domingo, 17 de agosto de 2014

Heróis Póstumos

Nos últimos anos, temos tidos grandes perdas para a humanidade, tanto culturais (cinema, música, literatura), como políticas. Só pensando nas últimas semanas penso em Rubem Alves, Robin Williams, Eduardo Campos. Grandes massas se mobilizam. Homenagens, flores, choros, camisetas, vídeos, cartas - se vê de tudo nas redes sociais e na mídia em geral. Mas é triste isso, que as pessoas só se importam com aquilo que não tem mais. 
Quantas pessoas já tinham lido a obra de Rubem Alves quando era vivo? (leram algo além das frases soltas e fora de contexto no facebook, claro) Quantas pessoas realmente se importavam com o estado psicológico/psiquiátrico de Robin Williams, mesmo quando ele estava vivo o suficiente para fazer filmes para entretê-los - mesmo que estivesse destruído por dentro? Quem se importa! Ele ainda faz filmes que nos fazem rir! 
Percebi isso - de maneira muito discreta, é claro - com minha iminente partida. Pessoas que eu nem conhecia direito, quem eu duvido que soubesse meu nome inteiro começou a vir falar comigo, pedir notícias, falar em despedidas e em saudades. Fiquei confusa. A ausência provoca estrelato instantâneo. E o mais engraçado, é que isso aconteceu mais com as pessoas que me conhecem menos. 
Isso me incomodou profundamente. Porque uma pessoa ausente (seja por viagem, morte, ou qualquer outro motivo), pode ser quem você quiser que ela seja. Você pode idealizar quanto quiser daquela pessoa (especialmente se a conhece pouco): a pessoa real não está presente pra te lembrar dos defeitos, dos problemas, dos dias em que o poeta não poetiza, o palhaço não faz rir, o político faz declarações duvidosas. Torna-se, por assim dizer, uma paixão platônica pela imagem que fica, ausente de realidade. Ausente de humanidade. 
É isso, não gostamos de gente humana, que erra, que faz as coisas fora do que a gente espera. A gente gosta de heróis, de semideuses, e os vivos são antiheróis por humanidade, e não são semideuses por mortalidade. Apenas a imagem idealizada pode ser eterna, imácula, extraordinária. Por isso só podemos agradecer, homenagear e admirar tanto assim - fazer tanto escarcéu - pelos mortos. 
Mas como seria o mundo se fôssemos agradecidos pelos imperfeitos? Se lêssemos as obras dos autores vivos? Se mostrássemos para eles - em vez de para nossa lista de amigos do facebook - nossa admiração? Será que seria diferente? Será que eles iriam embora acreditando ter cumprido alguma coisa de útil? 
Talvez isso só inflaria o ego deles, ou talvez isso os desse esperança. Talvez os destruiria, mas talvez os incentivaria. Nunca soubemos, nem saberemos o efeito que isso poderia ter sobre uma alma humana - imperfeita, em busca de amor e aprovação. Mas o que sei é que seria legal se a gente não esperasse até as pessoas morrerem pra reconhecer suas virtudes, caráter, e mesmo defeitos. Simplesmente pra sermos uma alma humana diante de outra alma humana, e reconhecer que uma constrói a outra - que você não precisa morrer nem ter sua imagem adornada pela morte pra ser alguém importante. Que mesmo que você ainda conjugue verbos no presente - não mais só no passado, e em terceira pessoa - você ainda tem valor. Por isso que tem o nome de 'ser humano', em vez de 'foi humano'. 

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