Certo dia uma boneca de pano chorava. O soldadinho de chumbo veio falar com ela "porque olhos tão lindos estão tão salinos?" perguntou com delicadeza. "Não sou feliz, e por isso nenhuma criança me quer - quem quer uma boneca triste pra brincar? Toda molhada e pesada... Então fico mais triste e choro mais!" O soldadinho ficou pensativo um instante. "Também não sirvo muito bem de soldado..." andou pela brinquedoteca, "sou tão atrapalhado que quando vou à batalha riem de mim em vez de me temerem... um homem de guerra desengonçado..." mas antes que terminasse a frase, caiu de cara na tampa de tinta guache aberta no chão. Levantou o rosto todo pintado, apenas os olhos de fora. "...assim."
Sentou-se no chão em silêncio. Foi então que a boneca começou a rir da situação, da expressão estampada no rosto do soldado. Isso deu-lhe uma idéia.
Com algum esforço abriu a tinta vermelha e pintou o próprio nariz e um sorriso exagerado na boca. Virou-se e a boneca ria. Veio com a tinta no dedo e pintou-lhe um sorriso também. Ela gargalhava, e a água das lágrimas que lhe pesava saía aos poucos com os risos, secou-se toda!
"Agora nenhuma criança vai te achar triste demais pra brincar!" e sentou-se ao seu lado. "Então, você não devia ser soldado, mas palhaço!" "O que me chamam não vai mudar, mas posso mudar o que sou de verdade!" disse com certo orgulho da própria frase "Além do mais, o que é o palhaço senão um homem todo pintado de piada?" "É você", disse ela com um sorriso.
"E você, quando for chorar, lembra que sempre tem alguém que pode pintar um sorriso em você, daí não precisa ser a boneca triste do jeito que te fizeram, pode ser quem você é de verdade!"
* * * * *
Folia no quarto ~oteatromagico
Se água nos olhos do palhaço molha
Menina dos olhos abandonada
Boneca de pano, de pena, chora quando
Água nos olhos da gente escorre
Corre beirando boca, ribeirão
Dorme junto ao coração
Faz do peito cachoeira
Leva, lavando, me deixando leve
Que a certeza não escorregue
Feito pedra de sabão
Bola, vidro, janela, bronca, tapa
Dias e dias sem televisão
Fecho porta pra não escutar briga
E, também, pra briga não escutar minha canção
Que faço distraindo a vida
Vou traindo minha sina
Distraindo decisão
Falo coisas que as vezes não faço
Sou boneca, sou palhaço, ponto de interrogação
Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão
Toda brincadeira começa com alegria
Mas o sino do almoço troca o riso por feijão
Todo ser seria
Todo rio riria
Toda flor folia
Abajour pra escuridão
Quero mais careta no retrato
Quero mais folia no meu quarto
Quero mais careta no retrato
Quero mais folia no meu quarto
Simplesmente Lindo.
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