sábado, 19 de julho de 2014

(re)Partir

"Vocês ficarão chocados, crianças, quando vocês descobrirem como é fácil na vida nos separar das pessoas pra sempre. É por isso que quando você encontra alguém que você quer manter por perto, você faz algo a respeito disso."
Enquanto passava na minha timeline a frase acima, retirada de um episódio de How I met your mother, eu tive que parar alguns segundos pra (re)pensar a respeito disso. Sei que esse é um assunto recorrente no blog, mas também é um assunto recorrente na vida. Você para por alguns instantes, e em poucos segundos o número de pessoas de quem você se separou ao longo dos anos cresce até que você se force a sair dessa corrente de pessoas e acontecimentos antes que sua cabeça (ou coração) exploda. 
A verdade é que ficar é um dos verbos mais difíceis de se conjugar em primeira pessoa, e desistir um dos mais fáceis. Ficar exige esforço, um mundo de amor que a gente, muito sinceramente, geralmente não consegue nem somando todo o amor das nossas vidas; exige trabalho, sacrifício, força... tantas coisas que a gente dificilmente consegue ter.
Por outro lado, a gente sempre conjuga o inverso em segunda pessoa: queremos que os outros fiquem, e não queremos que eles desistam. A gente espera que eles consigam aquilo que a gente não consegue, mas... não, ninguém consegue fazer tudo isso, muito menos sozinho. 
Pra ser aquele que não desiste, você tem que fazer o seu papel e o papel alheio, você tem que amar o que não é amável, entender o incompreensível, e ter esperança quando todo o resto te diz que você não deve mais ter esperança. 

"Eu não preciso ouvir se eu não quero
Eu posso abafar isso, fechar as cortinas em você
É um mundo pesado, é demais para eu me importar
Se eu fechar os olhos, não está mais lá
Com meus fones de ouvido

Na estação de metrô, você se senta na minha frente
Eu acho que eu te conheço
Pelos olhos tristes que eu vejo
Eu quero te falar
Que tudo vai ficar bem
Você não ouviria, então seguimos cada um o seu caminho
Com nossos fones de ouvido
Eu não quero ser aquele que tenta entender
Eu não preciso de outra razão pra me importar com você
Você não quer ouvir a minha história
Você não quer ter a minha própria dor
Vivendo em um mundo pesado, pesado"
- traduzido de Headphones, Jars of Clay 

No post passado que falei sobre o assunto, disse que a vida era meio que nem um metrô quando se tratava de relacionamentos, pessoas entrando e saindo em estações, poucas ficando até o final da linha. Acontece que o metrô de São Paulo e a música supracitada me lembrou que tem mais uma coisa que a gente faz no metrô que também faz nos relacionamentos: todo mundo está com seus fones de ouvidos, não querem ouvir a conversa do outro, o que o outro tem a dizer. Só quer ouvir, só quer viver aquilo que a gente escolhe. É mais fácil, mais confortável. 
Contudo, mesmo enquanto eu pensava sobre isso, eu comecei um projeto: #100ThankfulDays, em que todos os dias eu escolho algo que aconteceu no dia pelo que sou grata; dificilmente consigo escolher uma coisa só, são sempre - mesmo nos piores dias - duas, três, cinco coisas. E o único assunto recorrente todos os dias são - pasmem - as pessoas. É, isso mesmo, essas que é muito difícil a gente continuar amando, perdoando, vivendo com elas. Essas que às vezes é mais fácil deixar pra trás.
Dificilmente é a mesma pessoa nos agradecimentos, cada dia é um. Um dia pela foto de uma paisagem numa viagem, ou pelo recado de preocupação. Ou por alguém que me recebeu em casa, ou por um abraço, uma palavra amiga, ou por uma risada que até doeu a barriga. Talvez por encontrar alguém que há muito não via, ou por uma insistência que "realmente querem te ver" (mesmo que isso seja impossível no momento). 
A questão é, são esses vislumbres - embora breves, de uma chama moribunda de felicidade - que nos lembram que os dias ainda valem à pena, que amar, que ficar, que não desistir, são verbos que devem ser conjugados em todos os tempos - pra não termos só pretéritos perfeitos. São esses detalhes que nos lembram que mesmo com todo o desgaste que a vida traz, ainda vale à pena tirar os fones de ouvido. Ouvir a história, a música e o lamento de quem ocupa o lugar ao seu lado (seja preferencial ou não).
Não são os eventos grandes, as conquistas, os 'aceito's, as novidades que nos movem - essas coisas são explosões. Mas a chama que continua acesa o tempo todo, mesmo que bem fraca, usa de combustível qualquer retalho de amor que encontra por aí, e te lembra que é melhor repartir o pouco que se tem antes de partir. 

terça-feira, 17 de junho de 2014

A Religião da Ciência

Talvez devido ao maior acesso à informação - consequência bastante relacionada à internet - nos últimos anos a ciência tem se popularizado bastante. Nas conversas sempre se ouve um "li uma pesquisa que...", "cientistas disseram que..." com fatos 'científicos' pra todos os lados. Páginas de ciência se popularizaram, programas desse tipo estão com públicos progressivamente maiores. Contudo me pergunto o quanto essa popularização de fatos ‘de que se ouviu falar’ é de fato boa.
Li esses dias do astrofísico Neil DeGrasse Tyson a frase “A coisa ótima da ciência é que ela é verdade, quer você acredite ou não”; não sei o contexto em que foi falado, contudo se analisarmos a frase avulsa, como foi divulgada, ela pode ser um pouco indigesta.
Embora eu trabalhe com ciência e ache interessantíssima a busca por respostas, fiquei grandemente incomodada pela afirmação, porque a ciência – ao contrário da crença popular – não tem todas as respostas. Existem fenômenos que não podemos explicar, e existem fenômenos que temos mais que uma possível explicação. Existe na física um grande embate, por exemplo, entre cientistas que defendem a teoria de cordas e outros que acreditam na teoria quântica – e aqui peço perdão aos que entendem mais do assunto que eu se estiver falando uma bobagem. Até onde saiba, ambas são teorias científicas, mas não se sabe ao certo qual está correta. E, para uma teoria estar correta, outra necessariamente deve estar errada – logo, uma das ‘teorias científicas’ é uma mentira. Ou seja, a ciência não contém apenas a verdade. Em termos mais simples, a boa ciência nunca assume que contém apenas a verdade e toda a verdade, senão não há sentido em continuar fazendo ciência.
É isso que, pessoalmente, gosto da ciência: não existe um ponto de estagnação. Sempre há algo a ser investigado e descoberto; é o fato que não podemos conhecer todos os fatos e toda a verdade que é estimulante ao trabalho e que permite que, a qualquer momento, seja feita uma correção. Para ser cientista, você primeiramente tem que ser humilde e admitir que não sabemos muita coisa,
Estamos substituindo aquilo que é buscado pelo meio pelo qual se busca: Buscamos a verdade, usamos a ciência como uma ferramenta para tal. Mas estamos de repente dizendo que a ciência é a verdade e que não existem outros meios! Assumimos que toda a lógica, matemática, são irrefutáveis. Mas existem diversos tipos de lógica, existem muitos meios realizar cálculos, é só olhar para toda a antropologia cultural, todo o trabalho feito por ancestrais. Seria muito pouco científico considerar uma maneira (ou seja, uso do método científico ocidental, por exemplo) só de lidar com problemas.
Se considerarmos a cor branca como sendo a verdade e a cor preta como sendo a ignorância, podemos considerar a ciência a nossa análise para determinar se algo está mais próximo do branco (algo conhecido e plenamente compreendido) ou da cor preta. Contudo, não sabemos ainda o que é a verdade absoluta para termos como referência e comparar com aquilo que temos, apenas sabemos pela ciência se algo está em um tom de cinza mais escuro ou mais claro (e mesmo nessa classificação é muito fácil nos equivocarmos).
Acredito que aqui a função da ciência e da religião tenha uma intersecção, pois ambas buscam a verdade, e podem encontrar respostas convergentes (ou divergentes também). É por isso que acredito que seja difícil ser fanático por qualquer uma das duas coisas: existem muitas religiões, e muitas delas contém a verdade, embora seja impossível que todas elas sejam a verdade simultaneamente; uma pode conter a verdade, mas dadas as divergências entre elas, para esta ser verdadeira, as demais devem ser falsas em algum nível. De maneira semelhante, a ciência pode ter também a verdade, mas nem todas as teorias podem ser a verdade simultaneamente.
Por isso me incomoda profundamente a maneira como as pessoas eliminam uma à outra como ferramentas nessa busca pela verdade, quando ambas poderiam trabalhar juntas (e por muito tempo na história da humanidade, de fato trabalharam juntas). Dizer que apenas a evolução pode ter nos trazido até aqui embora haja fortes evidências contrárias por causa da recusa em aceitar que talvez as evidências apontem para um Criador inteligente, é uma bobagem; é fazer exatamente aquilo de que religiosos são acusados:  fechar a cabeça e interpretar as evidências de maneira a justificar suas crenças.
A ciência tornou-se a nossa nova religião: dizemos que ela é a verdade absoluta em si, mas ela exige também fé. Defendemos ela e refutamos outra possibilidade, mesmo que não seja mais conveniente. Vidas são sacrificadas em nome da ciência (a experimentação nazista de 1940 e a experimentação animal que permeia até os dias de hoje que o digam); usamos a ciência para tentar conseguir a vida eterna, e queremos usá-la para obter respostas a respeito da origem e funcionamento do universo. Usamos ela para obter o que queremos, mas com experimentos em vez de orações. Nós nos tornamos os deuses vestindo jalecos brancos.

No final do dia, precisamos de algum nível de fé para confiar em conceitos abstratos como lógica, matemática, raciocínio, certo e errado, ética e moral – são questões que não se pode provar, pois prová-las implicaria em usá-las na ‘dedução’. Simplesmente são ou não são. Então agradeceria muito se a busca fosse pela verdade, e não pela ciência, e que cientistas e a população entendessem que não são deuses. A busca pela verdade tem o seu valor, mas quando o valor passa a estar no meio pelo qual se busca e não no objeto buscado, é porque tem algo profundamente errado no método usado. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O gol do Brasil foi contra a Ciência, não a Croácia

Pra um povo que faz festa sem motivo, canta e dança no carnaval só porque falta 40 dias para a Páscoa, e é conhecido como um dos países mais felizes do mundo, tenho certeza que os turistas chegando no Brasil – especialmente no caos da cidade de São Paulo – estão sendo surpreendidos com um país tão surpreendentemente infeliz. Contudo, não estou fazendo essa pequena postagem pra listar valores e números relacionados às promessas que não foram cumpridas de infraestrutura do país para receber o evento, nem sobre os números de pessoas que foram desabrigadas por causa das construções, das mortes de operários nas construções feitas às pressas, por causa dos desvios de verba, por causa da FIFA e o jeito que ela funciona, sobre leis criadas para proteger a população que foram revogadas pra proteger os patrocinadores da copa do mundo. Isso já tem aos baldes pela internet: videos, fotos, textos, com dados muito mais precisos e confiáveis que qualquer coisa que eu poderia colocar aqui, e certamente com muito mais humor também.
Estou escrevendo aqui porque a minha proposta inicial ao criar o blog era falar a respeito de coisas que eu gostava, ou achava interessantes (leia-se o nome, Que J’adore, ou seja, que eu adoro). E tinha uma única coisa que eu – e mais uma nação de pesquisadores, cientistas, acadêmicos – estavam torcendo pra que acontecesse na copa, uma coisa que me deixou feliz. Pela primeira vez a ciência brasileira receberia destaque em um evento internacional sediado no país. Pela primeira vez veríamos o trabalho feito pra ajudar aqueles que não podem andar a voltar a andar sendo visto: a Engenharia Biomédica estaria em evidência. Sim, nós sabemos fazer mais que futebol.
Mas um gol contra nos recebeu, e não foi o do Brasil com a Croácia, foi na própria abertura da copa. Queríamos ver um voluntário usando um exoesqueleto para um paraplégico poder andar e chutar uma bola, com tecnologia que todos estão ansiosíssimos pra ler a respeito nas publicações. Mas câmera estava mais ocupada filmando corpos malhados com roupas pequenas demais de cantoras dublando uma música pra filmar isso e transmitir. Ironicamente, o projeto Andar de Novo me fez me perguntar como o Brasil caminha desse jeito, e acho que, mais que a bola, chutaram o balde na irreverência e superficialidade na transmissão. Não porque alguém ‘esqueceu’ de filmar e transmitir, mas porque essa é a cultura que olha mais peitos e bundas do que pra ciência, que olha mais pros patrocinadores do que pro valor intrínseco de um ser humano – seja desvalorizando a vida nos acidentes, seja desvalorizando a dignidade ao enxotá-los de suas casas, seja desvalorizando seus impostos investindo em tantas futilidades, seja quando a ciência e a vida de inúmeras pessoas pode ser afetada positivamente atráves de uma pesquisa envolvendo diversos pesquisadores de aproximadamente 21 países mas nada disso recebe atenção -  e tudo isso é indicador de problemas morais muito mais sérios do que onde a câmera estava.
Vejo muita gente se revoltando com o fato que a ciência dos brasileiros dificilmente é feita no Brasil, dizendo que as pessoas ‘abandonam o Brasil’, mas é por atitudes como essa que eu entendo os cientistas que vão pra fora pra trabalhar; o próprio Miguel Nicolelis, que encabeçou o projeto Andar de novo, é um pesquisador brasileiro mas, embora tenha um instituto aqui no Brasil em Natal, faz a maior parte da sua pesquisa na universidade de Duke, nos Estados Unidos.
Como você vai ser um cientista em um país onde não existe essa profissão – só dá pra fazer pesquisa se você também é professor? Como você vai pesquisar quando querem implementar uma lei que instituições públicas não podem comprar literatura de origem estrangeira? Como você vai fazer ciência quando todos os produtos, equipamentos, soluções necessárias têm impostos imensuráveis que encarecem o conhecimento? E por que raios você vai trazer de volta pro Brasil o produto da sua pesquisa que pode mudar inúmeras vidas humanas no futuro se você poderia ser muito mais facilmente alguém no holofote dançando e dublando depois de algumas cirurgias plásticas e academia?

Aparentemente, é mais fácil para os cientistas fazer um paraplégico andar antes de conseguir responder a essas perguntas.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

foi e vem

Ano passado fui à minha primeira festa junina e explorei a experiência: bolinho caipira, churros, maçã do amor, tiros com arma de chumbinho, todos pequenos experimentos, coisas que nunca tinha feito, em uma tentativa de fugir daquilo que incomodava; achando que com tudo novo nada ia me lembrar de como era.
Dessa vez a festa foi diferente, embora não houvesse nenhuma novidade; dessa vez, em vez da fuga, foi um mergulho na realidade, na saudade, no medo nas conversas, nas coisas do passado, do futuro. Mas acho que a verdade é que mais que aquilo de que foi conversado, importante foi o conversar. Foi compartilhar desgraças próprias e rir das alheias, porque às vezes é tudo o que você pode fazer. Não adianta remoer a história, pensar nesse dia dois anos atrás. Quanto mais pensar pra frente, esse dia daqui a dois anos. Pra trás fica a saudade, pra frente fica o medo, o frio na barriga. Vai ver é esse vai-vem de ficar olhando pra frente e pra trás que deixa a gente meio tonto, mas às vezes, só o que resta fazer no presente momento é rir de como a gente é bobo e, de tanto se preocupar com o que a gente não tem controle, quase que esquece de ver a beleza de onde se está.

sábado, 31 de maio de 2014

O mapa do metrô

Não sou uma daquelas pessoas com histórias bonitas de amizades - sem laços familiares - que durassem desde a infância, sobreviveram aos anos turbulentos - e incrivelmente irritantes - da adolescência. Tampouco os amigos que fiz na adolescência permaneceram até minha juventude pra me ver mudar daquela aluna de colegial à aluna universitária, que começou a ter sonhos mais concretos, e depois descobriu que sonho e concreto não tinham nada a ver uma coisa com a outra - o sonho que nasce engessado já nasce quebrado. Não viram a mudança da pessoa que acreditava em tudo, pra pessoa que não acreditava em nada, pra pessoa que decidiu que pra toda essa baboseira na vida ter algum valor, precisava acreditar em alguma coisa. 
Todos pegaram o trem que já estava andando e desceram antes do ponto final, desceram onde era melhor pra pegar o próximo, e isso sempre bastou. Contudo, confesso que por vezes ponderei: o que havia nesse trem que as pessoas nunca se distraíram, nunca esqueceram de descer?  
É claro, tecnicamente a tecnologia permite que a gente saiba onde o trem das outras pessoas está levando elas: vemos as fotos dos seminários, congressos, acampamentos, formaturas, casamentos, filhos. Sabemos os pontos, estações, mas sabemos com o mesmo envolvimento emocional que temos quando contemplamos o mapa do metrô. 
Aquele pontinho branco de intersecção da linha azul com a vermelha chamado "Sé" jamais vai nos ajudar a entender exatamente a sensação de estar dentro do vagão às 6 depois de um dia exaustivo no trabalho, sendo comprimido em todas as direções, no calor e desconforto que te fazem se sentir menos humano. Aquela linha amarela também não mostra quão hipnotizante pode ser ficar no primeiro vagão do trem sem maquinista e observar as pequenas luzes ao longo do túnel se aproximarem enquanto você reavalia o seu dia. 
O mapa vai te falar onde é essa ou aquela estação, saber o que acontece com aqueles amigos outrora indispensáveis da sua vida estão, por outro lado, é impossível de fora: você desceu do trem. Não faz mais parte daquela viagem. Você não sabe realmente o que está acontecendo, mesmo que um dia você tenha ocupado aquele primeiro vagão, sentado, prevendo as luzes que iam se aproximar, antecipando a próxima estação junto com os outros passageiros. 
Agora, seguimos as nossas vidas pouco paralelas até os pontos de intersecção, mas não deixam de ser isso: pontos. Pequenos nós nas linhas. Não somos nós por muito tempo: logo somos eu, você, ou ela, aquele, alguém, um conhecido, um esquecido. E descobre-se que mais triste que perder amigos no espaço, na distância, é perder amigos no tempo. E essas talvez sejam as perdas mais comuns.
Mais comuns e mais letais, porque não são repentinas, não são percebidas, vistas, antecipadas - quanto mais, evitadas. Não se evita aquilo que não se (pre)vê. 
Dificilmente envolvem um doloroso despedir, noites de tristeza e tortura, sem saber como seguir sem aquela pessoa. Tristes são as amizades despidas de despedidas. Essas perdas no tempo, vazias de palavras bonitas de gratidão, consideração, de (re)lembrança... essas perdas não tem nada, nada além de silêncio. Um silêncio que cai pesado entre pessoas uma vez tão familiares, que uma vez tinham sintonia, que se conheciam tão bem que viraram reinvenções um do outro. 
Algumas coisas ficam. Alguns bancos preferenciais para aqueles permanecem vazios, mas por vezes na ausência deles são ocupados por outros, que não eram tão preferenciais assim. O cheiro, a memória, a marca das pegadas que carregaram pra dentro a chuva, a lama, a poeira lá de fora. Por vezes as reinvenções um do outro ficam disfarçadas, sobrevivem ao desgaste das reformas dos vagões, da modernização dos trens antigos. O trem, contudo, não tem paradas: continua seguindo em seus trilhos sem hesitar, sem tréguas para quem quiser descer.
Faço das palavras "do Antônio" as minhas: "Tem gente que vira lembrança. Tem gente que vira passado. Tem gente que vira do seu lado. Tem gente que se vira pra estar do seu lado." Se reinventam pra ficar, te reinterpretam e ficam: sem saber se vai ser até o final da linha, mas tantas vezes quanto der pra se virar, eles se viram, e a gente se vê. 


Créditos da imagem: https://www.facebook.com/eumechamoantonio

quarta-feira, 26 de março de 2014

só amigos.

Durante as férias fui questionada a respeito do caráter de relacionamento que eu tinha com determinado amigo: "Você é a namorada de fulano?, sem pensar muito respondi "Não, não, sou só amiga." Contudo, acredito que me equivoquei na minha resposta: Não pela definição, mas pela forma. 
Dizer que sou amiga de alguém infere que existam 'só amizades', e pelos retalhos que venho recolhendo na minha vivência, acredito que isso não seja verdade. Qualquer amizade no sentido real da palavra - não qualquer cópia barata e narcisista e egocêntrica disfarçando-se de amizade - não pode ser 'só' qualquer coisa. Ninguém é só filho de ninguém, nem só namorado, nem só marido. Todos, pelos nossos relacionamentos, somos definidos: Somos filhos, namorados(as), maridos ou esposas. Somos e fim de história. Porque, então, tratamos a amizade como algo menor que qualquer um dos outros relacionamentos? Porque a amizade é só? 
Sou bastante suspeita pra falar a respeito do assunto dado o grande apego que tenho aos amigos mais próximos, mas acredito que amizades sejam uma das coisas mais incríveis (e incompreensíveis) que experimentamos enquanto vivendo nas bandas terrenas. 
Você poderia argumentar dizendo que relacionamentos amorosos são de alguma maneira maiores que amizades, mas qualquer amizade é um relacionamento amoroso por sua natureza, no sentido de as pessoas se amarem. E ainda mais: grande parte do tempo nos relacionamentos amorosos de hoje busca-se a realização pessoal e busca-se o prazer grande parte do tempo: a amizade, por outro lado, não mostra-se tão corrompida quanto a visão de romance. Ainda vê-se lealdade e pessoas que se doam sem esperar nada em troca. 
Isso tudo me fez pensar na definição de amor. Alguns anos se passaram desde as últimas vezes que falei sobre o assunto aqui, e a vida, os estudos, os livros e, principalmente, pessoas me ensinaram um bocado a respeito do assunto. 
Sem muitos ensaios ou ponderações uma reflexão me atingiu em cheio quando pensava sobre a amizade: Amar é pegar emprestados os olhos do outro. É aprender a ver a vida de outro ponto de vista, sentir a dor que não é em você, entender que você não é o centro do universo - é, também, adentrar o universo alheio, sem rótulos, prenconceitos... conhecer virtudes e defeitos. Talvez amar seja despir-se de si mesmo e ver de verdade aquele que se liga a você, não com sentimento de posse, mas sim de compreensão. Talvez seja quando nos percebemos mais inteiros olhando para o outro em vez de para o espelho. 
E a amizade é a grande escola disso tudo. Percebemos ao fazer-nos amigos a ver a vida de onde pessoas de origens socio-culturais completamente diferentes veem, pessoas que podem ter opiniões diferentes e até conflitantes com as nossas... mas mesmo assim somos amigos deles (embora grande parte do tempo não saibamos o porquê disso). Avisamos eles quando estão fazendo algo estúpido, mas mesmo assim estamos com eles quando tudo dá errado (depois de um singelo 'eu avisei', é claro). Foi (ou está sendo) através das amizades que percebi que eu poderia aplicar aquele amor na família, e aprendi a amá-los mais. E é através das amizades que estou aprendendo o verdadeiro significado do amor no sentido de relacionamentos mais próximos - não todo o romance e bobagem que nossa cultura quer nos apresentar. 
Cansei dessa história da nossa cultura de fazer amizade esperando que aquilo evolua para algo mais - como se houvesse algo de errado com a amizade com o sexo oposto caso não evolua para 'algo mais'. A verdade é que a amizade já tem tanto amor quanto humanamente possível se ter - acho que é impossível ser 'só' amigo de alguém, porque a verdade é que quando se tem amigos, nunca se está só. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

São o que sou.

Estou no meu primeiro período de férias no sentido real da palavra desde 2011; nada de pesquisa, nada de recepção de calouros, nada de nada relacionado à universidade. Tenho aproveitado o tempo pra organizar meus armários, organizar minhas ideias, ler um pouco e criar muito - desenhos, presentes, cartas, histórias, futuros estão sendo rascunhados e preenchidos como há muito não fazia. 
Acho bastante engraçado que as duas atividades às quais tenho dedicado mais tempo - organizar e criar - parecem bastante contraditórias. A criação e a criatividade não combinam com organização, do meu ponto de vista. Tente obter a tonalidade perfeita pra sua pintura mantendo suas tintas 'organizadas'. Ou tente fazer uma pintura, escultura ou qualquer tipo de artesanato e ainda estar no estado apresentável no qual você se encontrava antes. Ao meu ver, isso é impossível. 
É como se passássemos nossos dias absorvendo informações, ideias, sintetizando sentimentos, emoções, e tentamos organizar isso tudo: agora é hora de trabalhar, preciso esquecer os sentimentos. Agora é hora de descansar, preciso esquecer o trabalho. Organização tanto nas dimensões temporais e espaciais são necessárias dentro da nossa rotina que exige pressa, eficiência e rendimento. Contudo, há momentos em que não se organiza mais, não se divide mais - é quase uma explosão que ocorre dentro de nós, e é então que irrompe a criatividade. Quando unimos os sentimentos aos trabalho, ao espaço, às cores, às formas e melodias. O produto final da arte tem por matéria prima a nossa própria vida. 
Essa semana estava no evento Túnel da Ciência do Instituto Max Planck, e um dos stands que mais gostei foi o a respeito de complexidade e sistemas complexos. Gostei muito da definição de um dos pesquisadores que deu uma palestra: Um sistema complexo não necessariamente é um sistema complicado; um sistema complexo é um sistema que suas partes individuais talvez não façam sentido ou tenham uma determinada função quando isolados, mas que juntos os diversos itens produzem algo novo. Por exemplo, se considerarmos um carro, suas partes isoladas não fazem muito sentido, mas juntas elas produzem o movimento e funcionamento dele. 
Acredito que nesse sentido, as nossas vidas sejam um sistema muito, muito, extremamente, absurdamente complexo. Cada 'item' delas (trabalho, estudos, vida familiar, fé, amigos, relacionamentos amorosos) tem suas funções particulares, porém juntas produzem algo novo: nos produzem, e isso, de certa forma, é um processo 'criativo', porque estamos constantemente sendo 'recriados', reformulados para crescermos, amadurecermos, nos adaptarmos às nossas condições. 
Sendo assim, acredito que seja impossível nos separarmos de qualquer área das nossas vidas. Já tentei inúmeras vezes enterrar partes mais difíceis (ou seja, confusas) da minha vida e me ater às simples para me definir: já tentei me definir como cientista, como aluna, como escritora, mas nada disso me define exatamente. Seria o mesmo que tentar dizer que um carro é uma roda, um motor ou um carburador. Ok, essas partes funcionam no carro e fazem parte dele, mas não são ele. O que eu sou, é tudo. Eu sou as minhas memórias e meu passado, eu sou a minha escrita, minha pesquisa, meus estudos, meus amigos, minha família. Eu sou uma coletânea de todas essas coisas que, juntas, interagindo por vezes em sintonia, por vezes não (produzindo os chamados 'problemas' e 'crises'), mas são - ou melhor - Sou. Vendo desse ponto de vista, acho que nossas vidas na mesma medida em que nunca serão organizadas - mas serão pequenas doses de caos que interagem tecendo aquilo que nos constitui.