sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ficção distópica, dor e suas reflexões

Tenho passado uma quantidade de tempo considerável lendo ficção distópica, estou terminando o quinto livro no tema. Não são livros muito relevantes no tema como, por exemplo, 1984;são livros que eu não esperava que fosse me interessar, mas me fizeram pensar muito. Li a série "Jogos Vorazes" e estou lendo a série "Divergent" (que não vou terminar tão cedo, já que o último livro ainda vai demorar um pouco antes de ser publicado). Mas entre isso e o que estou eu mesma escrevendo, tenho percebido que, até na ficção, não pode estar tudo errado. Precisamos de algo para sobreviver.
Em geral acaba sendo romance o que a ficção usa pra sobrevivermos - aquele momento de pausa entre tiros e sangue e morte. A própria leitura fica cansativa se não temos isso. Mas tenho pensado em quão vazio é esse refúgio, se formos parar pra pensar. Nas histórias, isso que mantém a sanidade das personagens quando todos parecem estar morrendo, em dor ou mortos, e adotam um ao outro como seus escudos de salvação, isso realmente é sábio? Não é uma coisa passageira demais pra personagens se prenderem?
E, curiosamente, minha resposta final é: não, não é. E isso se aplica pra vida, não só pra ficção. Porque se considerarmos períodos de instabilidade, guerra e revoluções, tudo o que todos querem é um alívio para aquilo, um fim para a dor, e a dor acaba unindo mais do que o amor em primeiro lugar.
Um pensamento em defesa da minha teoria - em que situação é mais provável que as pessoas sejam solidárias e gentis umas com as outras: quando todos estão felizes, de barrigas cheias e com as pessoas que amam ao lado delas pra ajudarem-nas caso tudo vá mal ou quando estão em crise?
A solidariedade acaba sendo um tipo de expressão que precisa de problemas pra se manifestar, a dor é necessária para que ela seja expressa, e acaba sendo uma das formas mais intensas de relacionamento interpessoal e menos racional - ter um 'parasita' no seu grupo que não pode te dar nada em troca, que você está ajudando meramente por ser um ser humano. Não, isso não é lógico aos nossos instintos. Não, isso não faz sentido no reino animal.
Acaba sendo uma forma de amor muito diferente das outras - não é porque queremos ter prole, não é porque vamos ganhar algo em troca, é porque um lado de nós, um lado menos animalesco e, ouso dizer, mais divino que permite que haja esse amor.
Não temos nada a perder, perdemos tudo o que tínhamos, então nos arriscamos em empreitadas completamente insanas do ponto de vista do nosso funcionamento tradicional. É como se aquilo fosse o nosso último suspiro de esperança - alcançar pessoas que evitávamos em busca de ter alguma coisa, qualquer coisa na verdade para sobreviver a esse mundo.
Percebi que, por pior que seja a dor, ela traz consigo algo divino, algo acima da nossa compreensão lógica. A dor nos une quando o amor falha em fazer isso por si só. A dor é necessária. A dor nos faz mais do que animais.

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