"Vocês ficarão chocados, crianças, quando vocês descobrirem como é fácil na vida nos separar das pessoas pra sempre. É por isso que quando você encontra alguém que você quer manter por perto, você faz algo a respeito disso."
Enquanto passava na minha timeline a frase acima, retirada de um episódio de How I met your mother, eu tive que parar alguns segundos pra (re)pensar a respeito disso. Sei que esse é um assunto recorrente no blog, mas também é um assunto recorrente na vida. Você para por alguns instantes, e em poucos segundos o número de pessoas de quem você se separou ao longo dos anos cresce até que você se force a sair dessa corrente de pessoas e acontecimentos antes que sua cabeça (ou coração) exploda.
A verdade é que ficar é um dos verbos mais difíceis de se conjugar em primeira pessoa, e desistir um dos mais fáceis. Ficar exige esforço, um mundo de amor que a gente, muito sinceramente, geralmente não consegue nem somando todo o amor das nossas vidas; exige trabalho, sacrifício, força... tantas coisas que a gente dificilmente consegue ter.
Por outro lado, a gente sempre conjuga o inverso em segunda pessoa: queremos que os outros fiquem, e não queremos que eles desistam. A gente espera que eles consigam aquilo que a gente não consegue, mas... não, ninguém consegue fazer tudo isso, muito menos sozinho.
Pra ser aquele que não desiste, você tem que fazer o seu papel e o papel alheio, você tem que amar o que não é amável, entender o incompreensível, e ter esperança quando todo o resto te diz que você não deve mais ter esperança.
"Eu não preciso ouvir se eu não queroEu posso abafar isso, fechar as cortinas em vocêÉ um mundo pesado, é demais para eu me importarSe eu fechar os olhos, não está mais láCom meus fones de ouvido
Na estação de metrô, você se senta na minha frenteEu acho que eu te conheçoPelos olhos tristes que eu vejoEu quero te falarQue tudo vai ficar bemVocê não ouviria, então seguimos cada um o seu caminhoCom nossos fones de ouvidoEu não quero ser aquele que tenta entenderEu não preciso de outra razão pra me importar com vocêVocê não quer ouvir a minha históriaVocê não quer ter a minha própria dorVivendo em um mundo pesado, pesado"
- traduzido de Headphones, Jars of Clay
No post passado que falei sobre o assunto, disse que a vida era meio que nem um metrô quando se tratava de relacionamentos, pessoas entrando e saindo em estações, poucas ficando até o final da linha. Acontece que o metrô de São Paulo e a música supracitada me lembrou que tem mais uma coisa que a gente faz no metrô que também faz nos relacionamentos: todo mundo está com seus fones de ouvidos, não querem ouvir a conversa do outro, o que o outro tem a dizer. Só quer ouvir, só quer viver aquilo que a gente escolhe. É mais fácil, mais confortável.
Contudo, mesmo enquanto eu pensava sobre isso, eu comecei um projeto: #100ThankfulDays, em que todos os dias eu escolho algo que aconteceu no dia pelo que sou grata; dificilmente consigo escolher uma coisa só, são sempre - mesmo nos piores dias - duas, três, cinco coisas. E o único assunto recorrente todos os dias são - pasmem - as pessoas. É, isso mesmo, essas que é muito difícil a gente continuar amando, perdoando, vivendo com elas. Essas que às vezes é mais fácil deixar pra trás.
Dificilmente é a mesma pessoa nos agradecimentos, cada dia é um. Um dia pela foto de uma paisagem numa viagem, ou pelo recado de preocupação. Ou por alguém que me recebeu em casa, ou por um abraço, uma palavra amiga, ou por uma risada que até doeu a barriga. Talvez por encontrar alguém que há muito não via, ou por uma insistência que "realmente querem te ver" (mesmo que isso seja impossível no momento).
A questão é, são esses vislumbres - embora breves, de uma chama moribunda de felicidade - que nos lembram que os dias ainda valem à pena, que amar, que ficar, que não desistir, são verbos que devem ser conjugados em todos os tempos - pra não termos só pretéritos perfeitos. São esses detalhes que nos lembram que mesmo com todo o desgaste que a vida traz, ainda vale à pena tirar os fones de ouvido. Ouvir a história, a música e o lamento de quem ocupa o lugar ao seu lado (seja preferencial ou não).
Não são os eventos grandes, as conquistas, os 'aceito's, as novidades que nos movem - essas coisas são explosões. Mas a chama que continua acesa o tempo todo, mesmo que bem fraca, usa de combustível qualquer retalho de amor que encontra por aí, e te lembra que é melhor repartir o pouco que se tem antes de partir.
