Pisei na relva com minhas botas e observei os pedaços de terra ausentes de grama e ergui os olhos mais uma vez pra paisagem verde, com árvores, uns arbustos e animais pastando do outro lado de uma cerca. Eu pensei: "Será que tudo vai parecer um sonho? Algo lindo e tão perfeito que não vou lembrar direito quando acordar amanhã? E se eu não dormir? Daí lembro da minha vida a partir daquele momento de maneira contínua e permanente..."
Isso foi o último pensamento passando pela minha cabeça antes de pisar no ônibus que me traria de volta do Curso de Férias 2013. Foi uma semana tão cheia, tão carregada, tão pesada, mas ao mesmo tempo saí leve. Foi uma sobrecarga emocional, psicológica, física, que ainda vai levar bastante tempo pra sintetizar.
Todas as reflexões e denúncias, todo o pranto, foi ligado a tantas áreas da minha vida, desde identidade, prioridades, vida acadêmica, família, perdão, passado, planos para o futuro, ponderei muito sobre tudo isso, chorei bastante também, mas ao mesmo tempo consolei e fui consolada. No final, cresci. Ou melhor, comecei a crescer.
Foi na quinta-feira, quando estávamos orando pelos movimentos estudantis do mundo inteiro com uma tradição Norueguesa que eu estava lá com a minha vela branca na mão que me ocorreu que não eram todos itens soltos e rotulados individualmente esses que estavam sendo influenciados no curso. Tudo convergiu.
Decidimos que pra todos acenderem suas velas seria mais simples passar adiante o fogo em vez de riscar fósforos, acendemos uma vela e dela fomos acendendo as outras. Eu estava indo passar adiante a chama quando alguém veio por trás: "Mel, me dá um pouco de fogo?" que naquele simples gesto de eu virar a vela pra cada um dos pavis se tocarem que eu percebi, que uma epifania me atingiu em cheio que nem um golpe de verdade. Camões estava certo o tempo todo. O amor é fogo que arde sem se ver.
Eu acendi a vela de outra pessoa, eu dei fogo, mas a minha chama não diminuiu. Eu dei o que eu tinha, mas não fiquei com menos. Eu doei, mas todos ganharam. Eu percebi naquele instante que o amor de Deus é exatamente assim: Você dá, compartilha com todo mundo, mas não fica com menos. Você ama porque é amado, você pode dar amor, porque recebeu a faísca inicial diretamente de uma fonte interminável. Ele deu uma fonte tão interminável, que ela cresce quanto mais você dá espaço, ele consome tanto de nós pra nos encher de algo maior, melhor, quente, que junta pessoas, que ajuda pessoas, que dá luz pra alguém não se perder no escuro.
Quando percebi, tudo fazia sentido. Tentei a minha vida inteira amar, perdoar, mas eu nunca consegui por mim só, porque eu não consigo produzir essa faísca. Foi porque Ele me deu que eu hoje posso dar, e de repente grande parte das ambições, das preocupações, simplesmente pareceram tão pequenas. Tantas ofensas e feridas que carreguei com raiva, vingança e ódio, perderam o sentido quando eu vi o tamanho do amor que ele me deu através da cruz.
Quantas vezes eu não ofendi Ele ao pecar? Feri Seu coração ao pecar e nem percebi? Quantas vezes eu saí do plano inicial por achar que eu deveria ser isso ou aquilo, por achar que eu precisava fazer ou ter pra receber amor? Então, por que raios eu deveria me achar no direito de julgar outra pessoa, de ter raiva ou não perdoar? Seria que nem eu dever alguns milhões de reais a uma pessoa e essa pessoa me perdoar por não pagar, e eu sair e cobrar outra pessoa que me devia 50 centavos. Não faria sentido. Seria ridículo. Patético. Egoísta. E me tornaria ainda menos merecedora de um amor que eu já não mereço.
Então eu virei as costas pra paisagem com animais pastando e tive certeza: Eu tenho tanto, mas tanto, que qualquer perda vai parecer tão pouco ante todo o amor que Ele me deu. Eu tenho tanto, que, se eu mantiver essa chama viva e crescendo cada vez mais, eu não tenho nada a perder. E mesmo se perder a memória de tudo o que aconteceu lá em Bauru, eu ainda tenho o amor Dele. E isso é tudo o que eu preciso.
uau!
ResponderExcluirmouse