Essa semana o laboratório está bem menos corrido (já que nada parece dar muito certo), e fechei a única matéria que não está em total paralisação, então acho que isso tem me dado um pouco mais de tempo - tempo pra sair, tomar um suco de maracujá e morango com os meninos, ler um livro, organizar minha casinha... e a organização sempre rende umas reflexões bacanas. Mas, como diria a Lina, às vezes meu cérebro faz umas sinapses muito erradas.
De vez em quando, na organização, ou em conversas durante o pão com mortadela, o passado me bateu no consciente. Eventos, características que passaram, outras ficaram, pessoas que passaram, poucas que ficaram. Tudo me fez perceber como estou em uma etapa da minha vida completamente diferente das outras. Se fôssemos comparar a paleta de cores da minha mente de cada período, a dos últimos... talvez cinco meses seja a que mais se destaca do degradê clichê que estava até então.
E é peculiar, porque, assim como um bêbado só sabe que estava bêbado quando fica sóbrio, ou como quando só tomamos consciência do fato de que dormimos quando estamos em estado de plena consciência, essa é a sensação que tenho olhando pra trás. Agora que tudo fez sentido.
Não é como se eu olhasse com raiva do que era, remorso, ou saudosismo, simplesmente é 'ok, você já fez parte de mim. Virou o que tinha de virar, então tá bom!', sem cerimônias. Se eu pudesse mudar coisa ou outra? Talvez seria válido. Mas não dá, e também não dá pra entender o que eu era - quanto mais o que eu sou, mas não preciso.
Lendo C.S.Lewis, ele usa uma figura que gostei bastante (pra outra conclusão, logicamente) que... desde sempre o homem se alimenta, precisa comer pra sobreviver. Contudo, recentemente descobrimos tudo o que a alimentação envolve - dados sobre calorias, gordura, vitaminas... E podemos usar isso pra planejar nossa alimentação, ou podemos comer de forma que nos sintamos bem, que nosso corpo aceite bem, sem saber direito o que tem dentro daquilo - porque sobreviver é mais importante que algumas calorias ou vitaminas a mais ou a menos.
Na vida, é igual. A gente pode tentar dissecar tudo na nossa vida pra pensar, e raciocinar, mas sobreviver é mais importante. Às vezes a gente tem que parar de pensar pra sobreviver e simplesmente viver à base daquilo que temos - estando vivos, felizes e bem, pensar pra quê?
"De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? O antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
E se antes, um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa...
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem"