sexta-feira, 24 de agosto de 2012

life in technicolor

Essa semana o laboratório está bem menos corrido (já que nada parece dar muito certo), e fechei a única matéria que não está em total paralisação, então acho que isso tem me dado um pouco mais de tempo - tempo pra sair, tomar um suco de maracujá e morango com os meninos, ler um livro, organizar minha casinha... e a organização sempre rende umas reflexões bacanas. Mas, como diria a Lina, às vezes meu cérebro faz umas sinapses muito erradas. 
De vez em quando, na organização, ou em conversas durante o pão com mortadela, o passado me bateu no consciente.  Eventos, características que passaram, outras ficaram, pessoas que passaram, poucas que ficaram. Tudo me fez perceber como estou em uma etapa da minha vida completamente diferente das outras. Se fôssemos comparar a paleta de cores da minha mente de cada período, a dos últimos... talvez cinco meses seja a que mais se destaca do degradê clichê que estava até então.
E é peculiar, porque, assim como um bêbado só sabe que estava bêbado quando fica sóbrio, ou como quando só tomamos consciência do fato de que dormimos quando estamos em estado de plena consciência, essa é a sensação que tenho olhando pra trás. Agora que tudo fez sentido. 
Não é como se eu olhasse com raiva do que era, remorso, ou saudosismo, simplesmente é 'ok, você já fez parte de mim. Virou o que tinha de virar, então tá bom!', sem cerimônias. Se eu pudesse mudar coisa ou outra? Talvez seria válido. Mas não dá, e também não dá pra entender o que eu era - quanto mais o que eu sou, mas não preciso. 
Lendo C.S.Lewis, ele usa uma figura que gostei bastante (pra outra conclusão, logicamente) que... desde sempre o homem se alimenta, precisa comer pra sobreviver. Contudo, recentemente descobrimos tudo o que a alimentação envolve - dados sobre calorias, gordura, vitaminas... E podemos usar isso pra planejar nossa alimentação, ou podemos comer de forma que nos sintamos bem, que nosso corpo aceite bem, sem saber direito o que tem dentro daquilo - porque sobreviver é mais importante que algumas calorias ou vitaminas a mais ou a menos. 
Na vida, é igual. A gente pode tentar dissecar tudo na nossa vida pra pensar, e raciocinar, mas sobreviver é mais importante. Às vezes a gente tem que parar de pensar pra sobreviver e simplesmente viver à base daquilo que temos - estando vivos, felizes e bem, pensar pra quê?

"De ontem em diante serei o que sou no instante agora 
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? O antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa...
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem"

terça-feira, 21 de agosto de 2012

fé e fungos.

Ser cientista demanda muita fé.

Digo isso por experiência própria, não por nada que já tenham me falado ou coisa assim. Especialmente na parte de pesquisa de biologia molecular e celular.
Você pega reagentes enviados por uma empresa e confia que eles são o que os rótulos dizem, e confia que os outros que você mandou fazer foram feitos dentro das suas especificações. Daí você pega um protocolo acreditando que ele está certo e que ele vai funcionar e pega todos aqueles reagentes, suas células e começa o procedimento. Você lava, pipeta, coloca reagentes...  muitas vezes reagentes de 10.000 dolares pra ampolas minúsculas, e sua mão treme na hora de pesar na balança analítica! E você não está vendo nada do que está acontecendo, você não vê nada mudar de cor ou ficar brilhante ou coisa assim, mas mesmo assim você continua fazendo o seu trabalho. às vezes, você nem consegue enxergar um precipitado de células - o que minha orientadora chama de sensação de esposa traída - mas você continua trabalhando pra aquilo dar certo. Você faz seu PCR, ou deixa incubando, enfim. E daí só depois de alguns dias você vai correr o gel de eletroforese ou ver no microscópio o que você fez pra descobrir se toda a sua confiança tinha fundamento.
Às vezes, a vida também é assim. A gente não tem muita certeza do que está acontecendo ou se você está fazendo do jeito certo, e não vemos nenhuma mudança nas circunstâncias, mas mesmo assim a gente tem que estudar, analisar, e trabalhar em direção ao melhor resultado. Às vezes, não aparecem bandas de eletroforese ou a sua microscopia de fluorescência não tem absolutamente nada fluorescente.
Mas ah, aquele momento em que você liga a luz UV e vê suas células se iluminando como uma árvore de natal... faz todo o trabalho valer à pena.

Quem sabe um dia a gente não vai ver a nossa vida se iluminando que nem decoração de natal e ter a certeza 'alguma coisa eu fiz certo!'?

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

nós não estamos imunes.

Essa semana na ABU terminamos uma série de estudos em cima do livro de Oseias (sem acento, novo acordo ortográfico). Eu provavelmente já tinha lido, mas sem entender absolutamente nada - e sem entender, é um livro meio esquisito de se ler mesmo. Mas... esses estudos não só me fizeram entender o livro melhor, como me fizeram pensar muito. Particularmente o capítulo 6.

"Venham, vamos voltar para o Eterno. Ele nos feriu, mas ele irá nos curar. Ele nos bateu com força, mas nos erguerá novamente. Em alguns dias estaremos melhores. Ao terceiro dia ele terá nos feito novos em folha, vivos e de pé, prontos para encará-lo. Estamos prontos pra estudar o Eterno, ansiosos pelo conhecimento de Deus. Tão certo como a aurora, assim é a sua chegada diária. Ele vem como a chuva, como uma chuva refrescante de primavera no solo."
"O que devo fazer com você, Efraim? O que devo tirar de você, Judá? Suas declarações de amor não duram mais que o orvalho da manhã. É por isso que uso os profetas pra chamar sua atenção, por que minhas palavras chegam a você rapidamente: para te acordar ao meu julgamento, forte como a luz. Estou atrás de um amor que dure, não mais de religião. Eu quero que conheçam a Deus, não mais suas reuniões de oração. Você quebrou a aliança - exatamente como Adão! Você quebrou sua fé comigo - vermes ingratos!"

Contexto: O livro foi escrito para os reinos do norte, mais especificamente, que viviam uma sociedade bastante imoral, pecaminosa de forma geral. No início do livro, Deus ordena que o profeta Oseias se case com Gober, uma prostituta, de forma a exemplificar a relação entre Deus e Israel - principalmente no aspecto de traição. 

Nesse texto, temos o primeiro parágrafo como sendo o pedido de desculpas de Israel depois de todas as acusações dos capítulos anteriores. Parecem até palavras muito bonitas, conhecimento de Deus, arrependimento, cura... Mas o próximo parágrafo, a resposta de Deus, que surpreende mais ainda. As palavras de Israel podem estar certas, mas a resposta do Eterno deixa claro que não expressavam a verdade. O coração não havia mudado, 'suas declarações não duram mais que o orvalho da manhã'. Isso é forte, isso é realmente muito forte. 
Porque isso me faz pensar em quantas palavras de amor e promessas vazias eu já não fiz a Deus. Mudanças que nunca ocorreram, pedidos da boca pra fora, promessas vazias e sem sentido se analizássemos todo o contexto interno. Quantas coisas em um acampamento ou um culto pensamos que precisamos mudar e vamos mudar e... voltamos ao 'mundo real' sendo o mesmo ser imoral. 
Nada, absolutamente nada faz sentido de tudo isso. 
Por mais que a gente pense 'Não, mas eu sou diferente, não sou como Israel. Não beijo bezerros de ouro ou sacrifico bebês vivos para ídolos mortos.' Tem certeza?

Será que não é só mais uma das nossas queridas mentiras para nós mesmos?

"Esses são todos avisos - perigo! - nos nossos livros de história, escritos para não repetirmos os erros dele. Nossas posições na história são paralelas - eles no começo, e nós no final - e não somos tão capazes de errar quanto eles. Não sejam tão ingênuos e autoconfiantes. Vocês não estão imunes. Vocês podem dar de cara no chão com tanta facilidade quanto qualquer outro. Esqueça a autoconfiança; é inútil. Cultive a confiança em Deus."

I Coríntios 10:11 e 12 [MSG]

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

cansei de me cansar


Sempre tem uma peça de roupa pra lavar, outra pra passar e aquela pra guardar. Sempre tem aquela matéria que falta estudar. Aquele trabalho que você ainda não digitou. Aquele estudo que você sabe que vai ter que dar mas não terminou de preparar ainda. 
Sempre tem um copo na pia, um prato no escorredor. Sempre tem o pó de borracha na mesa que você limpa, e daí apaga, e daí limpa de novo. Sempre tem aquele grampo que você tirou e esqueceu de guardar e ficou do lado da cama. 


Sempre tem aquele experimento que faltou você repetir pra estabelecer um padrão, pra corrigir aquele resultado, pra você verificar em outras circunstâncias.
Sempre tem aquele livro que você não terminou de ler, ou aquele desenho que você nunca fez a arte final. Sempre tem alguém que diz que você está sumido, e você tem que ir visitar. Sempre tem alguém que faltou você contentar. 
Sempre tem alguém pra dizer que tudo o que você faz não é o suficiente, sempre tem aquela parte de você que diz 'poderia ter feito melhor'. Sempre. Sempre. Sempre tem alguma coisa. 

Às vezes eu queria poder esquecer tudo isso, me enrolar debaixo das cobertas com uma bebida quente e assistir alguma coisa, ler um livro, ou só ficar olhando pro teto. Talvez com um cafuné... apesar de cafuné ser covardia. 

Cafuné sempre funciona.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um jardim novo se levantará

Hoje levantar da cama foi bastante difícil, estava meio desanimada. Mas daí eu parei pra pensar: eu não quero levantar porque vou pro lab fazer pesquisa que um dia pode vir a ajudar e curar algumas centenas de pessoas com doenças cabulosas. Eu não quero levantar porque eu tenho uma cama quentinha e macia, cheia de cobertores e tenho mais outros dentro do armário. Eu não quero levantar porque... porque...

...foi daí que minha consciência começou a despertar também...

Tem gente que levanta da cama mesmo não tendo cama, porque a calçada está fria demais por baixo do papelão. Tem gente que levanta mesmo sabendo que vai se cansar, que suas costas vão doer de carregar tijolos e vão estilhaçar a cartilagem entre as vértebras usando britadeiras. Tem gente que levanta mesmo sabendo que em alguns dias talvez não consiga mais levantar. Tem gente que levanta sabendo que talvez não tenha arroz, feijão no armário ou até água na pia. Tem gente que levanta sabendo que se não for catar quilos e quilos de papelão, os filhos vão dormir com fome. Se conseguirem dormir.
Enquanto isso, também tem gente que não quer levantar porque por mais que tenha tudo o que o dinheiro pode comprar - inclusive antidepressivos - mesmo isso não basta pra contentá-los. Tem gente que não quer levantar porque... áh, alguns milhões a mais ou a menos, tanto faz. Tem gente que não quer levantar porque não tem nada melhor pra fazer.
Mas algo que tudo isso me fez perceber... é que sempre, sempre tem gente disposta a levantar pra explorar os outros em favor de si mesmo. Ah, isso nunca falta.

Foi daí que eu também levantei. Se há quem levante pra fazer o mal, quero ser quem vai fazer o bem.

*  *  *  *  *

Se aliança dissipar..
e sentença for só desamor!
a tormenta aumentará!
Quando uma comunidade viva!
Insurrece o valor da Paz,
endurecendo ternamente!

(...)
Cravos e Tulipas bombardeiam,
um jardim novo se levantará.
O Jasmim urge do solo sem medo.

O sol reclama no Oriente.
Brada a lua que ilumina.
Rebelando orações e mentes.

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

se junta tudo numa coisa só

Sei bem que esse é um assunto recorrente no blog, mas às vezes os pensamentos são cíclicos - assim como os acontecimentos. É incrível como um período de total confusão mental e o que às vezes parece perdição pode mudar de uma maneira absurdamente rápida, ou o que parece rápido. Nossa própria percepção de tempo é muito relativa. 
Parece ser algo meio geral - sempre tem alguém com problemas em casa, ou familiares doentes, ou algo errado. 'É, aquela época tava difícil.' Perdi a conta de quantas pessoas já ouvi dizer isso. Parece que tá tudo dando errado, você quer fugir do mundo, dos seus problemas, e às vezes até de você mesmo, caos, caos caos em toda a parte. Daí, no meio da correria frenética na tentativa de sobrevivência você percebe quão desnecessária é a correria frenética. Correr pode significar tropeçar, cair, se machucar. Você percebe que é hora de parar, sentar e usar aquilo que você tem: parar pra escutar e pra sentir, já que você não consegue enxergar. 
É nessas horas que damos valor ao silêncio, às vezes ele traduz toda a calma que você precisa. Daí do silêncio você ouve algo baixo e indistinto. Algo que vai ficando cada vez mais alto, cada vez mais inconfundível. Algo que diz que tudo vai ficar bem. Uns dizem que é o otimismo, ou a 'força interna de cada um de nós' ou até o instinto de sobrevivência, mas algo me diz que é Deus. Vamos, mais uma vez. Hora de  levantar. Você parou como deveria, hora de continuar sua caminhada. O silêncio e a pausa que foram tão fundamentais, precisam ser deixados. Aprendemos o que pudemos, agora precisamos seguir. Daí, uma luz fraca e distante surge. E daí outra aqui, e outra lá. 
E você vai percebendo que vai recebendo peças - acontecimentos, pessoas, coisas, sentimentos. Parecem meio desconexos de início, mas é algo. Com as luzes, com as pessoas, de repente tudo começa a cooperar para uma mesma conclusão. Uma coisa remete a outra, uma pessoa remete a algo e daí é que tudo se junta numa coisa só. Numa coisa incrível, que faz sentido. Algo que te muda e molda seu caráter, te faz quem você é. E você para e pensa: 'Aah... Agora tudo faz sentido!'

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Divorce of myself.

Passei os últimos minutos lendo parte do livro Face a face com o luto (A grief observed, C.S. Lewis), livro que trata do luto do autor quando perdeu sua esposa, Joy. O livro me fez pensar bastante. Segue um trecho: 

"H. representava algo fantástico para mim; uma alma simples e direta, luminosa e precisa como uma espada de dois gumes. É claro que ela não era nenhuma santa. Ela era uma mulher pecadora, casada com um homem pecador; éramos dois pacientes em tratamento com o médico divino, ainda não curados. Sei muito bem que não há apenas lágrimas para secar, mas também máculas para ser expurgadas. E com isso, a espada ficará até mais afiada."

A metáfora da espada não fez particularmente muito sentido pra mim, até que finalmente liguei a um trecho anterior a esse:

"Enquanto a pessoa amada está viva, ela nos 'arranca para fora de nós mesmos'. O que entra em cena depois disso é o espetáculo trágico de uma coreogragia que nos convida a aprender a continuar 'arrancados de dentro de nós mesmos', apesar da presença corpórea da pessoa amada ter sido arrancada de nós. Só assim podemos continuar a amar sem recair no erro de passar a amar o nosso passado, ou então, a nossa memória, ou o nosso sofrimento, ou o alívio do sofrimento, ou, quem sabe, até o nosso próprio amor."

Finalmente, começou a fazer sentido - para sermos tirados de nós mesmos, algo precisaria perfurar o eu exterior que deve ser removido, algo precisa danificar o inútil antes de abrir caminho para aquele 'nós' que precisa sair para entrar em contato com o mundo. Creio que a melhor definição fosse aquela do exoesqueleto dos insetos: para crescer, precisamos perder o exoesqueleto de tudo aquilo que nos protege contra o mundo. Precisamos de algo afiado suficiente que perfure isso para nos libertar para o crescimento - ainda seremos nós, mas seremos 'nós' melhores. Seremos nós livres de nós mesmos. 

E as pessoas são essas espadas, que podem nos tirar de nós mesmos. Mas, se você colocar uma espada ao lado de uma coisa, ela não cortará nada. Ela tem que estar nas mãos de alguém pra surtir seu efeito. 

"'Ela está nas mãos de Deus.' Essa idéia renova minhas energias quando penso nela como uma espada."

Quem melhor para munir e desembainhar essa espada do que aquele que criou aquilo que vai perfurar? Fico pensando, será que as pessoas que temos deixado se aproximar - a ponto de nos perfurar para nos tirar de nós mesmos - são pessoas que estão nas mãos de Deus? Que estão nas mãos da única pessoa que sabe separar o velho do novo sem nos machucar irreversivelmente?