segunda-feira, 30 de julho de 2012

Divorce of myself.

Passei os últimos minutos lendo parte do livro Face a face com o luto (A grief observed, C.S. Lewis), livro que trata do luto do autor quando perdeu sua esposa, Joy. O livro me fez pensar bastante. Segue um trecho: 

"H. representava algo fantástico para mim; uma alma simples e direta, luminosa e precisa como uma espada de dois gumes. É claro que ela não era nenhuma santa. Ela era uma mulher pecadora, casada com um homem pecador; éramos dois pacientes em tratamento com o médico divino, ainda não curados. Sei muito bem que não há apenas lágrimas para secar, mas também máculas para ser expurgadas. E com isso, a espada ficará até mais afiada."

A metáfora da espada não fez particularmente muito sentido pra mim, até que finalmente liguei a um trecho anterior a esse:

"Enquanto a pessoa amada está viva, ela nos 'arranca para fora de nós mesmos'. O que entra em cena depois disso é o espetáculo trágico de uma coreogragia que nos convida a aprender a continuar 'arrancados de dentro de nós mesmos', apesar da presença corpórea da pessoa amada ter sido arrancada de nós. Só assim podemos continuar a amar sem recair no erro de passar a amar o nosso passado, ou então, a nossa memória, ou o nosso sofrimento, ou o alívio do sofrimento, ou, quem sabe, até o nosso próprio amor."

Finalmente, começou a fazer sentido - para sermos tirados de nós mesmos, algo precisaria perfurar o eu exterior que deve ser removido, algo precisa danificar o inútil antes de abrir caminho para aquele 'nós' que precisa sair para entrar em contato com o mundo. Creio que a melhor definição fosse aquela do exoesqueleto dos insetos: para crescer, precisamos perder o exoesqueleto de tudo aquilo que nos protege contra o mundo. Precisamos de algo afiado suficiente que perfure isso para nos libertar para o crescimento - ainda seremos nós, mas seremos 'nós' melhores. Seremos nós livres de nós mesmos. 

E as pessoas são essas espadas, que podem nos tirar de nós mesmos. Mas, se você colocar uma espada ao lado de uma coisa, ela não cortará nada. Ela tem que estar nas mãos de alguém pra surtir seu efeito. 

"'Ela está nas mãos de Deus.' Essa idéia renova minhas energias quando penso nela como uma espada."

Quem melhor para munir e desembainhar essa espada do que aquele que criou aquilo que vai perfurar? Fico pensando, será que as pessoas que temos deixado se aproximar - a ponto de nos perfurar para nos tirar de nós mesmos - são pessoas que estão nas mãos de Deus? Que estão nas mãos da única pessoa que sabe separar o velho do novo sem nos machucar irreversivelmente?

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