ter aqueles comprimentos de onda passando pelas gotas de chuva... Por um brevíssimo instante pensei ter visto alguma coisa. Mas não era nada. 
Tinha tudo pra ter um arco-íris - sol, chuva, a cor do céu favorável pra ele ser visualizado... Mas não teve. O ângulo de incidência da luz na chuva talvez estivesse errado. Ou a umidade insuficiente. Não sei. 
Continuei caminhando ainda procurando, torcendo contra esperanças... quando um glorioso aroma tomou conta do meu arredor. Desviei os olhos do céu e olhei pro asfalto: Estava coberto de um carpete de flores amarelas que caíram de uma árvore, mas tinha mais flores que já tinha visto no asfalto. A chuva nas flores enfatizou grandemente o seu aroma suave, e caminhei pensativa, contemplando aquela cena e experimentando cada detalhe. 
Fiquei pensando em como eu quase não vi as flores com a minha distração. Fiquei pensando, ainda, em como a minha expectativa de meramente ver o arco-íris, quase poderia ter me roubado a experiência tão mais rica de, além de ver o belo, também sentir seu cheiro, também sentir as flores sob os meus pés cansados. Fiquei pensando em quantas vezes dedicamos tanta atenção aos nossos desejos e expectativas que às vezes perdemos oportunidades únicas que se apresentam de maneira inesperada, porém muito mais adequada. 
Talvez esteja na hora de parar de procurar tanto e tentar perceber: o que tenho aqui diante de mim?


Grace for me - Michael Gungor
"This jar of clay and all its weakness;
Somehow inside dwells Your fullness.
Even though I’m not yet flawless,
You are forming me.

Your grace for me is all I need
All I need is here
Your grace for me
Is all I need
All I need is here

Everything that I desire 
really may not meet my needs. 
Help me to seek first Your kingdom.
You’ll provide for me.

Valleys come and tears aren’t dry yet 
and there are things I don’t yet see.
But I’ll rejoice despite of hardship; 
You’ll watch over me."

domingo, 13 de outubro de 2013

Julgando um livro pela capa

Nunca julgue um livro pela capa. Aprendi bem essa lição esses dias, tanto no sentido figurado de que não se deve julgar uma pessoa por sua aparência ou avaliá-la pelos padrões que nossa sociedade impõe, como no sentido literal em se tratando de livros. O fato curioso? Aprendi as duas coisas com um mesmo livro. Eu o julguei, e julguei mal. Julguei pelo título cliché e pela capa piegas. Mas errei.

Na igreja me recomendaram o livro 'O significado do casamento' (por Timothy e Kathy Keller) há uns 6 meses, e eu não estava nem um pouco em clima de ler essas coisas, mas recomendaram fortemente 'pra casados, pós casados, descasados e pré casados', disseram que mesmo pra solteiros seria um bom livro. Não li.
Acabei dando o livro de presente de dia das mães pra minha mãe porque ela queria ler, mas me mantive firme na convicção de que não o leria tão cedo. Acabou que teve um seminário sobre o livro e muitos dos meus amigos decidiram ir, então fui pra receber eles no seminário.
Até que o que foi falado era interessante mas... ainda assim. Não. Depois de um tempo mais duas pessoas me recomendaram o livro, duas pessoas que estavam em situação amorosa similar à minha - solteiras, jovens, sem perspectivas de relacionamentos.

Decidi acatar a recomendação um dia que vi o livro na sala porque minha mãe tinha interrompido a leitura e deixado por lá. Apesar da persistência necessária pra começar o livro, a leitura fácil e agradável bastaram pra que terminasse rapidamente o livro.
Acabou que o livro não trata só de casamento. Ele fala sobre o casamento na nossa sociedade, das expectativas da nossa sociedade ocidental dos casamentos, como ele se expressou ao longo da história e o que a Bíblia tem a falar a respeito disso.
Contudo, o que eu realmente não esperava era que o casamento é na verdade uma metáfora viva do relacionamento de Cristo com a igreja e reflete também o relacionamento do Ser divino (Pai, Filho e Espírito Santo).
Não consigo tirar trechos isolados do livro porque ele faz uma construção que jamais conseguiria tirar de contexto porque todos os capítulos são extremamente interdependentes, mas posso dizer os efeitos do livro sobre mim. Posso dizer que agora entendo um pouco mais do que significa o Amor.
Não em sentido meramente humano. De maneira incrivelmente inusitada, entendi muito mais do Evangelho através do livro do que do casamento em si. Entendi o amor que Cristo tem por mim, a maneira que ele me vê - não pelo que sou, mas pelo que posso ser. Entendi que tudo o que Ele fez (e faz) por mim é pra me levar ao potencial completo que ele vê em mim.
Eu dificilmente faço isso, mas eu chorei muito de plena felicidade ao entender a dimensão, a extravagância, desse amor. Então, em vez de o livro sobre casamento me fazer querer mais que qualquer coisa casar, o livro me ajudou a entender quão gloriosa também é a situação de estar solteiro e poder ter em Cristo todas as minhas necessidades emocionais satisfeitas, porque além dele ter sido o grande exemplo de amor, esse amor também é direcionado a mim. Que amor há que é maior que dar a vida em favor de outro? E alguém fez isso por mim. Isso é amor além do que qualquer história ou conto de fadas poderia sequer considerar! Ele não escalou a montanha mais alta por amor, mas ele subiu no Calvário. Ele não nadou todos os oceanos por amor, mas ele acalmou a tempestade - e acalma todas as tempestades em mim. Ele não fez promessas vazias. Ele foi a confirmação de uma promessa.
 Eu jamais conseguiria expressar por meio de palavras o quanto aprendi ou o quanto cresci com a leitura desse livro, mas o que posso fazer é deixar um poema citado no livro. Porque às vezes chega um ponto em que a felicidade não pode mais ser expressa por meio de palavras. Talvez eu precisasse ser o escritor ou poeta mais eloquente ou músico mais habilidoso pra conseguir expressar tudo. Só o que posso dizer é: Se puderem, leiam o livro. Não façam como eu. Não julguem-no pela capa.


LOVE (III)
by George Herbert


Love bade me welcome, yet my soul drew back,
        Guilty of dust and sin.
But quick-ey'd Love, observing me grow slack
        From my first entrance in,
Drew nearer to me, sweetly questioning
        If I lack'd anything.

"A guest," I answer'd, "worthy to be here";
        Love said, "You shall be he."
"I, the unkind, the ungrateful? ah my dear,
        I cannot look on thee."
Love took my hand and smiling did reply,
        "Who made the eyes but I?"

"Truth, Lord, but I have marr'd them; let my shame
        Go where it doth deserve."
"And know you not," says Love, "who bore the blame?"
        "My dear, then I will serve."
"You must sit down," says Love, "and taste my meat."
        So I did sit and eat.